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agosto 17, 2009

hot hot hot

Não gosto deste calor a não ser que me materialize à beira d'água e me embeba na sua doçura fresca. Corpo a deslizar na água ou água que desliza no corpo, tão transparente e macia como a camisola do dia na canção.

Não gosto deste calor de ananases (vá-se lá saber por que se diz calor de ananases e não de bananas que são bem mais quentes, digo eu) que me faz a pele pegajosa, humidades e suores misturados com pós e coisas que andam pelo ar, a menos que possa estar como vim ao mundo espojada num lençol branco, lavado e bem esticado, com um pano molhado pendurado no vão da janela aberta e que a brisa liberte de frescura.

Não gosto deste calor a não ser à noite, se me passeio à beira-rio, escapando-me de todos os outros que se passeiam de noite à beira-rio porque não gostam deste calor e por ali sempre têm a ilusão de vagas brisas, mais largas ainda assim que as dos aparelhos de ar condicionado que se regulam para 18ºC e não fazem o termómetro baixar dos 24.

Não gosto deste calor que aquece como uma estufa o meu apartamento de último andar, apesar das vistas da varanda e das larguezas que lhe gabo.

Não gosto deste calor, a menos que o tenha num qualquer destino onde a vontade me leve e ele avive os cheiros a terra ventre parindo naturezas e cores e sabores que até aí me eram estranhos.

Não gosto deste calor, ainda que a minha alma me leve sempre para Sul os passos.

Não gosto deste calor aqui.

julho 10, 2009

o regresso aos mutantes


E tal como há a vontade sempre premente que me leva para destinos longínquos e desconhecidos, há o caminho repetidamente traçado que todos os anos me traz a esta língua de areia ao Sul que teimosamente resiste aos avanços do mar que se abre para lá dos sapais.

E sempre que volto é doce, mas tão forte como se uma primeira vez fora, este reencontro com o areal que se estende vazio e impoluto nos passeios solitários de fins de tarde e manhãs de sol rasante, em que mais não ouço do que o vento nas dunas, o rebentar macio das ondas, os pios das gaivotas e andorinhas do mar.

O mesmo areal que desliza suave sob os meus passos, as mesmas conchas e algas e peixes e pedrinhas, os mesmos golpes fininhos nos pés que, entre caranguejos pretos e caranguejos laranja, se afundam no lodo negro da ria quando teimo em ir descalça pela maré vaza ver os progressos das ostras da Clara, as mesmas bebidas ao pôr-do-sol generosamente servidas no bar da Vera, os amigos que são os amigos daqui e que estranho se o acaso nos cruza depois em roupas de Lisboa, os avanços das crianças que orgulhosamente exibem dentes novos e mais 10 cm que no ano anterior, a lua cheia que se reflecte num caminho dourado sobre o mar chão, as conversas à noite num qualquer terraço de uma qualquer casa sobre a praia à luz das velas e dos candeeiros a gás.

É assim regressar à ilha. Reencontrar o que parece que não muda mas muda, pois que as conchas e pedras e algas são no todo as mesmas, mas são outras enquanto unas, tal como as gaivotas, os peixes e as andorinhas do mar, ou a escultura que reune todos os lixos que o mar traz e que vai crescendo ao sabor de quem passa e lhe acrescenta mais uma garrafa, mais uma bota, mais uma troço de rede de pesca, mais uma cana.

E é isto que faz com que o repetido retorno tenha o sabor da tranquilidade de uma rotina, mas também o espanto da descoberta das coisas mutantes.

junho 08, 2009

a primeira vez

Desde o princípio do ano que andava dizendo ao meu filho para se ir recensear para poder votar. Foi adiando, adiando e, há cerca de um mês lá foi à Junta de Freguesia. Quando chegou a casa e lhe perguntei como correra a coisa, disse-me que não ia poder votar para as Europeias pois as listas de eleitores já estavam fechadas e que só depois de do dia 7, hoje, é que poderia ir de novo à Junta para se recensear. Barafustei com ele por ter deixado passar o tempo até chegar ao ponto de ficar de fora.

Há uma semana e tal a minha mãe, falando das eleições, manifestou o seu contentamento por o neto já poder votar. Contei-lhe a história da ida à Junta de Freguesia e a minha mãe, que nos seus 84 anos é mais atenta que eu e o meu filho, disse-me que tinha quase a certeza de que agora o recenseamento era automático. Eu, parva, achei que a senhora da Junta havia de saber mais de recenseamentos que a minha mãe e liguei pouco à informação. Domingo passado quando fui às compras passei frente a uma vitrine da Junta onde as palavras "RECENSEAMENTO ELEITORAL" em letras gordas me chamaram a atenção. Dizia o edital que o recenseamento era automático a partir do 17º aniversário e que os meninos desde que tivessem 18 anos no dia das eleições, podiam votar sem mais aquela. No edital, o endereço do site onde se pode ir buscar o número de eleitor. Fiquei boquiaberta. Chegada a casa contei ao J o que lera, fomos os dois ao tal site e lá estava o nome dele associado a um número de eleitor e a uma assembleia de voto.

O J passou parte da semana na net a visitar os sites dos vários partidos e movimentos para decidir onde votar (haverá alguém que faça isto depois da primeira vez?). Hoje lá foi estrear-se nas urnas, satisfeito da vida.

