novembro 01, 2009

poeminha em s







solilóquios
sem sequência
solitários
sem sumo
sem substância
soluçando segredos
sussurrando silêncios
semeando solidões
sombras suaves
sempre


(ah pois... imagem roubada algures na net)

outubro 16, 2009

poeminha em a







anda amor
avança
alcança agora
afoito atinge
abraço aperto
arrepio aberto

abranda agora
amacia amando
alivia
adormece


(imagem roubada algures na net)

acordares

Como a casa acorda devagar, fios de luz pelas frestas das persianas deslizando no soalho, o gato que se espreguiça ao fundo da cama remiando baixinho, água a correr na casa de banho, passos leves no corredor, louças a tinir na cozinha, cheiro a café e a porta que se fecha sobre o silêncio que fica.

A casa a acordar devagar e eu a recusar o dia.

outubro 15, 2009

rotos copia



Eu passei um serão a imprimir e dois a digitalizar, que sou muito boa mãe e isto tinha de estar pronto na sexta-feira, dia em que também há exame de código. O nome dele aparecia no messenger com um "animation makes eye-pain", pois desenhar por cima dos fotogramas sobre uma mesa de luz, dá cabo dos olhos, acredito. Depois coloriu com aguarelas. O filme tinha de ter cerca de 5 segundos, foram 64 frames.

Ficámos rotos. E o filme ficou giro. Digo eu, que sou a mãe.

asas


depois do depois disso
isto apenas
o meu nome
na tua boca
sussurro
perto
tão perto
arrepio
sopro breve
abraço macio
asa leve
breve já

outubro 08, 2009

ainda do debate dos candidatos à cml

Dos senhores dos partidos pequenos, gostei do ar intelectual do do MEP. Registei que aquele que se foi embora disse que alguém "interviu" e o do PTP disse "póssamos" ou talvez "fáçamos", já não sei bem. Mas, como PSL também disse e repetiu "à última da hora", acho que estão bem uns para os outros.

Claro que, obviamente, tudo isto não tem a menor importância.

pesadelo

Esta noite sonhei que o PSL ganhava as eleições em Lisboa com uma diferença de 1%. Acordei a suar, antevendo Santanetes.

outubro 07, 2009

do debate dos candidatos à CML

Gostei, mas é que gostei mesmo, de ver o António Costa a chamar pelos devidos nomes a actuação vergonhosa daquele partido do homem da pêra e bigodinho que, na minha modesta opinião, não devia ter direito a existência legal num país democrático: "xenófobo", "racista" e "anti-constitucional"; isto a propósito de, para quem não viu, a CML ter retirado um out-door em que o tal de PNR apregoava: "não à imigração". É assim mesmo, ó Costa!

setembro 29, 2009

piss on shower

Recebi há pouco um e-mail que abria assim:

"ONG incentiva chichi no duche para poupar água. A SOS Mata Atlântica, uma organização não-governamental (ONG) brasileira, lançou uma campanha publicitária a incentivar as pessoas a fazerem chichi durante o duche para economizar água."

Primeira pergunta: mas há alguém que não faça? Pronto, não digo no balneário do ginásio, mas no conforto do duche do lar, há alguém que não faça?

Depois, no corpo do e-mail às tantas dizia-se:

"Só em São Paulo, exemplificam, poder-se-ia economizar mais de 1.500 litros de água por segundo."

Não sei como raio fazem estas contas... ora deixa cá ver, vamos lá pensar. Admitamos que uma descarga de autoclismo tem 10 litros. Agora pensemos que os Paulistas substituem um xixi na sanita por um xixi no banho por dia. A wikipédia diz que a região metropolitana de S. Paulo tem 19.223.897 habitantes. Se todos fizerem um xixi no banho diariamente, poupam 192.238.970 litros de água por dia em decargas de autoclismo. Como um dia tem 86.400 segundos, isto daria 2.225 litros por segundo de poupança. Bom, não está muito longe dos 1.500 se pensarmos que nem todos tomam banho diariamente.

Agora, se levarmos a coisa à letra e, de cada vez que quisermos fazer um xixi, tomarmos um duche? Para além de não ser prático, gasta-se muito mais água, não é? Ainda por cima, toda a gente já faz xixi no duche, acho eu. Contas feitas, continuarei a fazer o meu xixi no duche, mas não é por aí que me sentirei a contribuir para salvar o planeta.

setembro 27, 2009

descubra as diferenças

Voz de ordem dos meninos do PS - "é jota é ésse, é jota ésse"

Voz de ordem dos meninos do PSD - "é jota é dê, é jota ésse dê".

Isto, apesar de não querer dizer rigorosamente nada, apregoa o mesmíssimo nada.

O futuro adivinha-se tão cinzento ou mais ainda do que o presente.

setembro 26, 2009

a minha cruz

Há dias recebi esta tira da Mafalda no meu e-mail. Lembrava-me bem dela, como me lembro de quase todas, tantas foram as vezes que li, reli e releio as Mafaldinhas e os cartoons do Quino.

Quando recebi a tira ainda estava sem saber em quem votar. Como não ir às urnas está fora dos meus princípios e votar em branco me deixaria com a sensação de deixar para os outros uma decisão que acho dever também ser minha, se bem que o voto em branco me livrasse de futuros sentimentos de culpa, lá decidi em que quadradinho vou deixar a minha cruz (gosto deste duplo sentido de "a minha cruz").

Mesmo achando que o meu candidato não vai ganhar, isso não impede, porém, que me continue a sentir exactamente como o pai da Liberdade.

agosto 28, 2009

irra!!!!!!!!!!!!!!!

Gostava de saber quem foi o/a #$%&(&%$" de designer gráfico/a que pariu os "cartões de empresa" do instituto de registos e notariado e, já agora, quem é que foi com ele/a para a cama ou assim, para aprovar e pagar a sua criatividade bacoca com o dinheiro dos nossos impostos.

Há necessidade de, num cartão que tem as dimensõs de um vulgar cartão de crédito usar letrinhas tamanho meio milímetro e deixar mooooooooooooonntes de espaço sem nada? É que nem com a $#$&@€£ dos óculos no nariz consigo ler sem margem para dúvidas o meu número de contribuinte, caraças!

agosto 27, 2009

divines



Ontem reencontrei Fanny Ardant. Vinha para casa no carro, a Europa Lisboa a passar o "à quoi sert de vivre libre" e eu a lembrar-me de "huit femmes" e de como me tinha esquecido desta canção e de todas as outras do filme menos de "t'es plus dans le coup papa". Curiosa a memória musical.

Fanny Ardant deu-me vontade de Catherine Deneuve e



Catherine Deneuve de Isabelle Huppert, de forma que cheguei a casa e procurei os vídeos no tubo.

.

Divinas, todas elas, mas sobretudo estas três. Adoro este filme.

Já deixei o link da canção de Ludvine Sagnier lá em cima, os outros aqui: "mon amour, mon ami" por Virginie Ledoyen, "pour ne pas vivre seul" por Firmine Richard, pile ou face" por Emmanuelle Béart e "Il n'y a pas d'amour heureux" por Danielle Darrieux.

agosto 24, 2009

japspam

O meu blogue foi invadido por spams japoneses, o que me obrigou a activar a verificação de palavras, coisa com que embirro nos blogues dos outros porque me levam a escrever coisas tão ilegíveis como "whsbgfh" ou tão embaraçosas como "recocona" de cada vez que quero comentar alguma entrada.

Talvez assim deixem de aparecer aqui comentários como este "台灣這次受到洪水侵襲造成巨大災難,讓我們發揮愛心一起幫助這些需要幫助的人,現在你只要每點擊任何一個關鍵字連結,將會得到新台幣一元的贊助,讓我們一起共同創造世界和平~感謝您!", que me deixam hesitante entre o contente, o ofendida, o pensativa ou o inspirada e sem saber de todo o que responder.

E hoje fico-me por aqui, pois aconteceu aos parágrafos que aqui estavam a seguir o mesmo que tem acontecido a quase tudo o que tenho escrito, ou feito, ou pensado ultimamente: "delete". As simple as that.


E espero que me passe esta neura que me leva a vaguear em mim, apenas.

E agora que olho com mais atenção para os caracteres lá em cima, parece-me mais chinês, aliás os comentárias vinham de Taiwan. Bom, whatever, para o caso pouco interessa...

agosto 20, 2009

banho de lua



Em conversas de luas e luares, aconteceu-me ontem recordar este banho de lua de Celly Campello que estava perdido lá nos confins da memória da minha infância.

