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fevereiro 08, 2010

uns meses depois

Apetece-me de novo a quietude da casa, passos só os meus, leves de quarto em quarto e o silêncio a escorregar devagar pelos vidros das janelas.

Apetece-me o gato enrolado no colo, dedos distraídos a remexer o pelo, as unhas do cão fazendo tictic no soalho embaraçando o tictac do relógio de parede que não tenho mas que podia perfeitamente ter, sem que isso me perturbasse a quietude da casa nem o silêncio a escorregar preguiçoso pelos vidros das janelas enquanto os meus passos vagueiam de quarto em quarto.

Apetece-me sentar no chão e abrir a gaveta mais baixa do armário onde guardo as fotografias velhas do tempo em que se faziam em papel, tirar de envelopes etiquetados rostos que me sorriem de há 30 anos atrás, eu a sorrir para mim há 20 anos, sem saber então que me olharia agora a procurar prenúncios de rugas nos cantinhos dos olhos e nas comissuras dos lábios.

Apetece-me a quietude da casa para finalmente me encontrar em mim, sem outros passos que não os meus, apenas o tictic das unhas do cão no soalho e o silêncio a escorregar de mansinho pelos vidros das janelas, enquanto o gato se enrola sobre os meus joelhos na esperança de uns dedos distraídos que lhe misturem o pelo antes de adormecer.

E antes de adormecer rever os barcos e o rio que os seduz na mansidão dos dias que correm sem que nada aconteça, ao som do silêncio que de tanto escorregar pelos vidros das janelas os quebra finalmente em mil pedaços de luz na noite que é só minha.

outubro 16, 2009

acordares

Como a casa acorda devagar, fios de luz pelas frestas das persianas deslizando no soalho, o gato que se espreguiça ao fundo da cama remiando baixinho, água a correr na casa de banho, passos leves no corredor, louças a tinir na cozinha, cheiro a café e a porta que se fecha sobre o silêncio que fica.

A casa a acordar devagar e eu a recusar o dia.

agosto 17, 2009

hot hot hot

Não gosto deste calor a não ser que me materialize à beira d'água e me embeba na sua doçura fresca. Corpo a deslizar na água ou água que desliza no corpo, tão transparente e macia como a camisola do dia na canção.

Não gosto deste calor de ananases (vá-se lá saber por que se diz calor de ananases e não de bananas que são bem mais quentes, digo eu) que me faz a pele pegajosa, humidades e suores misturados com pós e coisas que andam pelo ar, a menos que possa estar como vim ao mundo espojada num lençol branco, lavado e bem esticado, com um pano molhado pendurado no vão da janela aberta e que a brisa liberte de frescura.

Não gosto deste calor a não ser à noite, se me passeio à beira-rio, escapando-me de todos os outros que se passeiam de noite à beira-rio porque não gostam deste calor e por ali sempre têm a ilusão de vagas brisas, mais largas ainda assim que as dos aparelhos de ar condicionado que se regulam para 18ºC e não fazem o termómetro baixar dos 24.

Não gosto deste calor que aquece como uma estufa o meu apartamento de último andar, apesar das vistas da varanda e das larguezas que lhe gabo.

Não gosto deste calor, a menos que o tenha num qualquer destino onde a vontade me leve e ele avive os cheiros a terra ventre parindo naturezas e cores e sabores que até aí me eram estranhos.

Não gosto deste calor, ainda que a minha alma me leve sempre para Sul os passos.

Não gosto deste calor aqui.

maio 04, 2009

azul

O dia tão azul e no entanto pérolas nos olhos a turvarem o azul do dia enquanto não descem pela face e se unem no queixo em pérolas maiores que tombam no colo, contas desfiadas de um colar antigo.

O dia tão azul e no entanto eu aqui e tu sei lá bem onde, mesmo que te ouça como se estivesses mesmo ao meu lado e me arrepiasses o pescoço num sussurro e num toque de dedos pelas costas.

O dia tão azul e no entanto alguém a pintá-lo de branco, indiferente a pérolas nos olhos, indiferente a arrepios de dedos e sussuros em ouvidos, como se lhe pertencesse todo o azul do dia.

março 13, 2009

guitarras

quando dedilham guitarras
em choros prantos lamentos
ao ritmo que cresce nos dedos
como em asas de cigarras

bate o coração que canta
no peito e mãos, no corpo todo
até se soltar o grito
abafado na garganta

março 09, 2009

tempos in úteis

É verdade, como te disse, que me canso de mim assim como sou. Canso-me de mim a querer fazer tanta coisa e no final a não fazer nada. Como se tivesse um caderno em que fosse preenchendo as folhas com listas, cronogramas, diagramas com bolas, losangos, quadrados e muitas setas. E uma vez esse caderno acabado, preencheria outro e mais outro, até ter uma prateleira inteira cheia de cadernos bem alinhados, e mais nada, sempre muito pouco mais que nada.