Bem sei que sou desatenta e que tinha, e ele também, obrigação de saber destas modernices. Mas não sabia. E disse-lhe para se recensear. E ele foi informar-se. E disseram-lhe tudo ao contrário, mas tão ao contrário que, se não o conhecesse como os dedos da minha mão, acharia que tinha lá ido com os copos.

E agora pergunto: por que raio têm os meus impostos de servir para pagar ordenados a senhoras imbecis que dão informações completamente distorcidas?

maio 08, 2009

pedalando em paris

Uma das coisas boas que Paris tem de há um ano e tal para cá são as velib, bicicletas de uso partilhado a um euro por dia, desde que não se utilizem durante mais do que meia hora de cada vez. Depois de dois dias de mais chuva do que sol, o céu amanheceu tão azul que decidi mandar o metro e o Louvre às urtigas (também, se não vou lá há uns 20 anos, bem que pode esperar mais um pedaço) e passear-me pedalando. Para pegar uma velib, nada mais fácil. Basta encontrar um parqueamento como este aqui,

escolher uma bicicleta com os pneus cheios, travões a funcionar e blablabla, colocar o cartãozinho que o nosso hospedeiro nos emprestou sobre o sensor que existe para o efeito, soltar a dita cuja e pôr as pernas a funcionar. Comecei por apanhar o metro para la Villette que achei ser um bom ponto de partida para o meu périplo.

É verdade que os parques de velib abundam mais e estão melhor fornecidos no centro da cidade do que na periferia e tive de caminhar um bom pedaço ao longo do canal até encontrar um que tivesse bicicletas utilizáveis (o primeiro pelo qual passei só tinha uma bloqueada e outra com os pneus furados, pois... nem tudo corre sobre rodas nisto das velib). Finalmente, a minha primeira, aqui:

Canal à minha esquerda, fui descendo tranquilamente até chegar à Bastilha. Aí, tendo passado a meia-hora contratual, parqueei a bicicleta, dei uma volta pelo mercado que por ali há de manhã a pensar que, se fosse cá, a ASAE já tinha dado cabo do juízo a quem vende e compra carne e peixe em bancas ao ar livre, pois isso mesmo, ao ar livre.


Depois de umas deambulações e uma sanduiche, peguei noutra bicicleta para ir até aos jardins do Luxemburgo, que o sol estava bastante convidativo para mais um passeio. Os parisienses não resistem a um dia ensolarado e o sítio estava pleno de gente a jiboiar, de modo que escolhi uma cadeirinha modelo costasreclinadascombraços para me sentar e outra modelo



costasdireitassembraços para apoior os pés e fiquei-me a olhar a torre de Montparnasse e a dar uso ao meu diário gráfico, enquanto o sono não me venceu, acabando por dormitar ao sol até ficar com um belo tom de vermelho no nariz. Duas ou três horas passadas nesta actividade esfusiante


e preparei-me para pegar outra velib, não sem antes registar em fotografia os canteiros e castanheiros floridos e umas folhas de gingko que me entusiasmaram bastante.




Antes de regressar a casa sentei-me na Pont des Arts a ver os pés de quem passava enquanto o sol desmaiava já nas minhas costas.

A outra velib foi para ir dali até casa, no 18ème. Contas feitas, cerca de 16 km em 4 bicicletas, Paris intra-portas até que é uma cidade pequena.


E bom, fiquei fã.

abril 28, 2009

pequenos nadas


E o que me encanta em Paris säo pequenas coisas, assim como chegar à Gare du Nord depois do RER que vem de Roissy e apanhar um taxi cujo motorista, depois de passar toda a viagem a falar dos perigos para a saude que representam as antenas das companhias de telemoveis, me dar para as maos um grande mapa da cidade e uma lupa igualmente enorme para lhe mostrar onde é a rua para onde quero ir.

E de manha apanhar o metro, sair em Saint Michel e perder-me durante um par de horas nas duas maiores livrarias de bd que conheço, acabando por sair de la com peso a mais. E depois dar aos pes e ir à tal livraria de livros de cinema, tagarelar com a vendedora, dizer-lhe que sim, que tinha visto o filme de animaçao "uma historia triste com um final feliz", e que nao, nao conhecia o livro com a mesma historia e os mesmos fantasticos desenhos, que ela me mostrava enfatizando as origens lusas da autora, e bom finalmente sair de la com ainda mais peso que antes.

E depois fazer toda a Rue de Seine a espreitar as galerias de arte, para finalmente me sentar numa esplanada com o Louvre do outro lado do rio a folhear as minhas compras.

E meter o nariz nos antiquarios perto des Beux Arts, entrar naquela loja antiga de material de pintura, com moveis de gavetas estreitinhas, e em cada uma, uma camada de pasteis muito arrumadinhos, uma gaveta so de tons de azul, outra so de amarelos e cada cor uma gaveta, e aquele cheiro a tintas e a papeis, o balcao de madeira, os empregados velhotes e de colete a mostrarem-me as varias qualidades de pasta de modelar, consoante a dureza e sair de la ainda com mais peso.