Esta música estava no top bem no início dos anos 60 e fazia parte da reduzida discografia do meu irmão, uma ou duas dúzias de discos de vinil dos pequenos, com duas músicas cada um, de forma que ele os ouvia vezes sem conta no pick-up lá de casa.

Anos mais tarde, quando eu própria comecei a interessar-me por música e a coscuvilhar os pertences do mano, encontrei o "banho de lua / estúpido cupido" de capa já gasta e coberta com o pó que ganham as coisas onde não se mexe por muito tempo.

Curiosa foi a reacção da minha mãe que, quando eu coloquei a agulha sobre o disco e a Celly Campello começou a tomar o seu banho de lua na sala de estar, teve um ataque de nervos e mandou-me parar com aquilo imediatamente. Obedeci, sem perceber o que tinha a minha mãe contra os primórdios do rock brasileiro, que a fazia ficar tão irritada.

E a razão era simples. Tal como algumas grávidas desenvolvem súbitos desejos de cerejas em pleno inverno, ou não suportam o cheiro das margaridas, outras, caso da minha mãe, ganham repulsa a músicas. Não conheço mais casos, mas a minha mãe é uma pessoa original. Ao que contam, o mano, então com 10 ou 11 anos, tomava banho de lua com a Celly umas dezenas de vezes por dia enquanto a minha mãe docemente me gerava no seu ventre, até ao ponto de a pobre senhora, outros 10 ou 11 anos passados, continuar a não suportar estes banhos.

Enfim, em mim não produziu o mesmo efeito e, quando alguma imposição maternal ia contra as minhas vontades, punha o banho de lua bem alto e fugia.

agosto 19, 2009

hoje ao jantar...

... a amiga com quem estava, procurando uma qualquer aplicação do seu telemóvel:

Às vezes pareço um homem... tenho as coisas à frente dos olhos e não as vejo!

É como eu. Cada vez tenho mais dificuldade em fazer várias coisas ao mesmo tempo, embora ainde me desembarace bem com 3.

Será que à medida que avançamos na idade vamos ficando mais masculinas?

agosto 17, 2009

hot hot hot

Não gosto deste calor a não ser que me materialize à beira d'água e me embeba na sua doçura fresca. Corpo a deslizar na água ou água que desliza no corpo, tão transparente e macia como a camisola do dia na canção.

Não gosto deste calor de ananases (vá-se lá saber por que se diz calor de ananases e não de bananas que são bem mais quentes, digo eu) que me faz a pele pegajosa, humidades e suores misturados com pós e coisas que andam pelo ar, a menos que possa estar como vim ao mundo espojada num lençol branco, lavado e bem esticado, com um pano molhado pendurado no vão da janela aberta e que a brisa liberte de frescura.

Não gosto deste calor a não ser à noite, se me passeio à beira-rio, escapando-me de todos os outros que se passeiam de noite à beira-rio porque não gostam deste calor e por ali sempre têm a ilusão de vagas brisas, mais largas ainda assim que as dos aparelhos de ar condicionado que se regulam para 18ºC e não fazem o termómetro baixar dos 24.

Não gosto deste calor que aquece como uma estufa o meu apartamento de último andar, apesar das vistas da varanda e das larguezas que lhe gabo.

Não gosto deste calor, a menos que o tenha num qualquer destino onde a vontade me leve e ele avive os cheiros a terra ventre parindo naturezas e cores e sabores que até aí me eram estranhos.

Não gosto deste calor, ainda que a minha alma me leve sempre para Sul os passos.

Não gosto deste calor aqui.

agosto 09, 2009

tv night



Hoje vimos "ponyo on the cliff by the sea" sentadinhos no sofá da sala. Chamem-me ignorante, se quiserem, mas a animação japonesa para mim era sempre o dragon ball que chupei até à medula quando o meu filho era pequeno. Por isso não vi "a viagem de chihiro" nem o "castelo andante", mesmo com toda a gente a dizer-me que eram bons.

Este ano, na praia, voltei a ouvir os meus amigos a gabarem Miyazaki e lá trouxe o ponyo gravado na pen, versão japonesa já com legendas em português e tudo, ripado de um sítio com o fantástico nome de "piratatuga" (nunca tirei filmes da net, nem músicas, mais fácil pedir a quem já o fez, por isso não conheço estes nomes deliciosos).

E pronto, gostei do Miyazaki. Alguém tem por aí os outros? Hum?

agosto 08, 2009

gato

Hoje acordei com os costumeiros miados do Sushi à porta do meu quarto. Desde que adoptei o Sushi e o Gato, em janeiro deste ano, depois da morte inesperada do Gaston, que sempre dormia sossegadamente aos pés da cama, passei a ter de fechar a porta para evitar acordar à 5 da manhã com as brincadeiras dos felinos que utilizavam a minha cama (e eu lá dentro) como campo de batalha. Fico assim tranquila durante a noite mas, pela manhã, o Sushi habituou-se a chamar-me com lamentosos miados do lado de fora da porta.

Pois levantei-me, enchi o prato dos gatos com ração e voltei para o aconchego dos lençóis; 8h30m de sábado, não é, para mim, hora de me pôr a bulir. Nove horas e tocam insistentemete à porta. Faço-me de surda, não vou abrir e amaldiçoo o mundo inteiro que não me deixa dormir. Cinco minutos depois toca o telemóvel sobre a mesa de cabeceira. Olho o mostrador e vejo o nome da porteira. Mau... Que se passa? Atendo e a voz do outro lado depois de cumprimetos e hesitações: "Tenho o seu gato morto no meu terraço". Merda, merda, merda. O Gato, o tigrado que, de tanto nome que teve, continuava a chamar-se apenas "Gato" caíu da varanda durante noite, provavelmente numa brincadeira mais desastrada com o irmão, e, infelizmente, falhou o toldo da porteira que lhe teria amparado a queda de 6 andares.

Durante 6 anos, o Gaston ensaiou equilíbrios e passos de dança sobre o varandim e nunca caíu. O Gato tinha 10 meses e era possuidor de uma das pelagens tigradas mais bonitas que já vi, para além de ser de uma meiguice avassaladora. O Sushi anda para aí a miar à procura do seu companheiro de brincadeiras. Já está no canil, onde o deixei há pouco dentro de um saco de plástico num carrinho de mão. Merda, merda, merda.

agosto 07, 2009

encontros e despedidas



Há um espaço que não cabe no tempo, onde nos encontramos. Onde não há o que foi, nem o que será, nem o que nos rodeia quando não estamos ali. Apenas eu e tu e o instante. Apenas aqui e agora, por vezes palavras, por vezes silêncios entre duas chávenas de chá e quadradinhos de chocolate preto. Apenas olhos que se penetram talvez pelo prazer do olhar, talvez a tentar adivinhar o que está para lá das negras pupilas.

Que te dizem os meus olhos? Eu olho, penso que nada e pergunto-me como será possível estar um olhar tão cheio de nada. Um nada cheio de tudo o que não me dizes e que me faz ter medo de que um dia se abra e o nada saia todo cá para fora e me soterre.

Música, palavras, silêncios, sossegos, a noite que entra livre pelas janelas e que chega para nos iluminar o instante, os corpos e as palavras. Resvalam os olhos dos olhos para a pele, as mãos, o corpo a pedir o encosto de outro corpo que no momento o complete. Carícias, afagos, beijos, dedos no arrepio da pele, corpos enrolados, risos, sorrisos, gritos e suspiros, subitamente o olhar que deixa escapar algo para além do nada que o enche.

Nunca sei se te volto a ver e no entanto… Eu também não sei. …e no entanto gosto tanto. Eu também. Palavras, silêncios, música, a noite a entrar livre pelas janelas, uma bolha parada no tempo e nós lá dentro no tempo em que nos encontramos. A bolha prestes a rebentar e por isso até breve, antes que o que foi e o que será se lembrem de vir preencher silêncios e sossegos, tomem conta de nós e nos façam perder o momento, o instante em que nos abrimos, em que nos fechámos, actores de nós próprios ou talvez não.

E partimos sós, cada um para o seu tempo e o seu espaço com aquele até breve que nos enche o corpo, as mãos e os sentidos. E se um leve sabor amargo me ameaça os lábios, passo por eles a língua até recuperar o doce.

