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março 19, 2009

leve

Aos poucos, de forma directa ou enviesada, ele tinha-me dado as coordenadas da sua casa. Sem me ter dito exactamente onde passava os seus dias solitários e as suas noites mal dormidas, falara-me da vila, das lojas próximas, do bairro de ruas estreitas e sinuosas do lugar.

Numa noite de insónias como tantas outras, pus-me a caminho. Não era longe. Depois de sair da estrada principal em direcção à vila, encontrei o bairro com facilidade e percorri meticulosamente todas as ruelas que serpenteavam em casinhas de um lado e de outro até que, finalmente, vi o carro que tão bem conhecia estacionado em frente a uma casa onde no quintal as árvores de que ele me tinha falado confraternizavam com a cadeira de baloiço no alpendre. Estacionei depois de uma curva da rua, onde dificilmente daria por mim, mesmo que viesse apanhar o ar da noite a uma das janelas abertas e iluminadas, interrompendo o andarilhar de dedos em músicas que eu sabia que ele tocava e que agora ouvia pela primeira vez.

Fiquei assim por muito tempo, embalada pelas notas que saiam da janela, sentada de olhos fechados, ganhando coragem para um telefonema, uma sms estou aqui à tua porta, queres abri-la para mim?. Peguei no telemóvel, hesitante, e quando ia começar a escrever as primeiras letras, a música parou e vi a silhueta dele que se aproximava da janela e a fechava.

Larguei o telemóvel e fiquei de olhos perdidos na janela fechada, a sentir na carne os beijos quentes e os abraços que fugiam, a lembrar o beijo trocado ao de leve (tão leve) meses atrás, um simples roçar de lábios num encontro fugaz numa rua de Lisboa.

As luzes apagaram-se dentro da janela fechada. Lambi a lágrima salgada que me escorreu pela aba do nariz e me pousou no lábio superior. Liguei o motor do carro e desci a rua devagarinho. À porta dele não abrandei e segui em frente.

Nunca seria capaz.

fevereiro 18, 2009

tempo


Vais e vens como um barco de rota incerta, sem hora ou tempo de atracar ao cais.

Já deixei de olhar o horizonte das águas em busca da tua silhueta esguia no contraluz da tarde, já deixei.

Sei que à entrada do porto algo tão leve e efémero como um bater de asas ou um laivo de espuma te fará virar o leme noutra rota de destino que nem tu vislumbras.

Como um menino de calções perseguindo uma bola de sabão, como um gato ziguezagueando uma borboleta.

Num fim de tarde tão improvável como qualquer outro, lá estarás de novo qual barco atracado ao cais sem rota certa ou hora ou tempo, a dizer-me olá como se nada fosse naquela capacidade apenas tua de comprimir as luas num só dia.

fevereiro 15, 2009

o caminho para casa

Ele aproximou-se dela motivado por um sentimento protector que jamais experimentara antes. Nunca as mulheres o tinham verdadeiramente interessado, exceptuando a mãe com quem sempre vivera. Levava uma vida pacata, de dias iguais como grãos de areia, as novidades no jornal da manhã com o café tomado no sítio de sempre, o autocarro para a repartição, o almoço na cantina, o regresso para o jantar maternal e o sofá onde cabeceava frente ao televisor, antes de recolher ao aconchego dos lençóis. Uma vez por mês atendia às necessidades que a sua masculinidade lhe impunha com uma rapariga que parava pelo Conde Redondo.

Os dias corriam assim sem sobressaltos nem outras precisões até que ela se sentou na secretária do fundo, defronte da máquina de escrever já gasta, num ângulo que colidia com o seu olhar sempre que o levantava dos papeis em que preenchia longas colunas de números.

Ela era pequena e leve e tão branca que se podia ver o sangue a percorrer as veias que levantavam a pele translúcida que o invariável preto dos vestidos realçava. Aos seus olhos ela não andava como toda a gente, mas deslizava suavemente a curta distância do chão como que movida pela simples aragem do virar das páginas dos livros de contabilidade. Diria ele que ela se quebraria ao menor toque e ficaria reduzida a um monte de cacos de fino vidro no chão de linóleo, que ele depois teria de varrer por entre lágrimas do remorso de não a ter segurado a tempo.

Assim se chegou a ela, primeiro seguindo-a à distância certa de uma passada e um braço, depois pondo-se ao lado dela e acompanhando-a onde quer que fosse. Ela aceitou aquela presença com a naturalidade de quem, como ela, passava pela vida sem deixar marcas.