E voltar a casa, largar livros e pastas de modelar, fazer uma sesta curta e ao fim da tarde trepar as centenas de degraus da Rue du Mont Cenis em que numa das placas alguem trasformou o C em P e a rua naquele troço passou a chamar-se du Mont Penis, chegar la acima debaixo de chuva e, sem me ralar nem um pouquinho com as calças e sapatos molhados, respirar toda a Paris a meus pés.

Voilà (porque nao temos nos uma palavra boa como "voilà" para dizer "voilà"?), sao estas pequenas coisas que me encantam em Paris.

O que nao me encanta de todo é este teclado onde algumas letras se lembraram de ocupar o lugar de outras e na volta a gente pensa que nao fixa estas coisas, mas ha a memoria dos dedos que é melhor do que a nossa e quero um "a" e sai-me um "q" e vice-versa, e nao sei onde para o til e o acento agudo et bon, ça m'énerve.

março 01, 2009

sherlock holmes

Li aqui há dias no jornal uma reportagem sobre o negócio dos detectives privados e aquilo para que são mais chamados.

Casos de adultério - óbvio. Adultério é coisa tão velha como o casamento, pelo menos, e a dor de corno não passa com aspirinas. Para os amantes de vinganças, para os defensores do seu património e para os que querem sacar o do cônjuge, os serviços de um detective privado serão sempre bem vindos.

Reforçar as polícias públicas - Em épocas de crise dá sempre jeito uma mãozinha extra e as polícias recorrem por vezes a serviços de privados.

Vigiar os filhos - esta foi para mim uma enorme surpresa. Imagine-se que há pais por aí que contratam detectives privados para seguir os filhos. Para saber onde vão à noite. Para saber se bebem ou se consomem drogas. Para saber quem são os amigos. A vigilância é feita através de câmaras escondidas nos quartos, por perseguição, por garotos contratados que se infiltram nos grupos e relatam o que se passa à agência de detectives, por software inserido nos computadores e nos telemóveis que permite aos pais ler mensagens, correio e conversas no messenger.

Não sei se isto é legal nem tão pouco me interessa. O que me espanta e entristece é verificar a que ponto chegou a falta de comunicação entre pais e filhos. A total incompreensão. A falta de vergonha de recorrer a estes meios, de devassar a intimidade dos miúdos, simplesmente por incompetência de chegar a eles da forma mais óbvia: conversando, perguntando, conhecendo, sendo amigo e cúmplice.

Como dizia uma professora de francês que tive no liceu, quando a turma saía dos eixos: eu pasmo, pasmo, pasmo.

janeiro 22, 2009

do rio num dia cinzento

Aproxima-se do carro em passinhos miúdos, tão perto que lhe posso ver o amarelo do olho encerrando uma pupila negra e uma mancha vermelha na ponta do bico.

Prende-lhe a atenção um pedaço de papel pardo, molhado no molhado do chão. Debica-o, talvez na esperança de um resto de hamburguer, o vento a levantar-lhe as penas do dorso. Uma rabanada mais forte e o papel dois metros ali à frente. Fica parada medindo os passos até lá, hesitando na validade do esforço, e opta por mais uns passinhos e umas quantas bicadas. Não vá alguém estar a olhar e dá-la por parva, faz valer o trajecto com uns golinhos na poça de água onde o papel se ficou e afasta-se de novo até à beira do cais, como se, pensando bem, aquele papel engordurado não tivesse a menor importância.

Fica assim, virada para o vento, abanando ligeiramente ao seu sabor sobre as linhas direitas das patas e as folhas dos pés, olhos amarelos curiosos ora no cais ora no rio. Chega um carro e levanta voo. Vida de gaivota.

Fico por ali mais um tempinho de pensamentos mergulhados na água indecisa entre o verde e o cinzento, mas seguramente fria, arrepiada de espuma branca e molhada.

Viro a chave para o ronronar do motor, manobro a saída e vejo de novo a minha gaivota. Tenho a certeza de que é ela, o mesmo peito branco, os mesmos olhos amarelos de pupila negra curiosa, os mesmos passinhos curtos sobre as linhas direitas das patas, a mancha vermelha na ponta do bico, as penas castanhas na cabeça que misturadas com as brancas lhe dão um tom grisalho de frente para o vento. Sorrio para dentro, imbecilmente feliz por a minha gaivota ter regressado para o pé de mim.

Uns metros mais à frente vejo outra, procuro diferenças e constato que afinal é igualzinha à minha. Olho de novo para trás e não há dúvida: a minha gaivota parada no mesmo sítio, a gémea aqui. Nada me garante agora que a minha gaivota seja de facto a minha gaivota e, no entanto, fosse eu gaivota e não me escapariam decerto pormenores que fazem de cada gaivota uma gaivota única. Fosse eu gaivota e não distinguiria uma pessoa no cais de outra pessoa no cais. Fosse eu gaivota e decerto iria pousar perto da minha pessoa, sem perceber que afinal, a minha pessoa era outra pessoa qualquer.

cidade branca

Quando, como hoje, a cidade acorda branca, só a vejo em primeiro plano da minha varanda. E é como se não existisse mais nada para lá das cozinhas e da roupa nos estendais do outro lado do interior de quarteirão, que ganham assim a importância que nunca lhes dou. Nem telhados, nem torres de igrejas, nem ponte, nem Cristo Rei. Apenas os lençois e camisas dos vizinhos, as mesas entrevistas onde tomam pequenos almoços de leite com café e torradas. Some-se Cacilhas e o estuário, o braço de rio que leva ao Montijo e some-se a Arrábida e todo o espaço daqui até lá. Podem afundar-se os barcos no rio que não os vejo e das gaivotas só tenho pios perdidos acima da espessura da névoa.