Ficam bolhas que flutuam no espaço sem tempo e lá dentro imagens de nós presos em momentos.

agosto 05, 2009

operações de câmara

O meu filho teve uma cadeira na faculdade chamada "operações de câmara". O exercício proposto no final do ano consistia em fazer um pequeno filme baseado nesta cena de "il buono, il brutto, il cattivo" de Sergio Leone, em que a montagem de planos e o jogo de câmara são decisivos para a criação de suspense:



A realização do exercício coincidiu com uns dias que ele e os colegas de grupo passaram comigo nas férias, no Algarve. Depois de andarem a moer o juízo a meia praia, a transformarem-me a mim e aos meus amigos em actores de ocasião, regressaram a Lisboa 24 horas antes do prazo de entrega do trabalho, completamente descontentes com as cenas que tinham filmado. Numa noite e numa manhã, mudaram o argumento, voltaram a filmar e fizeram isto:



Eu acho que ficou mesmo bem!

agosto 04, 2009

brilhos sorrisos

Ah... como gosto
de brilhos nos olhos
e nos sorrisos
aos molhos

os brilhos
em risos sorrisos
fazem sorrir
e brilhar meus olhos

inspirado aqui

julho 20, 2009

palavras ouvidas na praia #2

Conversa entre dois adolescentes:

Gonçalo (13 anos) - Hoje passei-me com as miúdas, estavam sempre a pôr-me areia na toalha.
João Afonso (18 anos) - Vais ver que na vida terás sempre mulheres a pôr-te areia na toalha.

Gostei da metáfora.

julho 11, 2009

palavras ouvidas na praia

O vulcão está a diminuir
a qualquer momento pode explodir.

Alice, 6 anos, a propósito de uma pequena colina nas dunas, que está menor que no ano passado.


julho 10, 2009

o regresso aos mutantes


E tal como há a vontade sempre premente que me leva para destinos longínquos e desconhecidos, há o caminho repetidamente traçado que todos os anos me traz a esta língua de areia ao Sul que teimosamente resiste aos avanços do mar que se abre para lá dos sapais.

E sempre que volto é doce, mas tão forte como se uma primeira vez fora, este reencontro com o areal que se estende vazio e impoluto nos passeios solitários de fins de tarde e manhãs de sol rasante, em que mais não ouço do que o vento nas dunas, o rebentar macio das ondas, os pios das gaivotas e andorinhas do mar.

O mesmo areal que desliza suave sob os meus passos, as mesmas conchas e algas e peixes e pedrinhas, os mesmos golpes fininhos nos pés que, entre caranguejos pretos e caranguejos laranja, se afundam no lodo negro da ria quando teimo em ir descalça pela maré vaza ver os progressos das ostras da Clara, as mesmas bebidas ao pôr-do-sol generosamente servidas no bar da Vera, os amigos que são os amigos daqui e que estranho se o acaso nos cruza depois em roupas de Lisboa, os avanços das crianças que orgulhosamente exibem dentes novos e mais 10 cm que no ano anterior, a lua cheia que se reflecte num caminho dourado sobre o mar chão, as conversas à noite num qualquer terraço de uma qualquer casa sobre a praia à luz das velas e dos candeeiros a gás.

É assim regressar à ilha. Reencontrar o que parece que não muda mas muda, pois que as conchas e pedras e algas são no todo as mesmas, mas são outras enquanto unas, tal como as gaivotas, os peixes e as andorinhas do mar, ou a escultura que reune todos os lixos que o mar traz e que vai crescendo ao sabor de quem passa e lhe acrescenta mais uma garrafa, mais uma bota, mais uma troço de rede de pesca, mais uma cana.

E é isto que faz com que o repetido retorno tenha o sabor da tranquilidade de uma rotina, mas também o espanto da descoberta das coisas mutantes.

junho 30, 2009

dos dervixes em istambul


roda o dervixe
de saia rodada
roda a saia
redonda roda
brancas as voltas
da saia que roda
nas voltas do corpo
que roda (n)a saia
na dança redonda
de braços no ar
às voltas na dança
a rodopiar

junho 29, 2009

já só penso...

...que daqui por 4 dias vou de férias. Férias à séria. 3 semanas seguidas.

Sexta feira deixei 90 mails por ver. Ontem, Domingo, em duas horas de trabalho não remunerado, dei conta de 50 e deixei 40 para hoje. Quando cheguei hoje de manhã, tinha a caixa assim:

Não tarda grito.

desenhando no zoo

E de um sábado a desenhar no zoo sairam algumas coisas. Aqui.

de uma janela em Istambul




A Mesquita Azul entrava-me pela janela do quarto adentro sem qualquer cerimónia, de manhã em contra-luz, à tarde iluminada pelo pôr-do-sol e à noite abraçada por dezenas de gaivotas brilhantes que não lhe largavam os minaretes em eternos volteios e gritos.

À hora das rezas a Mesquita Azul entrava em diálogo com outra mesquita mais pequena que fica mesmo ali ao lado, junto a Santa Sofia, num dueto mágico de cânticos em vozes que dos altifalantes dos minaretes conduziam a oração dos fieis. Sei que deste dueto saiam versos do Corão, mas permiti-me imaginar que a conversa era outra, como se as duas mesquitas falassem sobre os afazeres do dia ou as agruras da vida.

Difícil esquecer duas mesquitas que conversam em Istambul.

mãe babada

Finalmente vou ter alguém que me ensine a fotografar.

O meu filhíssimo teve 20 num teste de fotografia na faculdade e 17 na cadeira.

Confesso que não seguro a baba. :-)

junho 23, 2009

é moda agora?

Ontem, numa reunião em que estavam mais três mulheres, verifiquei que todas tinham blusas com manguinha muito curta, em balão e elasticozinho, tapando só o ombro.

Acho pavoroso. Mas ando sempre tão desatenta às modas, que fiquei sem saber se seria um novo uniforme, uma graçola do acaso que juntou à minha frente três graciosas possuidoras de gosto duvidoso ou, pelo menos, não coincidente com o meu, ou moda mesmo...

Um dia destes olho para as montras com mais atenção.

junho 19, 2009

mar de mármora


para ti
o mar
todo o mar
mar de mar
mar amar
mar de mármora
mar de mármore
mar de amar-me
em ti amar
sem tardar
o mar

junho 17, 2009

de bizâncio com amor #2

Já vim e trouxe tudo.

Até um monte de Bósforo. Era fácil afinal. Não me sai do olhar, não me sai de dentro. Um monte de Bósforo.

junho 11, 2009

de bizâncio com amor

Para trazer deste meu fim-de-semana prolongado que se avizinha, de entre amigos e familiares tive os seguintes pedidos:

- uma ou duas camisas de algodão do Egipto sem colarinho
- lokums de rosa
- um livro sobre cerâmica medieval do médio oriente
- um monte de Bósforo

Não sei como me vou arranjar para trazer um monte de Bósforo.

de costas voltadas


O céu assim tão belamente aguado e tu de costas para mim, indiferente ao meu braço que já te foi esticado, indiferente às gaivotas que nos confundem com mastros de barcos, que verificam afinal a ausência de cheiro a peixe e se afastam de nós.

O céu assim tão fundamente sombra e luz e tu ignorando os meus volteios de bailarino tentando contrapesos e contrapontos de ti, numa dança maluca para cá e para lá na esperança que me sintas e me notes e me ouças os guinchos de metal sobre o piar das gaivotas.

O céu assim tão azulmente cinza e eu a mostrar-te o dorso, a desistir de encontros de braços esticados nos céus, a desistir de ti ostensivamente desatenta sem perceberes que se quisesses, eu podia rebentar uma nuvem só para ti.

junho 09, 2009

pastelando a seco


Fim de semana no Oeste, o fresco e a chuva a não convidarem para grandes praias, montes de tempo para experimentar os pasteis secos novos em lápis, bem mais simpáticos que os em pau para quem não controla bem a coisa. Depois de uma experiência de retrato do meu cão que prefiro não mostrar, saíu esta paisagem bem colorida. Ligeiramente naif, não?

das euro-eleições

Ouvi hoje em vários noticiários os comentadores políticos a constatarem a grande derrota da esquerda nos vários países da comunidade e a consequente viragem à direita nestas eleições.

