Quando era miúda lia muito. Se calhar lia mais do que agora. Sem internet, sem televisão durante a tarde, quando não tinha programa de brincadeira com as outras crianças da rua, lia.
Depois dos Nodis (sim, o Nodi é um boneco com umas boas dezenas de anos) e das Anitas, passei, como todos os miúdos da minha geração, para as colecções de aventuras da Enid Blyton, daí para os clássicos juvenis de Charles Dickens e para toda a colecção da "biblioteca dos rapazes" do meu irmão, onde aprendi bastante sobre a conquista do oeste americano e a história da América do sec XIX.
Comecei os autores brasileiros como toda a gente, com "o meu pé de laranja lima" do José Mauro de Vasconcelos e tomei-lhe o gosto. Fui lendo o que deste autor havia lá em casa e, esgotadas as prateleiras dos livros que os meus pais achavam adequados à minha idade, pedi ao meu pai para me deixar ler livros de pessoas crescidas, em particular de Jorge Amado de quem o ouvia tecer os maiores elogios. O meu pai hesitou, perguntou-me se eu já tinha lido isto e aquilo, e eu já e, depois de alguma insistência lá me deu para as mãos "capitães da areia". Daí em diante, li tudo o que havia de Jorge Amado nas prateleiras do meu pai.
Hoje percebo claramente que os livros de Jorge Amado, lidos na puberdade e na adolescência, influenciaram sobremaneira a minha forma de ver as relações entre as pessoas, o sexo, o amor.
Mas do que eu queria falar mesmo, era da línguagem, das palavras mágicas do Brasil que me chegaram pela pena do Jorge Amado e que não se utilizam cá. Não sei se por isso, se por serem mesmo palavras especiais, ficaram para sempre na minha memória como pérolas de um colar que vou desenrolando, e saboreando conforme as ligo a determinados livros, a determinadas situações, às coisas que agora me sugerem ou que me fazem lembrar.
Uma das coisas que gosto no português falado e escrito por brasileiros é o facto de muitas palavras se aproximarem tanto daquilo que representam: bunda, por exemplo. Não há palavra mais redonda para o traseiro do que bunda. Para dizer bunda, a boca desenrola cá para fora a palavra que a enchia e, quando esta sai, imaginamos logo um belo rabiosque, bem alçado, bem redondo e fornecido de carnes rijas. É como cachoeira. Diz-se cachoeira e ouve-se o canto da água a cair. Nesta onda estão palavras como cangote, xoxota e xibiu, forró, xodó, moqueca, roça, beiju, cabrocha, moleque, siri, perereca, cachaça, capivara, jagunço e sei lá que mais.
Outra coisa de que gosto é o uso do gerúndio. Dizer estou voltando, estou chegando, estou fazendo tem uma música que estou a voltar, a chegar ou a fazer, não têm. Gosto de diminutivos feitos duma forma diferente da nossa: devagarzinho, radinho de pilha, sambinha.
Gosto das negações ao contrário: sei não, vem não, faz isso não.
Gosto de todas as palavras ligadas ao candomblê e aos seus terreiros: orixá, oxum, exu, iemanjá, xangô, oxalá.
Gosto dos nomes dos instrumentos musicais: agogô, reco-reco, atabaque, caxixi, berimbau e gosto de nomes ligados ao folclore como bumba-meu-boi.
E lembrei-me de tudo isto porque hoje me visitaram de um sítio chamado Blumenau. Nome fantástico, blumenau. Só podia ser no Brasil mesmo.
Nunca fui ao Brasil. Tenho de ir em breve.
Município de Blumenau no estado de santa catarina. Bem no Sul.