É também nestes dias que o rio me chama para que o veja como um imenso mar. Não há outra margem e a ponte pendura-se na bruma num mistério de passagem para lado nenhum.

janeiro 08, 2009

os faxes e o simplex

Lembram-se das redacções da Guidinha? Aqui há dias uma amiga relembrou-mas e então como tenho aqui um tema que se adapta ao estilo, perdoe-me o Sttau Monteiro lá onde esteja, longe de mim pensar em chegar-lhe aos calcanhares, mas é mesmo assim que me apetece contar isto:

OS FAXES E O SIMPLEX

Pois lá no sítio onde eu trabalho resolveram que havia que pôr em prática algumas medidas do simplex o simplex para quem não saiba é uma coisa que embora acabe em lex não tem nada de lei é mais assim como um molho de ideias para tornar a vida mais simples a toda a gente e para poupar tempo e papel e energia a começar pela energia do cidadão e também energia da outra enfim é suposto o simplex ser bom e ecológico e politicamente correcto e moderno e essas coisas todas então lá no sítio onde eu trabalho acharam por bem acabar com os faxes e como nestas coisas se é para fazer o melhor é fazer já nem se pensou duas vezes foi mais ou menos assim numa 2ª feira olha e se a malta acabasse com os faxes? e na 3ª feira estive a pensar que aquilo de acabar com os faxes é capaz de não ser má ideia bora? bora! e na 4ªfeira desliguem-se os faxes que isto de mandar é mesmo bom e na 5ª feira já estava tudo desligado foi uma limpeza um ver se te avias nunca tinha visto tamanha eficiência desde que ali trabalho e já vai para 23 anos não tarda mesmo com a malta a gritar então e sem faxes como é que fazemos para mandar um fax? então e sem faxes como é que a malta faz para nos mandar um fax? e lá os que mandaram desligar os faxes diziam-nos que nós não éramos nada modernos e que o simplex é mesmo assim é para simplificar e que temos que poupar tempo e papel e que hoje tudo se faz por e-mail não há que enganar e aí nós dissémos ah mas o e-mail é fixe para escrever mas para enviar anexos aquilo pesa e os nossos servidores são fracotes e na volta o correio electrónico entope e aqui na nossa secção só há um scanner para 150 pessoas e temos clientes que pronto estão na idade da pedra mas não têm correio electrónico bom foi tamanha a gritaria nossa e dos clientes que queriam enviar faxes e só ouviam pipipi do outro lado que os que mandaram desligar os faxes lá resolveram então criar uns faxes virtuais que é mais ou menos assim como o e-mail mas funciona com números de telefone por isso dá para enviar correio para faxes e também para receber e prometeram que nos haviam de instalar mais uns scanners para se poderem digitalizar os documentos que têm de se enviar pronto sendo assim está bem o que tem de ser tem muita força albarde-se o burro à vontade do dono e pronto estamos todos muito contentes com o simplex porque agora de cada vez que é preciso mandar um fax é tudo muito mais simples como os tais scanners ainda não vieram vai o Sr. Arlindo à secretaria lá do fundo do corredor e põe-se na bicha dos que estão à espera que o Sr. Feliciano liberte um bocadinho o computador para eles poderem usar o scanner e quando conseguem esse bocadinho já com o Sr. Feliciano a espumar e a dizer palavrões desmancha-se a bicha e andam todos à tapona a ver quem consegue enfiar os papeis no scanner em primeiro lugar e passadas duas horas volta o Sr. Arlindo com um olho negro e os papeis rasgados a dizer que é preciso assinar tudo outra vez porque não lhe correu bem aquilo lá no scanner e então a gente assina e pelo sim pelo não tira umas fotocópias não vão os papeis rasgar-se de novo passadas mais três horas porque entretanto foi o almoço lá volta o Sr. Arlindo a dizer que desta vez conseguiu digitalizar os papeis e que pôs o ficheiro na partilha interna e vai-se a ver o servidor entupiu e tem de se esperar mais um pedacito para ver se a digitalização saíu bem mesmo que esteja um bocadinho torta paciência e lá se consegue enviar o fax pelo tal esquema virtual é um luxo para receber também não há que enganar é só chegar ao pé do Sr. Martins que é quem tem o fax virtual no computador pedir-lhe para ver se chegou algum fax da firma luzesecruzeslda mas como aquilo não tem o nome da firma só tem o número de onde vem e o Sr. Martins ainda não sabe de cor os números de fax de todos os clientes tem de abrir os faxes todos até encontrar o fax da luzesecreuzeslda depois como é preciso dar um registo de entrada é só imprimir o fax e pronto como se vê temos todos a vida facilitada poupamos imenso tempo e energia e papel pois para enviar um fax só são precisas 5 horas e duas fotocópias e para receber bastam 2 horas e uma fotocópia e enquanto não chegam os scanners aproveitámos os faxes para enfeitar com um vaso de begónias em cima e vamos-lhes passando um paninho húmido para não ganharem pó.

dezembro 22, 2008

natal

Quando eu era pequena, passávamos o Natal em Vila Nova de Ourém que, como outras vilas foi promovida a cidade e passou a chamar-se só Ourém, perdendo o pouco interesse que tinha e passando a ter nenhum, salvo um belíssimo castelo lá no alto do morro em Ourém, então "velha" e agora terra da qual desconheço a adjectivação, mas onde perdura o castelo e as ruelas e casario que o rodeiam.