A mim parece-me óbvio que a grande ganhadora destas eleições foi a crise no sentido em que influenciou os votos de forma determinante. Permito-me opinar que, salvo nalguns casos como o da Itália, ganharam as eleições os partidos da oposição, e outra coisa não seria de esperar. Fosse a direita que estivesse maioritariamente nos governos às contas com a crise e era ver a viragem à esquerda.

Mas isto sou eu a pensar, que de política cada vez percebo menos. Ou mais, infelizmente.

junho 08, 2009

a primeira vez

Desde o princípio do ano que andava dizendo ao meu filho para se ir recensear para poder votar. Foi adiando, adiando e, há cerca de um mês lá foi à Junta de Freguesia. Quando chegou a casa e lhe perguntei como correra a coisa, disse-me que não ia poder votar para as Europeias pois as listas de eleitores já estavam fechadas e que só depois de do dia 7, hoje, é que poderia ir de novo à Junta para se recensear. Barafustei com ele por ter deixado passar o tempo até chegar ao ponto de ficar de fora.

Há uma semana e tal a minha mãe, falando das eleições, manifestou o seu contentamento por o neto já poder votar. Contei-lhe a história da ida à Junta de Freguesia e a minha mãe, que nos seus 84 anos é mais atenta que eu e o meu filho, disse-me que tinha quase a certeza de que agora o recenseamento era automático. Eu, parva, achei que a senhora da Junta havia de saber mais de recenseamentos que a minha mãe e liguei pouco à informação. Domingo passado quando fui às compras passei frente a uma vitrine da Junta onde as palavras "RECENSEAMENTO ELEITORAL" em letras gordas me chamaram a atenção. Dizia o edital que o recenseamento era automático a partir do 17º aniversário e que os meninos desde que tivessem 18 anos no dia das eleições, podiam votar sem mais aquela. No edital, o endereço do site onde se pode ir buscar o número de eleitor. Fiquei boquiaberta. Chegada a casa contei ao J o que lera, fomos os dois ao tal site e lá estava o nome dele associado a um número de eleitor e a uma assembleia de voto.

O J passou parte da semana na net a visitar os sites dos vários partidos e movimentos para decidir onde votar (haverá alguém que faça isto depois da primeira vez?). Hoje lá foi estrear-se nas urnas, satisfeito da vida.

Bem sei que sou desatenta e que tinha, e ele também, obrigação de saber destas modernices. Mas não sabia. E disse-lhe para se recensear. E ele foi informar-se. E disseram-lhe tudo ao contrário, mas tão ao contrário que, se não o conhecesse como os dedos da minha mão, acharia que tinha lá ido com os copos.

E agora pergunto: por que raio têm os meus impostos de servir para pagar ordenados a senhoras imbecis que dão informações completamente distorcidas?

junho 04, 2009

colectivo de diários gráficos

Isto de andar a desenhar por aí com outras pessoas que gostam de fazer o mesmo é super agradável. Embora o desenho seja de facto uma actividade algo solitária, também é verdade que é bom partilhar experiências, ver de quantas formas diferentes pode a mesma realidade ser retratada, tantas quantos os olhos que a observam e os dedos que a registam e sobretudo, aprender, aprender muito.

Foi pois com enorme satisfação e uma substancial dose de cagaço que aceitei o convite para participar neste blogue. É que os meus bonecos estão a razoável distância dos dos outros participantes. Mas prontus. Lá estou, e seja o que Deus quiser.

Para quem aqui me segue e já conhece a qualidade duvidosa (mas esforçada) das minhas produções (convosco estou à vontade, pois) o mesmo fontanário do Jardim Botânico da Ajuda num desenho de 3/4 de hora e noutro de 5 ou 10 minutos, a provarem que eu e as aguarelas, depressa ou devagar, ainda não nos entendemos minimamente.



junho 01, 2009

malta com cursos superiores e tal

Uma pérola na minha caixa do correio:

"Aguardo o seu contacto para combinar-mos uma data para uma reunião no sentido de acertar-mos a metodologia de trabalho e assentar-mos ideias quanto às obrigações contratuais do serviço promotor/executor."

Que giro. Agora vamos escrever isto de novo como se falássemos (perdão, falásse-mos) de outros usando a terceira pessoa do plural.

"Aguardo o seu contacto para eles combinar-em uma data para uma reunião no sentido de acertar-em a metodologia de trabalho e assentar-em ideias quanto às obrigações contratuais do serviço promotor/executor."

Não faz muito sentido mas fica fixe. Experimentemos (ou experimente-mos, espera, esta tem de levar assento circunflexo, quando não parece que peço a alguém que experimente os meus sapatos; pois experimetê-mos) com a segunda pessoa do singular:

"Aguardo o teu contacto para combinar-es uma data para uma reunião no sentido de acertar-es a metodologia de trabalho e assentar-es ideias quanto às obrigações contratuais do serviço promotor/executor."

Esta ortografia é engraçada e nova mas, para além de gastar tinta desnecessária com os tracinhos, pode gerar alguns equívocos como por exemplo se alguém escrever:

"Ao comer-mos paga-mos".

Não há pachorra. Mesmo.


maio 22, 2009

ja ca ran dá

o azul (roxo, lilás?)
dos jacarandás
o azul
o azul
o azul
dos jacarandás
roxo
lilás

e outra dúvida ainda

Os automobilistas que aproveitam o vermelho dos semáforos para proceder a limpeza meticulosa das fossas nasais, utilizando em geral o indicador e livrando-se das impurezas encontradas fazendo-as saltar do indicador com o auxílio do polegar, pensarão que os vidros do carro são opacos?

outra dúvida

Aquelas pessoas que, nos balcões das pastelarias, comem o pastel de nata segurando-o com um gardanapinho de papel e o mindinho e o anelar espetados, não querem sujar os dedos ou o pastel de nata?

dúvida

Quando um cidadão reclama que a via que passa lá ao pé de casa tem muito trânsito, logo muito barulho e pede que o protejam do ruído mediante a colocação de "painéis anti-sónicos", pretenderá umas barreiras sonoras ou qualquer outra coisa que me escapa?

maio 19, 2009

coisas que se podem fazer...

... enquanto se assiste a um espectáculo mesmo manhoso* no Jardim de Inverno do S. Luís:

1 - Tentar pensar noutra coisa para não se ficar demasiado deprimido;
2 - Havendo piano de cauda, o qual deverá ter, supostamente, a tampa aberta, procurar identificar os reflexos que se formam na face interior da dita tampa;
3 - Ignorar os suspiros de tédio do acompanhante, pela mesma razão expressa em 1, elevada ao quadrado;
4 - Contar os carros que passam na rua e ver o brilho dos carris do eléctrico, tudo isto reflectido no telhado de vidro da sala;
5 - Quando 1, 2, 3 e 4 já não chegarem, aceitar de pronto a sugestão do acompanhante e cavar rapidamente dali para fora, mesmo incomodando ligeiramente (paciência) os restantes espectadores.

* "Umas e outras" Pobre Vinícius... Às voltas no túmulo, pela certa.

maio 18, 2009

ecologias

No meio dos 90 e-mails que habitavam a minha caixa hoje de manhã, saltou-me à vista o assunto "fw-urinol ecológico".

Ainda nem o abri (o e-mail, não o urinol), pois o dia não deu para todos e este não me pareceu prioritário. Mas, pelo sim pelo não, acho que vou mudar de emprego. Há limites, caramba...

ws dg* #1

Comecei há uma semana e tal um workshop de diário gráfico, a ver se me organizo com os bonecos que deixo onde calha e se aprendo mais qualquer coisa. Algo como colorir, enquadrar, compôr, olhar, sentir, registar. E alguns truques. E algumas ideias. E mais o que houver.

1ª sessão. Entre outras propostas de trabalho esta: Iniciar o diário gráfico (já estava iniciado, mas iniciei-o de novo)com um registo que tenha algo de nós e uma mensagem que nos traga o diário de volta se tivermos a ideia tonta de o perdermos. Saíu isto assim:


2ª sessão. Proposta: ir para a rua (aqui o conceito é um pouco estrito pois sendo o workshop à noite, restam-nos os cafés da zona)registar uma ou duas cenas, regressar e colorir. A cena deve evidenciar um 1º plano, um plano intermédio e um de fundo e a aplicação da côr deve potenciar a diferença de planos. Com as dicas, muito úteis, fiquei a saber que os contrastes de claro escuro devem ser maiores no primeiro plano bem como o desenho mais pormenorizado. dito assim parece óbvio, mas às vezes se não ouvimos o óbvio, não damos por ele. E uma das cenas que fiz foi esta:


Estou a gostar deste workshop, estou pois.