Canso-me de mim assim como sou. De gastar o tempo com inutilidades como sentar-me ali fora na varanda, pés apoiados no varandim a medir a cidade a palmo. Dois palmos da torre da basílica até ao topo do pilar da ponte, meio palmo daí até ao Cristo-Rei e, de lá a Cacilhas, três palmos bem medidos. E quando já não há nada que me interesse medir a palmo, conto quantos barcos passam no meu pedaço de rio em meia-hora, quantos aviões no meu pedaço de céu ou, se calha o tempo trazer as gaivotas até cá acima, tento contá-las sem repetir nenhuma.

No fim do dia, conto quantas coisas não fiz das que queria ter feito.

Lá no fundo, gosto dos tempos inúteis, fazem-me sentir dona de todo o tempo do mundo. Mesmo assim, canso-me de mim assim como sou.

janeiro 08, 2009

frio

é quando está frio
assim,
quando o abraço é
mais apertado
o beijo mais doce
e o chocolate
mais quente,
que.

janeiro 03, 2009

desejos confessos

madrid, nov 2008

para este ano
(confesso)
queria um amor
em frente e verso

pode ser controverso
conter versos
perversos
ter tempo e contratempo
capa e contracapa
ida e volta
sim e não
mas também
força
e entrega
e paixão

queria que o amor por ti
delícia
fosse um amor por mim
carícia
um amor assim
que (sem malícia)
confesso em verso
num regresso
de mim

dezembro 15, 2008

vento


em voltas revoltas
à volta das copas
(altas)
bandos de pássaros
cor-de-laranja
em voos malucos
sem tino
sem nexo
incertos
sem rumo
morcegos
traças
tontos de luz
chovem nos meus cabelos


jazem os pássaros
mortos no chão
asas quebradas de cansaço

novembro 04, 2008

sem porquês



Às vezes (muitas?) penso que a vida me seria bem mais fácil se me preocupasse menos em encontrar o porquê das coisas, em vez de as aceitar simplesmente como são. Sem porquês.

outubro 24, 2008

encruzilhada

Desordenaste a ordem, saltaste etapas
e nem por isso chegaste ao fim.

Fiquei encostada numa esquina do tempo,
esperando que o enganes à socapa
e passes de novo por mim.

outubro 23, 2008

feeling dizzy


Sinto-me confusa. Há qualquer coisa que não anda bem. A ver se assento os pés na terra.

outubro 08, 2008

ameaço de onda


tenho dias
em que tenho
uma saudade imensa
do que não tive nem dei
da pele
do beijo
do cheiro
(não aroma
não perfume)
do meu no teu
olhar todo

ameaço de onda
que não me liquefez
em espuma
e me deixou perdida
na bruma

outubro 06, 2008

clicks

Aqui há tempos um amigo contou-me que, muitos anos antes, tinha percebido que afinal não gostava da namorada num dia em que a vira a andar de bicicleta com uma camisa larga que enfunava com o vento que lhe entrava por baixo, fazendo dela um enorme balão com uma cabecinha no topo e umas perninhas em baixo. A imagem fora de tal forma ridícula a seus olhos que teve aquele click que lhe faltava para entender que não era aquela a mulher dos seus sonhos.

Tenho a sensação que me aconteceu algo do género aqui há uns dias quando corria pela Rua de S. Bento abaixo actuando numa performance do meu ex-coro, em trajes de marujo mal amanhado, suada e de maquilhagem já borrada.

O meu vizinho diz que eu corro muito mal, sem qualquer elegância.

Concordo. É imagem para provocar clicks em qualquer pretendente que se preze.

e agora...



... a apetecer-me fingir que não tenho nada para fazer e ir ali para a minha varanda, sentar-me numa das cadeiras de plástico já baças de tanto sol, apoiar os pés na guarda e pôr-me a ver o tempo a passar.

Assim, só isto. Enfiar-me no tempo de forma a sentir quanto tempo demora o tempo a passar. Eventualmente fumar um cigarro e beber um copo de vodca tirada directamente do congelador a que juntasse duas pedras de gelo.

Assim, só isto. Ver as luzes do outro lado do estuário, os picos da ponte, o cristo-rei, os telhados do primeiro plano no contra-luz da noite e esperar o tempo. Senti-lo a passar, esperar que os segundos saiam a seu tempo do relógio, em fila indiana, cada segundo segurando no bibe do segundo que vai à sua frente sem atropelos nem pressas.

Quanto tempo demora o teu tempo? Quanto tempo demora o meu? Por vezes encontramo-nos no espaço. Espero com tempo, que o tempo passe e nos encontremos no tempo.

agosto 14, 2008

i think i've gone crazy

Quando o dia de trabalho não me chega, nem de perto nem de longe, para a quantidade disparatada de coisas que tenho de fazer derivadaofacto de metade da malta estar de férias, não me restando outra solução que não a de trazer trabalho para casa e, chegando a estas lindas horas ainda a procissão vai no adro, acho mesmo que estou muito mais maluca do que este dad aqui em baixo.

Tanto mais que, deste esforço só recebo agradecimentos. Embora simpáticos, uns cobres extra no bolso dar-me-iam muito mais jeito.

Só não me digam que os funcionários públicos são TODOS uns calões, que não fazem nada, que só servem para levar a massa dos impostos e patati e patatá, ok?