Em Vila Nova de Ourém viviam:

- quando eu era mesmo pequena, os meus avós, os meus tios com a minha prima, a minha tia solteira e a minha bisavó;

- depois, os meus avós, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- nos últimos anos da minha adolescência, o meu avô, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- O Natal deixou de se passar em Vila Nova de Ourém há uns anos largos quando já só havia o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira.

Desses Natais da minha infância e juventude recordo noites mal dormidas num gelo de lençois húmidos e cobertores de papa pesadíssimos, a casa dos meus tios com um corredor que não acabava, quartos de um lado e de outro virados a norte e a nascente e para poente e sul só paredes sem janelas e tudo aquilo sem mais aquecimento que uma lareira na sala de estar que, quando o vento não estava de feição, ou seja sempre, atirava com rolos de fumo para dentro de casa, pondo todo o clã a tossir e a entrever-se desfocado com os olhos a picar.

O meu tio tinha um armazém de atoalhados e afins de maneira que a minha tia depositava a tarefa de escolher os presentes de Natal num dos empregados do armazém (cheirava a fazenda, pano turco e naftalina, o armazém) e presentava toda a família com embrulhos enormes de papel pardo atados com fitas vermelhas de dentro dos quais saiam panos de cozinha, toalhas turcas, renda a metro, jogos de cama de casal (dois lençois e duas fronhas) e outras utilidades domésticas que eu e os meus primos tínhamos de agradecer fingindo que apreciávamos muito mais ver aumentado o nosso enxoval aos oito anos de idade do que uma porcaria de um action man ou de uma caixa de lego.

O meu avô, que no fim da vida devia ter alzheimer e falava com a minha mãe como se ela fosse o Sr. Abrantes, tardes inteiras a conversar com a minha mãe, Sr. Abrantes, e como vai a família? e a minha mãe, pois vai-se andando menos mal, Sr. Lopes e logo depois o meu avô levantava-se e ia destapar o tacho do bacalhau que estava ao lume à procura da bengala enquanto me perguntava pela enésima vez se eu já tinha acabado o 7º ano e eu já a meio da faculdade. Depois chamava-me de lado, levava-me ao dito corredor sem fim e oh filha, olha para este hotel... olha que tens de dizer à tua mãe que eu não tenho dinheiro para pagar isto tudo...

Eram assim esses Natais.


novembro 11, 2008

vidas

Hoje o meu filho fez um vistaço na escola ao ser um dos que pôs o dedinho no ar quando o professor perguntou à turma se alguém conhecia a hammer films. Resumidamente e para quem não tenha paciência de visitar a página de que deixo o link, trata-se de uma produtora inglesa que nos anos 50 a 70 fez, entre outros filmes do género, alguns remakes dos clássicos do terror dos anos 30, como Drácula e Frankenstein. Pelo que me disse o J, os filmes começavam invariavelmente com um homem vestido de preto que saía de um caixão.

E conto isto porquê? Bom, a coisa atingiu a dimensão de fenómeno, criou de certa forma uma escola de seguidores e chegaram-se a fazer filmes do tipo "hammer horror" em Portugal. Sabiam? Eu também não. O que tem graça nesta estória, é isto: quem é que fazia a cena do homem a sair do caixão cá no burgo? Este homem, sobre quem fiz essa crónica aí atrás.

Sabem? O homem que diz adeus aos carros no Saldanha.

Vidas.

outubro 05, 2008

valse avec bachir

De novo a Festa do Cinema Francês, desta vez em má altura para mim, com muito pouco tempo livre para diversões :-(. Mas lá vou arranjando uns buraquinhos de tempo para largar o teclado, meter-me no carro, ir até ao S.Jorge e sentar-me um pedaço na sala escura a receber as imagens que me entram pelos olhos.

Em geral escolho filmes que provavelmente não irão entrar nos circuitos comerciais portugueses, a maioria das vezes de realizadores de quem nunca ouvi falar mas cujas sinopses me despertam a curiosidade. Com este critério, já vi noutros festivais filmes espantosos e também já aguentei valentes estopadas. Ontem fui ver Valse avec Bachir, um documentário em animação de um realizador israelita - Ari Folman. Recomendo uma visita ao site oficial e atenção à programação das salas, pois este, tal como Persepolis no ano passado, vai com certeza aparecer.

É um filme fantástico sobre a guerra entre Israel e o Líbano e o tristemente célebre massacre de palestinianos civis, revisitados através das memórias de alguns que à altura não eram mais do que simples soldados imberbes e assustados, entre eles o próprio Ari Folman que tenta, através de entrevistas a antigos camaradas, recordar o que a memória lhe nega, de tão dura que fora a vivência daqueles tempos.