*workshop de diário gráfico

maio 13, 2009

amor recente

Zé Miguel Wisnik. Amor recente e súbito, depois de uma conferência/show no Domingo passado no S. Luis. A conferência está no tubo e pode ser vista em episódios daqui em diante, com algumas variações como sempre estas coisas têm. A mais importante para mim, é mesmo o facto



de ZMW estar sentado nas gravações disponíveis e ter falado e actuado quase sempre em pé no S. Luís o que, parecendo que não, faz toda a diferença, se pensarmos que a vida o presenteou com uma linguagem corporal absolutamente fantástica, envolvente, cativante, expressiva. Vale a pena ouvir e ver os vários vídeos e ficar a saber pormenores sobre poemas e canções de Vinícius que todos conhecemos mas de cujas particularidades nem todos estaremos a par.

Bom e como nestes eventos há sempre uns discos à venda, adquiri este "pérolas aos poucos" (delícia de nome) e é o que tem passado nos últimos dias no meu carro.

Para espevitar apetites, deixo aqui o primeiro vídeo da série "Vinícius, palavra e música".

Enjoy!

de um dia assim

de tão bonito
num grito
meu coração aflito
mas de prazer
ai...
ou de sofrer
por ser
um dia
mais um dia
só mais um dia
a doer
assim

nem mais um dia
sem te ter
juntinho a mim
sim
e um grito
bonito
de morrer

maio 11, 2009

poetinha...

"A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro."


Pois Vinícius de Moraes

regime

Iniciei hoje um novo regime alimentar.

Ao almoço como sopinha, um queijo fresco (havendo) e fruta. Fui almoçar às 14, são 16.15 e já tenho o estômago a queixar-se. Hoje não havia queijo fresco, esperemos que seja por isso.

maio 10, 2009

strange liaisons



Ligações difíceis de entender fizeram-me ligar esta fotografia a "Sampa" de Caetano Veloso, talvez só por causa de "o avesso do avesso do avesso do avesso". E, enquanto escrevia isto, lembrei-me de "Rebus" de Paolo Conte



Cercando di te in un vecchio caffè
ho visto uno specchio e dentro
ho visto il mare e dentro al mare
una piccola barca per me
per farmi arrivare a un altro caffè
con dentro uno specchio che dentro
si vede il mare e dentro al mare
una piccola barca pronta per me
ah che rebus, ah che rebus

Ma poi questo giro in cerca di te
è turistico ahimè e mi accorgo che
chi affitta le barche è anche
il padrone di tutti i caffè
e paga di qua e paga di là
noleggia una barca e prendi un caffè
ah è meglio star qui a guardare
i pianeti nuotare davanti a me...

...nell'oscurità del rebus
ah que rebus...


Deixar a cabeça fazer ligações à solta é como puxar uma linha e ver o que vem vindo nela pendurado.

maio 08, 2009

how

can't you see
how is
just
to be
we

variações do que li aqui

janelas azuis

quando
tu aqui
suspensos os olhos
no voo dos barcos
na lava
que desce Monsanto
arrepiando corujas
lua
pendurada na varanda
luz
impedindo Vega
pega
da mão
na pele
no pelo
cabelo
cheiro
de noite e mar
janelas azuis
tu

pedalando em paris

Uma das coisas boas que Paris tem de há um ano e tal para cá são as velib, bicicletas de uso partilhado a um euro por dia, desde que não se utilizem durante mais do que meia hora de cada vez. Depois de dois dias de mais chuva do que sol, o céu amanheceu tão azul que decidi mandar o metro e o Louvre às urtigas (também, se não vou lá há uns 20 anos, bem que pode esperar mais um pedaço) e passear-me pedalando. Para pegar uma velib, nada mais fácil. Basta encontrar um parqueamento como este aqui,

escolher uma bicicleta com os pneus cheios, travões a funcionar e blablabla, colocar o cartãozinho que o nosso hospedeiro nos emprestou sobre o sensor que existe para o efeito, soltar a dita cuja e pôr as pernas a funcionar. Comecei por apanhar o metro para la Villette que achei ser um bom ponto de partida para o meu périplo.

É verdade que os parques de velib abundam mais e estão melhor fornecidos no centro da cidade do que na periferia e tive de caminhar um bom pedaço ao longo do canal até encontrar um que tivesse bicicletas utilizáveis (o primeiro pelo qual passei só tinha uma bloqueada e outra com os pneus furados, pois... nem tudo corre sobre rodas nisto das velib). Finalmente, a minha primeira, aqui:

Canal à minha esquerda, fui descendo tranquilamente até chegar à Bastilha. Aí, tendo passado a meia-hora contratual, parqueei a bicicleta, dei uma volta pelo mercado que por ali há de manhã a pensar que, se fosse cá, a ASAE já tinha dado cabo do juízo a quem vende e compra carne e peixe em bancas ao ar livre, pois isso mesmo, ao ar livre.


Depois de umas deambulações e uma sanduiche, peguei noutra bicicleta para ir até aos jardins do Luxemburgo, que o sol estava bastante convidativo para mais um passeio. Os parisienses não resistem a um dia ensolarado e o sítio estava pleno de gente a jiboiar, de modo que escolhi uma cadeirinha modelo costasreclinadascombraços para me sentar e outra modelo



costasdireitassembraços para apoior os pés e fiquei-me a olhar a torre de Montparnasse e a dar uso ao meu diário gráfico, enquanto o sono não me venceu, acabando por dormitar ao sol até ficar com um belo tom de vermelho no nariz. Duas ou três horas passadas nesta actividade esfusiante


e preparei-me para pegar outra velib, não sem antes registar em fotografia os canteiros e castanheiros floridos e umas folhas de gingko que me entusiasmaram bastante.




Antes de regressar a casa sentei-me na Pont des Arts a ver os pés de quem passava enquanto o sol desmaiava já nas minhas costas.

A outra velib foi para ir dali até casa, no 18ème. Contas feitas, cerca de 16 km em 4 bicicletas, Paris intra-portas até que é uma cidade pequena.


E bom, fiquei fã.

maio 04, 2009

mother and son dialogue

- também tens uma página no feicebuque?
- nahh...
- o quê, os da tua geração são mais do aifaive, é?
- nahh, isso tudo já deu. aifaive, feicebuque, tuítar. eu já só ligo ao maicepeice.

e eu a pensar que era muito moderna.

azul

O dia tão azul e no entanto pérolas nos olhos a turvarem o azul do dia enquanto não descem pela face e se unem no queixo em pérolas maiores que tombam no colo, contas desfiadas de um colar antigo.

O dia tão azul e no entanto eu aqui e tu sei lá bem onde, mesmo que te ouça como se estivesses mesmo ao meu lado e me arrepiasses o pescoço num sussurro e num toque de dedos pelas costas.

O dia tão azul e no entanto alguém a pintá-lo de branco, indiferente a pérolas nos olhos, indiferente a arrepios de dedos e sussuros em ouvidos, como se lhe pertencesse todo o azul do dia.

abril 29, 2009

all stars


E hoje foi Kandinsky no Beaubourg. Fantastico. Recomendo.


E "L'art des carnets de voyage" para quem se possa interessar por isso, como eu, no Musée de la Poste.

E depois os converse all stars para mim e para o miudo, espero que lhe sirvam, ingalinhos, que estavam com 30% de desconto. Yes.

abril 28, 2009

pequenos nadas


E o que me encanta em Paris säo pequenas coisas, assim como chegar à Gare du Nord depois do RER que vem de Roissy e apanhar um taxi cujo motorista, depois de passar toda a viagem a falar dos perigos para a saude que representam as antenas das companhias de telemoveis, me dar para as maos um grande mapa da cidade e uma lupa igualmente enorme para lhe mostrar onde é a rua para onde quero ir.

E de manha apanhar o metro, sair em Saint Michel e perder-me durante um par de horas nas duas maiores livrarias de bd que conheço, acabando por sair de la com peso a mais. E depois dar aos pes e ir à tal livraria de livros de cinema, tagarelar com a vendedora, dizer-lhe que sim, que tinha visto o filme de animaçao "uma historia triste com um final feliz", e que nao, nao conhecia o livro com a mesma historia e os mesmos fantasticos desenhos, que ela me mostrava enfatizando as origens lusas da autora, e bom finalmente sair de la com ainda mais peso que antes.