É que não estou mesmo com disposição para ouvir esse tipo de merdas.

julho 16, 2008

para não cair

Pergunto-me se existes quando não te vejo tal como me perguntaste se na floresta uma árvore cai realmente se não estiver lá ninguém para ouvir o quebrar dos ramos e do tronco, o gemido ao tombar no solo.

Agora que não estás aqui, interrogo-me se és onde estás, se a suavidade da tua pele na minha só é quando me aqueces enlaçado a mim, a leve aspereza das tuas mãos apenas quando me tocas, muda a tua voz se não me chegam palavras nem silêncios, cegos os teus olhos se não os vejo nos meus.

Como esta areia que agora piso e da qual sinto a quentura, como o compasso das ondas deste mar onde mergulho, como todas as estrelas que pintam constelações no céu e que não sei se aqui ficam quando me for no barco que rasgará a lisura líquida da ria. Tudo ficará atrás de mim ou talvez não, quem sabe tudo isto apenas nos meus sonhos e, se assim for, para trás deixarei somente o vazio do espaço que os sonhos já não preenchem, quem sabe também eu apenas nos sonhos de alguém que de outro alguém igualmente é sonho e nada mais.

Pergunto-me de novo se existes quando não te vejo, de ti guardo palavras e silêncios, a lembrança de uma mão que me afaga e de uns lábios que roçam ao de leve os meus, a memória de um cheiro.

Deito-me então de costas a olhar o céu que não sei se existe e, como tu, agarro-me às ervas para não cair.

maio 29, 2008

giving up

Hoje tenho estado assim. À beira de giving up. Não acredito que haja um lugar a que pertençamos.

No entanto gosto de Peter Gabriel. E de Kate Bush. E ainda mais de Peter Gabriel com Kate Bush.



In this proud land we grew up strong
we were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail
No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face, I've changed my name
but no one wants you when you lose

Don't give up
'cause you have friends
don't give up
you're not beaten yet
don't give up
I know you can make it good

Though I saw it all around
never thought I could be affected
thought that we'd be the last to go
it is so strange the way things turn
drove the night toward my home
the place that I was born, on the lakeside
as daylight broke, I saw the earth
the trees had burned down to the ground

Don't give up
you still have us
don't give up
we don't need much of anything
don't give up
'cause somewhere there's a place
where we belong

Rest your head
you worry too much
it's going to be alright
when times get rough
you can fall back on us
don't give up
please don't give up

'got to walk out of here
I can't take anymore
going to stand on that bridge
keep my eyes down below
whatever may come
and whatever may go
that river's flowing
that river's flowing
Moved on to another town
tried hard to settle down
for every job, so many men
so many men no-one needs

Don't give up
'cause you have friends
don't give up
you're not the only one
don't give up
no reason to be ashamed
don't give up
you still have us
don't give up now
we're proud of who you are
don't give up
you know it's never been easy
don't give up

'cause I believe there's a place
there's a place where we belong

maio 02, 2008

de repente

Ainda ontem o Natal e a passagem de ano e pimba, já estamos em Maio.

Ainda há pouco a miúda inglesa acabada de sumir, o alarido nas televisões e nos jornais e tau, já faz um ano.

Há tão pouco o pezinho do meu filho todo na minha mão fechada, aquele cheiro a coisa saída de mim, aqueles instintos todos à flor da pele e de repente mais 3 meses e já faz 18 anos.

O meu irmão a puxar-me os totós, a minha mãe a enfiar-me a comida toda moída pela boca a baixo, o meu pai a guiar o carro e eu sentada ao colo dele, de mãos no volante ou por cima da dele a pôr as mudanças, convencida que era eu que conduzia, a rir a rir.

A pele tão lisa e de repente, rugas.

E se o tempo me desse umas treguazinhas? Pequenitas, pronto, mas umas treguazinhas em que parasse um bocadinho?

Sim?

abril 07, 2008

águas de abril

O vento faz as águas do rio navegarem em sentido contrário defronte dos teus olhos hoje tão líquidos.

Vês as manadas de carneirinhos subindo o Tejo em contra mão, indiferentes às gaivotas paradas no ar, felizes saltitando de onda em onda e a rirem-se de ti.

Vês a tua vida que anda para trás, tão igual às águas que sobem quando deviam descer, tão igual ao mar que desagua neste rio cinzento, como cinzenta te sentes.

De repente uma nuvem que se desfaz sobre o rio e sobre ti que o vento fustiga e torna tudo tão líquido à tua volta como líquidos os teus olhos.

Rompe o Sol fugaz entre as nuvens, o rio subitamente não cinzento mas verde e castanho, o ferry de Porto Brandão que passa vazio tocando a manada de carneiros, que assim trota Tejo acima com mais afinco, acicatada pelas gaivotas que piam como cães pastores, e tudo isto te faz sentir ainda mais perdida dentro de ti, impotente para nadar contra esta maré inversa que é a tua vida e este rio, afogada na água que tens dentro e que faz os teus olhos líquidos mas que deles não sai porque secou.