E essas memórias que pouco a pouco se desvendam são terríveis. Mesmo que a opção pela animação consiga, de certa forma, afastar emocionalmente o espectador da realidade nua e crua não se fica imune ao peso do filme. Percebemos que por detrás dos bonecos estão pessoas, que as vozes são reais nas entrevistas, que os cenários são verdadeiros, talvez pela técnica usada de desenhar sobre imagens em vídeo.

Um documentário impressionante e comovente, um filme de animação tecnicamente espantoso, a música perfeita. Deixo o trailer, para espevitar vontades.

agosto 23, 2008

entre serpa e mértola




Trago ainda os olhos cheios de Alentejo, daquele suave ondulado que só lá, dos amarelos do restolho e onde não há restolho a terra quase vermelha, do negro e cinzento e castanho do xisto, das azinheiras, oliveiras, sobreiros e pinheiros espaçados em compassos de acaso, pintalgando a paisagem de manchas verdes sobre sombras escuras onde pasmam ovelhas.

Trago o cheiro a estevas colado nas narinas, peganhento, doce, quente, cheiro que me aviva na memória aquele Verão de há vinte anos, ou talvez mais, em que descemos a costa alentejana com uma tenda e um fiat127, dormindo pelas praias, tomando banho só no mar até que ao fim de 9 dias já quase não nos conseguíamos mexer de tanto sal, pele castanha de tanto sol.

Trago o gozo de fazer aquelas estradas estreitinhas sempre a direito, curvas só na vertical, a 100 à hora até parece que vamos voar nas lombas e atropelar as perdizes que atravessam a correr, mas não voamos pois que o ondulado do Alentejo é suave e mesmo a acelerar e a gritar "a los moros, Sebastian el lusitano!!!" só com muita imaginação se sente o estômago a tocar na garganta.

Trago as casas e as igrejas caiadas de branco contra um céu azul ferrete, sombras lineares nas paredes, calçadas varridas, quatro mulheres e dois cães a bordar toalhas enquanto o Guadiana se espreguiça lá em baixo afagando um porto onde dantes atracavam vapores para carregar minério e agora só dois ou três barquinhos de recreio.

Trago as noites quentes sem uma aragem sob um céu de lua cheia, os homens sentados à porta das tabernas e as mulheres à das casas, portas abertas por onde se vêem mesas, cadeiras, naperons em cima dos móveis e em cima dos naperons uma jarra de flores, uma moldura com uma fotografia e uma estatueta de loiça em que dois meninos rechonchudos dão um beijinho na boca enquanto esticam as mãozinhas sapudas para trás.

Trago o vinho tinto da casa em jarrinhas de barro, a sopa de cação com coentros, as migas com carne de porco, o ensopado de borrego, o arroz de lebre, a sericaia e a tigelada de ovos.

Meu Deus, como eu adoro o Alentejo.


julho 22, 2008

bivalves gigantes


Nunca as vi em mais sítio nenhum. Só as conheço das ilhas barreira da Ria Formosa e foi aí que aprendi a considerá-las coisa cada vez mais rara e, por isso, preciosa. É-me indiferente que existam aos milhares em qualquer outro canto do planeta; para mim elas são o “ex-libris” das ilhas e, se algum dia as vir noutro local, permitir-me-ei julgar que alguma corrente marítima as levou à má fila das ilhas para aí.

Não sei como é o bicho que vive lá dentro, nunca as vi habitadas, mas sim habitando em todas as casas da ilha em que passo férias, onde perdem definitivamente o seu estatuto de aconchego protector de um qualquer ser vivo para passarem a ter utilizações bem mais prosaicas – saboneteiras, cinzeiros, depósitos de inutilidades-que-se-guardam-à-espera-do-dia-em-que-talvez-sejam-precisas.

Para mim, são objectos belos, com o seu riscado ondulante que deixa adivinhar os períodos de crescimento. Ao que me dizem, dantes apareciam muitas a rebolar nas águas baixas das marés-vazias. Agora, encontrá-las é um privilégio. Podem-se andar quilómetros à beira-mar sem dar com nenhuma, mesmo que os olhos não larguem a areia da maré-baixa.

Caprichosas, não se deixam apanhar por qualquer um, antes escolhendo junto de quem querem passar o resto dos seus dias intactas em vez de se verem reduzidas, mais cedo ou mais tarde, a fragmentos da areia das praias.

O encontro com uma, branca e imaculada, é pois um acontecimento fortuito, fruto do acaso e da conjugação de múltiplos factos e improváveis coincidências.

Esta veio-me bater nos pés no rebentar de uma onda baixinha enquanto caminhava num dos meus longos passeios matinais até à barra. Como se me dissesse: aqui estou eu, leva-me contigo e guarda-me ou oferece-me a alguém que te seja caro. Foi o que fiz.

junho 18, 2008

a perda da perca

Hoje tive um desgosto. Não se pode dizer que tenha sido um ENORME desgosto, mas um desgostozinho, pronto. Vinha eu para casa ao fim da tarde com a Rádio Europa Lisboa sintonizada,

já disse que gosto desta rádio? Pois gosto. Tem uma selecção de jazz que faz bem o meu género e algumas rubricas que gosto de ouvir: "3 minutos de ciência" de Nuno Crato — hoje comprei "a matemática das coisas" à conta desta, "3W's" de Paulo Lázaro — por vezes com dicas interessantes sobre páginas da net, e outras de que agoro não me recordo (a minha memória está de momento apenas sintonizada para os programas com um 3 no nome)

quando começa o 3W's. Pensando bem, o que me agrada mais neste programa é mesmo a voz do Paulo Lázaro. Voz do caneco... Eu ouço o Paulo Lázaro e já nem sei do que ele está a falar de tal forma fico em estado quase catatónico com aquela música — para mim o homem a falar é música nos meus ouvidos.