E depois fazer toda a Rue de Seine a espreitar as galerias de arte, para finalmente me sentar numa esplanada com o Louvre do outro lado do rio a folhear as minhas compras.

E meter o nariz nos antiquarios perto des Beux Arts, entrar naquela loja antiga de material de pintura, com moveis de gavetas estreitinhas, e em cada uma, uma camada de pasteis muito arrumadinhos, uma gaveta so de tons de azul, outra so de amarelos e cada cor uma gaveta, e aquele cheiro a tintas e a papeis, o balcao de madeira, os empregados velhotes e de colete a mostrarem-me as varias qualidades de pasta de modelar, consoante a dureza e sair de la ainda com mais peso.

E voltar a casa, largar livros e pastas de modelar, fazer uma sesta curta e ao fim da tarde trepar as centenas de degraus da Rue du Mont Cenis em que numa das placas alguem trasformou o C em P e a rua naquele troço passou a chamar-se du Mont Penis, chegar la acima debaixo de chuva e, sem me ralar nem um pouquinho com as calças e sapatos molhados, respirar toda a Paris a meus pés.

Voilà (porque nao temos nos uma palavra boa como "voilà" para dizer "voilà"?), sao estas pequenas coisas que me encantam em Paris.

O que nao me encanta de todo é este teclado onde algumas letras se lembraram de ocupar o lugar de outras e na volta a gente pensa que nao fixa estas coisas, mas ha a memoria dos dedos que é melhor do que a nossa e quero um "a" e sai-me um "q" e vice-versa, e nao sei onde para o til e o acento agudo et bon, ça m'énerve.

abril 27, 2009

j'y vais


Kandinsky aqui

prenúncio de maio

Hoje desci a rua para ver o progresso dos jacarandás. Pus-me debaixo das copas, espetei o nariz para cima e vi-as. As inflorescências em pequenos cachos já se distinguem bem e sente-se vagamente o cheiro que vai ser forte e quente não tarda.

Não lhes dou mais do que uma ou duas semanas para começarem a pintar os céus de Lisboa.

dedos

poemas
por tocar
infinitos
os teus dedos
pontas
de segredos


variações do que li aqui.

abril 22, 2009

metamorfoses

Começou com este, que saíu dorido, a pasta rija a resistir fazendo nascer bolhas nas polpas, uma hora de trabalho numa noite de sexta-feira em que a aula nos afastou dos pincéis e pasteis que nos prolongam os dedos.


Habitou sentado numa luz sobre um móvel da sala, até que a comichão nos dedos se fez de novo sentir, vontade de amassar outra vez aquilo tudo, de lutar contra a inércia da pasta, domá-la aquecendo-o com o afago das palmas como se uma carícia fosse e soltar de mim um rosto que desconheço e que sinapses incompreensíveis me levam a associar a um senador romano do tempo de Júlio César.




Observo-o mais de perto, não me interessa se está bem ou mal, mas apenas que gosto de sentir com o olhar as marcas que os meus dedos texturaram na superfície, irregularidades alisadas, puxadas, coladas, com toda a incerteza que transparece de um rosto que me escapa.



Na última aula, outra hora de trabalho e o rosto desfez-se transformando-se numa vaga aproximação do modelo que, em pose fechada, ia rodando sobre a plataforma giratória. Trouxe-a (pois que mudou de género) para casa dentro de uma caixa de plástico intentando melhorar o que o escasso tempo de aula permitira.





Sentei-me à mesa e, depois de olhar para ela, preferi deixá-la assim, tosca, como me saíu dos dedos. Fica por ali, até que a comichão volte e a transforme noutra coisa qualquer.


gourmandises

E eu, que raramente tenho paciência para me pôr a cozinhar quando o conviva se resume à minha pessoa, hoje resolvi sair da inércia do costume e mimar-me com as coisas boas que, de vez em quando, aparecem na minha despensa.

Ingredientes:

pasta, funghi porcini sechi, parmigiano grattugiato, aglio, olio d'oliva, burro, sale, prezzemolo, vino bianco secco, panna, não por esta ordem, mas por aquela que os sentidos nos indicarem.

Deliciosamente fumegante!

abril 20, 2009

castanho

reflexos de mar
nuns olhos castanhos
(quase pretos)
fazem azul
o teu olhar

mistérios tamanhos
para eu amar

língua

guardo algumas feridas
abertas
para que mas lambas
e assim saibas meus segredos
meus medos
de feridas por sarar

azul

palavras
são silêncios
no branco azul
do teu olhar

pausas de
(a)mar

abril 15, 2009

neologismos

Pois é. E se há gente que escreve com erros de caixão à cova (que ligeiros todos vamos dando, mais coisa, menos coisa), e a culpa nem será completamente de quem o faz, sendo que isso serão outras conversas, também há muito boa gente que fala mal. E este assunto é tão repetido na blogosfera que já enjoa ler ou escrever sobre ele, repetindo sempre os mesmos erros típicos do português (mal) falado ou malfadado, já nem sei.

Bom, mas hoje lembrei-me do meu colega de faculdade Vítor (teve um AVC gravíssimo há uns meses e continua em lenta recuperação no Alcoitão, triste coisa) que era (e é) um homem cheio de sentido de humor e piada pronta e propositada. Ora numa aula qualquer, um douto assistente às tantas sai-se com este fantástico neologismo: "pertúrbios". Lindo, não é? Pois falava o tal assistente dos "pertúrbios" causados nas culturas já não sei por qual maleita, quando o Vítor o interrompe e, com o seu sotaque bem brasileiro (é brasileiro o Vítor) questiona:

- Oh Sr. Engº... eu conheço a palavra "distúrbios" e a palavra "perturbações", agora "pertúrbios"?! Ou quererá o Sr. Engº referir-se a... "disturbações"?

A gargalhada foi uníssona e geral. O assistente que, aqui para nós, era um bocado bronco, ficou com cara de parvo. Acho que nunca percebeu a piada nem por que carga de água tinham assim gargalhado os seus alunos.

"Pertúrbios"... que delícia.

semáforo, bolas...



Pois. Parece que não são só os meus relatórios da fiscalização... E avariados com acento no A também fica bem.

abril 14, 2009

trocas

Hoje fui ao aki, que agora já não se chama aki mas outra coisa qualquer, para trocar umas prateleiras que comprei no sábado por outras mais pequenas (chato do gato que não me sai de cima, já o pus no chão umas vinte vezes...). Convém explicar que as duas prateleiras, pois de duas se tratava, estavam em promoção e tinham custado 2.5€ cada uma (coisa ideal para a minha oficina de pinturas e merdas dessas). Pois lá fui de prateleiras debaixo do braço ao balcão de devoluções já com pressa (a hora do almoço foi de trocas, antes tinha ido ao Cacém trocar uma caixa de guaches que trazia dois tubos de branco em vez de um branco e um amarelo). Esperei a minha vez, duas pessoas à frente, coisa de 10 minutos. Entreguei as prateleiras à menina e em troca recebi um vale (válido em qualquer loja não sei quê até 30 de maio) de 62.50€. Eh pá, isto é o milagre da multiplicação dos euros, pensei. Observando o papel com mais detalhe vi que a menina tinha colocado 25 prateleiras em vez de 2, como se eu fosse mulher para levar debaixo do braço 25 prateleiras de 800X200X19mm. Quando lhe disse, olhe, por mim tudo bem, não me importo nada de receber 57.50€ a mais, mas para si se calhar é chato, ela ficou a olhar para mim com cara de parva, pegou no papel e voltou a passar o leitor do código de barras numa das prateleiras. Como aquilo não estava a bater certo, dirigiu-se ao telefone para chamar alguém mais dotado. Aí eu disse-lhe que o problema era só um multiplicador errado e lá a convenci a anular a coisa e dar-me o vale de 5€ a que tinha direito. Só com esta atitude honesta e magnânime perdi uns bons 25 minutos. A menina, ao tentar anular e refazer o vale encravou o sistema, o computador, o teclado, aquela trapalhada toda e não se safou sem que viesse mesmo alguém mais dotado para lhe dizer que, afinal, bastava carregar num botãozinho que estava mesmo ali à mão de semear.

Lá fui de papel na mão e a murmurar incompetente do caraças até ao sítio das prateleiras em promoção. Com o tamanho que eu queria, 600X200X19mm já só havia mesmo duas, ligeiramente amassadas mas, para o que é e àquele preço (os mesmos 2.5 euros cada) serviam muito bem. A caminho da caixa passei por acaso perto das esfregonas, lembrei-me de que precisava de uma ponta (o cabo está bom) e peguei numa que custava dois euros e tal. Chegada à caixa, apresentei o vale, as prateleiras e o cabelame da esfregona e refilei quando a menina me pediu para pagar sete euros e não sei quanto. A menina passou novamente o leitor pelo código de barras (deve ser norma lá no burgo) e disse ah, mas é este o preço, e eu ah, mas aí na sua caixa diz esfregona com cabo e não está aqui nenhum cabo. A menina olha para dentro da ponta de esfregona a confirmar a ausência do cabo e eu começo a revirar os olhos e a bufar. Mais cinco minutos para explicar a diferença entre esfregonas com e sem cabo, ela a querer que eu fosse lá dentro trocar por outra com o código certo (imagine-se se eu consigo ler aqueles números todos pequeninos sem óculos), depois a querer mandar um colega que conseguisse ler códigos sem óculos e eu sabe? estou com pressa, esqueça a esfregona, levo só as prateleiras. Dito isto, peguei nelas e preparei-me para partir. Aí a menina, a senhora tem de esperar que eu faça a anulação do artigo. E precisa de mim para isso, porquê? Já entreguei o vale de 5 euros que é o preço destas prateleiras. A menina de costas para mim, a preparar-se para um telefonema para chamar a colega dotada para anulações de registos de esfregonas com cabo e eu a ir-me embora com ela aos gritos a insistir para eu ficar e se não queria o comprovativo e mais não sei o quê. Apeteceu-me dizer-lhe para enfiar o comprovativo num sítio que eu cá sei, mas limitei-me a murmurar novamente incompetente do caraças, enquanto me dirigia para o carro.

Demorei quase uma hora para trocar duas prateleiras.

abril 12, 2009

prazeres

um chá, um livro e um gato a ronronar no colo

louisssssss

Esta colectânea de músicas "Paris for lovers" que aqui pus há uns dias, começa com Ella e Louis em "April in Paris". Faz-me pensar que não vou a Paris há uns 3 anos, talvez, e está a fazer-me falta. Estando-se in love ou not in love, Paris é sempre amável, amada, amorosa, amante, amorável e usem-se ou inventem-se mais adjectivos derivados de amor que encaixam sempre. Bom, "amadora" talvez não encaixe.

Mas onde eu queria chegar nem era aqui, o objectivo desta entrada não tinha que ver com Paris mas sim com Louis Armstrong. Deixem-se ficar a ouvir um bocadinho, até à entrada de Louis em "April in Paris". É por volta do minuto dois. E reparem como ele prolonga os ésses no fim das frases:

Parissssss
blossomsssss
tablesssssssss
treessssssssssss

lindo!

abril 09, 2009

breve

Até breve,
e o breve agora
pode ser quase.
Quase é o tempo
que uma vela
demora a arder

Muito breve
quase já

abril 07, 2009

paredes nuas

na tua casa
as paredes
brancas
tão nuas
que só
me foco
em ti

entra a noite
pelas janelas
em sombras
pedaços
palavras
silêncios
e toco
a tua pele

olhos fechados
nos lábios
um beijo

desejo
assim

ortografias

Em dias de verificação de relatórios de obras pela fiscalização deparo-me sempre com o quase analfabetismo de alguns dos meus colaboradores nessa área. Para não ficar mesmo deprimida entretive-me a juntar num só texto todos os erros que encontrei. Sempre atenua um bocado o desconsolo.

Nota de Ocorrência:
Desloquei-me ao Quarter de Infantaria para arranjar um gradiamento que se apresentava descontino porque os espassadores tinham caído e era preciso vedalo provisoriamente de forma alegeirada. A caminho do quarter, num cruzamento que tinha o semafro avariado, tive de me desviar para não bater noutro carro e por pouco não atropelava uns homens que estavam a descavar terras à volta dum sumidor entupido. Não atropelei os homens, mas fui-me espetar num monte de intulhos que estavam no betominoso e que aguardavam ir para vasadoro. Os intulhos derramaram sobre o passeio, partindo umas quantas langetas e deixando o tuvena à vista. Também derramaram sobre um muro de seporte que estava a betomar dando cabo da confragem.
É quanto cumpre informar.

O que vale é que, mesmo com estas limitações, conseguem fazer-se entender e trabalham bem...

abril 06, 2009

fall in (love in) paris

Nunca fui a Paris em Abril nem vi os castanheiros em flor.

Paris é entre Outubro e Novembro, quando se começa já a sentir aquele friozinho seco em dias ainda cheios de sol e a cidade se enche de manchas de vermelhos, castanhos e dourados brilhantes dos castanheiros que teimam em não perder a folha todos ao mesmo tempo, prolongando o Outono numa palete de tons terra que me encanta.

Adoro Paris no Outono.

abril 02, 2009

three

E de repente lembrei-me disto, coisas de juventude:

When you had to go
I was really sad
Remembering the things
We did and had

Because we were three
You and I and we


Autor desconhecido.

cats

Ontem quando cheguei a casa os gatos tinham ligado o televisor e assistiam à programação do 2º canal.

Vamos ver se hoje estão com os mesmos gostos culturais ou se se mudaram para a SIC Mulher.

março 29, 2009

vida própria

Proposta de trabalho:

1 - Produzir uma curta metragem em vídeo com cerca de 5 minutos;

2 - Tema do argumento: dois personagens devem encontrar-se para trocarem algo (objecto, informação) mas um terceiro elemento dificulta o encontro e impede a troca;

3 - Premissas da realização: os takes devem ser se movimentos de câmara e filmados em, pelo menos 3 casas/locais diferentes, mas de forma a que isso não seja óbvio para o espectador, que deve entender que a acção se desenrola sempre no mesmo ambiente.

Resultado:



O J teve esta ideia, filmou em 4 casas de familiares e, com os meios e conhecimentos próprios do seu 1º ano de faculdade, apresentou este trabalho. O professor da cadeira disse que parecia um filme da série Z, ao que o J retorquiu que, efectivamente, com os meios que ele e o seu grupo de trabalho tinham ao seu dispor, não poderia ser outra coisa.

O filme foi exibido pelo professor nas outras turmas, como exemplo de um trabalho bem conseguido. O meu rebento ficou contente e aqui a mãe, também.

março 25, 2009

tu

diz-me se
és tu
aí tão cru
a ir embora

que em mim
te senti
tão nu
no aqui
agora

março 23, 2009

José Mourinho

Hoje, almoço tardio, televisão ligada ali na tasca, assisti a parte da sessão solene do doutoramento honoris causa concedido pela UTL a José Mourinho, pela excelência da sua carreira.

Não há dúvida que o homem merece, só acumula sucessos.

Vai daí lembrei-me de outro José, o Sócrates e pensei se haveria alguma escola superior com tanta falta de doutorados que resolvesse conceder a mesma honra ao actual primeiro ministro. Não me parece. Realmente, o homem só acumula desgraças.

Vejamos então as qualidades de Mourinho: lider nato, inteligente, organizado, estratega, ganhador, gestor de milhões (os seus). Ainda por cima, giro que se farta, digo eu.

Então não era mesmo disto que precisávamos para governar o país? Talvez ainda ganhássemos uns ministros com umas pernas bem musculadas. De qualquer forma, a malta já só pensa em futebol... É por isso que proponho:

Mourinho a primeiro ministro, já!

março 20, 2009

just before I go to sleep

"I love you so much, mother...", he said.

:-) :-) :-) :-) :-) :-)

março 19, 2009

leve

Aos poucos, de forma directa ou enviesada, ele tinha-me dado as coordenadas da sua casa. Sem me ter dito exactamente onde passava os seus dias solitários e as suas noites mal dormidas, falara-me da vila, das lojas próximas, do bairro de ruas estreitas e sinuosas do lugar.