Bom, então começa o 3W's, eu a ficar em transe e tal, quando às tantas o Paulo fala (por duas vezes, duas) na perca de dados informáticos. Eh pá, caíu-me tudo. É que para mim perca é um peixe — este aqui, oh

foto roubada algures na net

que se pesca em albufeiras e afins, sem qualquer interesse, aliás, já que basta espetar uma bolinha de pão no anzol, lançá-lo com a cana e retirar a perca mole de passividade passados 3 segundos.

Então a voz mais sexy da rádio diz um disparate destes?, pensei eu entre o desgosto e o desgosto. Bolas, o homem é culto, caramba, será que sou eu que estou enganada e "perca", além de peixe e conjuntivo e imperativo lá do verbo perder também é sinónimo de "perda"?

Por via das dúvidas, fui ao ciberdúvidas, as allways e, qual o meu espanto, dou com isto:

Entre estas duas palavras, significando "acto ou efeito de perder", a única diferença existente entre elas é a seguinte: perca pertence à linguagem popular, mas é correctíssima, ao passo que perda pertence à língua culta. Quanto ao significado, não há diferença.

Ai Paulo, Paulo, estás perdoado, môr. Afinal eu sou mas é uma snob.

(...da-se)


maio 24, 2008

explosão de roxo


Gosto de pensar a minha cidade ao ritmo das árvores, saber que quando nos freixos começam a rebentar as primeiras folhas de um verde brilhante em breve todos os outros troncos despidos formarão as suas copas e que, quando finalmente caírem as últimas folhas dos choupos, o inverno estará a chegar.

Gosto de assim sentir a passagem do tempo modificando as cores e os cheiros de Lisboa, os contrastes de luz e sombra, doce brisa ou vento que embaraça cabelos e revira chapéus-de-chuva.

Nesta altura do ano são os jacarandás. A floração faz-se anunciar previamente por um cheiro acre e quente que me faz lembrar as estevas no verão e, passados uns dias, Lisboa rebenta de roxo e lilás numa beleza estonteante mas breve, primeiro nas copas, depois nos passeios da calçada que fica escorregadia e peganhenta de tanta flor.

O melhor ainda, é naqueles anos em que os jacarandás se esquecem que estão no hemisfério norte, baralham o calendário e desatam a florir em outubro como que num desesperado regresso às origens ditado por um relógio antigo que não lhes abandona os genes. Não sei porquê, não acontece todos os anos mas isso encanta-me pelo sabor especial que vem das coisas que não temos como certas. Terá de passar setembro para saber.

abril 29, 2008

zangas de putos

A - dá cá a minha boneca, que já a estragaste toda, minha estúpida, gorda e feia
B - mas tu emprestaste-ma!
A - emprestei, mas não dei. não tinhas nada que a estragar. és má e parva. dá-a cá, minha anormal ou nunca mais te falo.
B - pronto, é tua, toma lá. mas quem nunca mais te fala sou eu. és invejosa e tens borbulhas.
A - e tu usas óculos e a tua mãe tem pelos no nariz.
B - ah é? e o teu pai cheira mal dos pés e a tua avó não tem dentes.
A - e tu és tão feia que ninguém gosta de ti.
B - e tu pareces um pau de virar tripas e chamaste-me nomes feios.
A - pois chamei, mas tu tiraste-me a boneca e além disso no outro dia disseste que vinhas brincar comigo e não apareceste nem disseste nada e já fizeste isso montes de vezes.
B - isso não interessa, quero lá saber. chamaste-me nomes, pronto. és má. não sou mais tua amiga.
A - ...
B - ...
A - vá lá pronto. desculpa ter-te chamado nomes, mas estragaste-me a boneca e também me chamaste nomes. vamos fazer as pazes?
B - não. não quero ser mais tua amiga. és má.
A - vá lá, vamos fazer as pazes.
B - ...
A - ...
B - ...
A - ...
B - ...


Pois. Conversas destas são comuns entre miúdos. Muitas vezes as coisas só se resolvem com a intervenção de um adulto.

O que é estúpido é quando diálogos análogos se dão entre adultos. Não havendo um superadulto para mediar a contenda, gera-se uma guerra de silêncios gelados. A, 1º ofendido e 2º ofensor espera que B aceite a sua proposta de paz e não diz nada. B, esquece-se de que foi o 1º ofensor, resguarda-se no seu papel de 2º ofendido e pavoneia-se à frente de A, não dando o braço a torcer e esperando que A quebre.

Entre pessoas verdadeiramente amigas, mesmo quando no calor da contenda as ofensas ultrapassam o razoável e deitamos cá para fora todas as pequenas coisas que nos magoaram naquela relação, as zangas não duram mais que um ou dois dias. Já nos aconteceu a todos, não é?