Numa noite de insónias como tantas outras, pus-me a caminho. Não era longe. Depois de sair da estrada principal em direcção à vila, encontrei o bairro com facilidade e percorri meticulosamente todas as ruelas que serpenteavam em casinhas de um lado e de outro até que, finalmente, vi o carro que tão bem conhecia estacionado em frente a uma casa onde no quintal as árvores de que ele me tinha falado confraternizavam com a cadeira de baloiço no alpendre. Estacionei depois de uma curva da rua, onde dificilmente daria por mim, mesmo que viesse apanhar o ar da noite a uma das janelas abertas e iluminadas, interrompendo o andarilhar de dedos em músicas que eu sabia que ele tocava e que agora ouvia pela primeira vez.

Fiquei assim por muito tempo, embalada pelas notas que saiam da janela, sentada de olhos fechados, ganhando coragem para um telefonema, uma sms estou aqui à tua porta, queres abri-la para mim?. Peguei no telemóvel, hesitante, e quando ia começar a escrever as primeiras letras, a música parou e vi a silhueta dele que se aproximava da janela e a fechava.

Larguei o telemóvel e fiquei de olhos perdidos na janela fechada, a sentir na carne os beijos quentes e os abraços que fugiam, a lembrar o beijo trocado ao de leve (tão leve) meses atrás, um simples roçar de lábios num encontro fugaz numa rua de Lisboa.

As luzes apagaram-se dentro da janela fechada. Lambi a lágrima salgada que me escorreu pela aba do nariz e me pousou no lábio superior. Liguei o motor do carro e desci a rua devagarinho. À porta dele não abrandei e segui em frente.

Nunca seria capaz.

março 17, 2009

de noite todos os gatos são pardos

Ontem, noite já avançada, em conversa de msn, cujo teor o pudor me impede de revelar, o Ervi, homem pródigo em máximas, sai-se com esta:

"De noite todos os gajos são parcos"

No teclado, o c fica ao lado do v e ele frisou que queria mesmo dizer "parvos".

Eu acho que estes lapsos tecladais não são por acaso, e "parcos" parece-me muito melhor.

No entanto, se formos a pensar em que, exactamente, são eles parcos, a coisa de dia é bem pior.

março 15, 2009

crisis what crisis

Há temas que me são avessos. Uns sempre, como doenças e pessoas do jet-set e outros que dependem da conjuntura. Em todo o caso, são assuntos que me enervam e que ignoro, tentando fugir deles.

O tema que agora me é avesso é "a crise". Tenho andado naquela de "eu sei que isto é mesmo muito grave e real, mas não quero falar disso que me assusta". Então, não falo, não penso, embundo* a coisa. Até chegar àquele ponto em que não dá mais. E esse foi agora quando, depois de ter andado durante uns mesitos com a sensação de que gastava mais do que ganhava, acabei por ter a sensação a transformar-se em quase certezinha.

Ao fim de uns 20 anos, repito o que fiz durante um tempo quando me tornei independente e tinha de controlar bem os meus tostões. A única coisa que mudou foi que do papel quadriculado e da máquina de calcular, passei para uma folhinha excel onde tenho os dias em linhas e, em colunas, as minhas despesas divididas por géneros.

A ver se percebo onde andam os excessos (mas quais excessos, porra?) e onde posso, tenho, de cortar...

Que cena do caneco, voltei à juventude, só é pena não me desaparecerem as rugas...


*aprendido aqui

poemas ao sábado #8

Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen

verão...

... mesmo temporão como este que se instalou antes de a primavera chegar no calendário, é:

roupa branca leve e sandálias nos pés.

yes!

março 13, 2009

guitarras

quando dedilham guitarras
em choros prantos lamentos
ao ritmo que cresce nos dedos
como em asas de cigarras

bate o coração que canta
no peito e mãos, no corpo todo
até se soltar o grito
abafado na garganta

março 10, 2009

l'homme sans ombre

Será que estamos a ficar velhos quando começamos a aprender coisas com os nossos filhos? E não, não me refiro àquela cena de aprender com os erros a educá-los e blábláblá. Falo em aprender mesmo à séria, quando a coisa se começa a inverter nos jantares e são eles que nos ensinam ou mostram coisas que não sabíamos ou não conhecíamos? Bom, não sei a resposta e, de qualquer forma não me sinto nem um tico velha; para já, estou a gostar da troca de papeis que volta e meia vivemos aqui em casa e agrada-me a resposta que tenho quando, ao constatar que a informação que estou a receber não vem da escola, pergunto:

- mas onde é que tu aprendeste isso tudo?
- é que eu leio coisas, sabes?

Bom, adiante. Hoje o meu filho foi à monstra ver quinze curtas de (tenho de copiar o nome) Georges Schwizgebel. Não conhecia, eu. Ele, o filho, gostou muito e, chegando a casa, mostrou-me esta:



Giro, não é? Para além da estória, que tem interesse, piada, sumo, o que quiserem, atente-se no efeito de movimento de câmara. Eu gosto de animação, mas confesso que não percebo nada da coisa. Gosto e é tudo. Mas parece-me que este virtuosismo de "movimento de câmara" não é muito frequente, pelo menos no pequeno universo do que conheço. E, neste filme, esse movimento é muito bem potenciado pelo das sombras. Muito interessante, digo eu que, como já referi, não percebo um caracol de cinema de animação.

Claro que este filme daria para falar de coisas mais profundas como "nós e as sombras que também somos" ou "sombras que nos precedem, nos perseguem, mas sempre nos acompanham" ou "o lugar que sempre tem no mundo quem é diferente", mas isso são outros carnavais.

Para já, estou feliz por ter sabido da existência deste Georges Schwizgebel. Acho que vou procurar mais uns filmes no tubo.

março 09, 2009

tempos in úteis

É verdade, como te disse, que me canso de mim assim como sou. Canso-me de mim a querer fazer tanta coisa e no final a não fazer nada. Como se tivesse um caderno em que fosse preenchendo as folhas com listas, cronogramas, diagramas com bolas, losangos, quadrados e muitas setas. E uma vez esse caderno acabado, preencheria outro e mais outro, até ter uma prateleira inteira cheia de cadernos bem alinhados, e mais nada, sempre muito pouco mais que nada.

Canso-me de mim assim como sou. De gastar o tempo com inutilidades como sentar-me ali fora na varanda, pés apoiados no varandim a medir a cidade a palmo. Dois palmos da torre da basílica até ao topo do pilar da ponte, meio palmo daí até ao Cristo-Rei e, de lá a Cacilhas, três palmos bem medidos. E quando já não há nada que me interesse medir a palmo, conto quantos barcos passam no meu pedaço de rio em meia-hora, quantos aviões no meu pedaço de céu ou, se calha o tempo trazer as gaivotas até cá acima, tento contá-las sem repetir nenhuma.

No fim do dia, conto quantas coisas não fiz das que queria ter feito.

Lá no fundo, gosto dos tempos inúteis, fazem-me sentir dona de todo o tempo do mundo. Mesmo assim, canso-me de mim assim como sou.

março 07, 2009

a quinta frase

E, num relance, o Pedro propõe-me o seguinte:

1 - Agarrar o livro mais próximo
2 - Abrir na pág. 161
3 - Procurar a quinta frase completa
4 - Colocar a frase no blog
5 - Indicar 5 pessoas para continuar a tarefa

Ora os livros que leio de momento estão lá na mesa de cabeceira. Não são os mais próximos. Esses estão aqui na estante atrás de mim. Pezinhos no chão e faço rodar a cadeira até chegar à estante. Estico o braço e tiro um às cegas.

Humm... "Diários de Viagem - desenhos do quotidiano" de Eduardo Salavisa. Com sorte, talvez a pág. 161 seja de texto. Pois,


não é.

Tentemos de novo: "Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade", selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria. Pág. 161, 5ª frase completa. Para mim, mulher de ciências, em poesia é bem mais complicado separar frases. Aliás, nem vejo o interesse. Mas foi o que saíu. Julgo que esta estrofe é apenas uma frase (serão duas?) e sendo uma, parece-me ser a 5ª (podia ter-me saído um romance, não era?). Então é assim:

"Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti."

Lindo. De Alexandre O'Neill "Um adeus português"

E os cinco a quem encomendo a mesma tarefa:

Ana
Maria V
Huck
Pedro
PKB

março 06, 2009

lingerie


Recebi um e-mail com esta foto que dizia "eu quero ir aos saldos da Rua de Santo António". Isto é no Porto, certo?

À velocidade a que as coisas se espalham na net, mesmo que apanhe o Alfa Pendular, chego lá e deve haver uma fila enorme, não?