Mas também já vi casos em que as "amizades" se perdem irremediavelmente à conta de arrufos deste género. Nestes casos não sei se se pode garantir que houvesse uma amizade. Seria qualquer outra coisa?

abril 22, 2008

slow food

Já todos fomos ao macdonaldo e à pisa-âte e a esses sítios onde se come comida de plástico servida ao balcão por rapazinhos e rapazinhas de boné. Confesso que por vezes, ao Domingo, sem pachorra para perder tempo com cozinhas e restaurantes, também engulo um humburguer com umas batatas fritas gordurentas e uma grande coca-cola para neutralizar o resto do repasto. Invariavelmente, a seguir, sinto-me acometida de culpas várias, como por exemplo:

- culpa do pecado - fui preguiçosa
- culpa social - contribuí para a engorda dos monopólios do imperialismo americano
- culpa sanitária - esta porcaria faz-me mal

Felizmente que isto só se passa nalguns Domingos. De contrário, do que eu gosto mesmo é de comidinha tradicional a fumegar no meu prato acompanhada de um bom tinto, de doçaria conventual, de queijinhos campestres de várias nacionalidades, de camarões com cerveja, de paio de barrancos, de prosciuto de parma, enfim de coisas mesmo BOAS (para o meu gosto, claro, que o "bom gosto" é coisa que não entra no meu vocabulário).

É por isso que gosto deste movimento chamado "Slow Food", cujo símbolo, muito apropriado, é este:



Os promotores da Slow Food, organização que se espalha já por vários países (incluindo Portugal, cujo site tem a última entrada datada de dezembro de 2006 (!!) então, senhores?) merecem todo o meu apoio. Promovem a produção regional de produtos alimentares tradicionais de qualidade, esmifram-se a lutar contra as cadeias de fast food, organizam feiras e outros eventos, protegem os pequenos agricultores opondo-se à industrialização excessiva da agricultura e transmitem-nos basicamente esta mensagem:

Comer devagar, saboreando, o que se produz devagar, é mesmo bom.

Tenho para mim (gosto de usar esta expressão) que a ASAE devia mas é ter umas aulas com a malta da slow food e deixar de nos moer a cabeça com esta coisa de preterir o croquete em favor da hamburguesa de plástico.

abril 17, 2008

o preço (barato) da fama

Uma destas noites jantei no hotel bairro alto, por ocasião do aniversário de vida sob o mesmo tecto de um casal amigo.

Na sala de jantar, toda por conta deste grupo aí com 80% de fumadores, não se podia, obviamente, fumar.

É nestas ocasiões que a lei anti-tabágica tem o seu quê de ridículo. Não se podia fumar na sala de jantar mas podia-se fumar no bar ali ao lado, um piso abaixo. De forma que passámos a noite entre a sala de jantar e o dito bar e, como os não fumadores eram poucos e o grupo muito unido, lá íamos todos em catadupa escada abaixo alimentar o vício, deixando a sala às moscas por três ou quatro vezes e os empregados desorientados.

Numa destas idas ao bar

copos antes do jantar lá em cima no terraço (vista do caraças), copos durante o jantar, uma mulher desinibe-se

às tantas apercebo-me da porta ao cimo das escadas a abrir-se, olho para lá e vejo um dos gatos fedorentos a preparar-se para descer com uma amiga e digo muito alto:

- Olha o Zé Diogo Quintela!

O Zé Diogo olhou para mim, viu que não me conhecia de lado nenhum, fez o ar mais atrapalhado deste mundo, virou-se e preparou-se para voltar para trás. Enquanto o resto de grupo se ria sem qualquer pudor, eu, com pena dele, ainda disse:

- Não precisa de fugir... estava só a brincar consigo!

Ele virou-se para mim, fez um sorriso amarelo e foi-se embora.

Ficámos a comentar a chatice que é ser-se famoso e ter as pessoas a fazerem palermices destas a toda a hora. Alguém referiu que nós, os portugueses, até somos bastante discretos e deixamos, de um modo geral, as celebridades em paz. Concordo. Eu, por exemplo, nunca teria feito aquilo se não tivesse bebido uns copinhos de vinho.

Cinco minutos passados e ei-lo que regressa. O homem queria mesmo ir ao bar e não seriam vinte e tal cotas que o iriam impedir. Fez bem. Ninguém o chateou mais.

abril 04, 2008

I have a dream



Martin Luther King foi assassinado faz hoje 40 anos.

Tenho uma enorme admiração por este homem, pela forma como soube conduzir o seu povo numa luta pacífica pelos seus direitos. Como, do outro lado do mundo Gandhi, outro grande homem, tinha feito.

40 anos passados e o famoso discurso de Agosto de 1963 em Washington continua actual em muitos locais do mundo onde perduram descriminações de vários tipos: raciais, religiosas, étnicas, sexuais, sociais.

Vale a pena ler o discurso na íntegra aqui, ou ouvi-lo aqui

Deixo alguns excertos, em memória deste grande defensor da paz e dos direitos humanos.


I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.

Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.

But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. So we have come here today to dramatize a shameful condition.

(...)

Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quick sands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God's children.

(...)

But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.

We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force. The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.

(...)

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."

(...)

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

(...)

And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, "Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!"