E assim se passaram anos, sem que entre os dois se tivesse trocado uma palavra, um toque ou um olhar, ela cada vez mais leve e transparente, ele segurando-a pelo vestido para que não voasse pois reparara que os seus pés, que dantes mal tocavam o chão, agora deslizavam a uns bons 15 cm de altura.

Num dia em que o vento soprava mais forte e ele a acompanhava a casa, uma rajada súbita e a ponta do vestido que ele segurava delicadamente soltou-se-lhe da mão, deixando-o sozinho no passeio enquanto ela evitava as copas das árvores e começava já a ultrapassar os telhados dos prédios.

Nesse momento em que a viu subindo, de vestido preto ondulando suavemente, percebeu que, se não a seguisse, ficaria como ela, cada vez mais leve e vazio até desaparecer de vez. Esqueceu todas as leis da física, que de qualquer modo nunca tinha aprendido como deve ser, e levantou voo a tempo de a ver passar atrás da torre 3 das Amoreiras em direcção a Sul.

Voaram assim, ela à frente e ele seguindo-a, deixando a cidade para trás, primeiro ao longo do rio, depois por cima de campos verdes e amarelos. Quando já não havia casas, nem animais nem pessoas, ela começou a subir mais em direcção ao céu. Ao longe, bem no alto, ele viu uma porta entreaberta. Sentiu-se em paz. Chegava finalmente a casa.

Texto escrito em resposta ao desafio da Ana, do Porta do Vento.

novembro 11, 2008

vidas

Hoje o meu filho fez um vistaço na escola ao ser um dos que pôs o dedinho no ar quando o professor perguntou à turma se alguém conhecia a hammer films. Resumidamente e para quem não tenha paciência de visitar a página de que deixo o link, trata-se de uma produtora inglesa que nos anos 50 a 70 fez, entre outros filmes do género, alguns remakes dos clássicos do terror dos anos 30, como Drácula e Frankenstein. Pelo que me disse o J, os filmes começavam invariavelmente com um homem vestido de preto que saía de um caixão.

E conto isto porquê? Bom, a coisa atingiu a dimensão de fenómeno, criou de certa forma uma escola de seguidores e chegaram-se a fazer filmes do tipo "hammer horror" em Portugal. Sabiam? Eu também não. O que tem graça nesta estória, é isto: quem é que fazia a cena do homem a sair do caixão cá no burgo? Este homem, sobre quem fiz essa crónica aí atrás.

Sabem? O homem que diz adeus aos carros no Saldanha.

Vidas.

setembro 21, 2008

o dedo e a palma

Sentaram-se na varanda a olhar a noite, corpos ainda molhados enrolados em toalhas, pés apoiados no varandim. Naquela meia hora geriram com cuidada perícia conversas e silêncios, as pontas dos cigarros a avermelharem à vez.

Comentaram os telhados, as antenas tombadas de desuso, os ângulos de que dali se viam as torres das igrejas, os ruídos da noite, as luzes nas janelas, o Norte e o Sul.

Viram os aviões que passavam da esquerda para a direita sempre a um dedo da chaminé ali em frente desde que se esticasse bem o braço e o dedo na horizontal, apoiado na ponta da chaminé.

Entre conversas e silêncios regressaram ao quarto.

- Dá para ficar cá hoje?
- Hoje não dá, desculpa, fica para outra vez.

Despediram-se sem muita conversa até um dia destes, fica bem e com dois sorrisos de silêncio.

Chegou a casa, despiu-se, enrolou o corpo seco numa toalha e sentou-se na varanda a olhar a noite, pés apoiados no varandim. Observou os telhados, as antenas tombadas de desuso, os ângulos de que dali se viam as torres das mesmas igrejas, os ruídos da noite, as luzes noutras janelas, o Norte e o Sul ao contrário. Concluíu que os aviões, que na sua varanda vinham sempre de frente para trás, passavam não a um dedo mas a uma mão travessa da chaminé ali em frente desde que esticasse bem o braço e a palma virada para si, o mindinho apoiado na ponta da chaminé.

Diferenças tão subtis e no entanto.

Percebeu nesse momento que não se veriam mais.

Como lhe tinha sido dito, ficou bem.

maio 30, 2008

uma pele de anjo e um balão

O meu amigo M que, devo dizer, é um homem muito bonito e de charme dificilmente ultrapassável, apresenta algumas parecenças com este anjinho.

Os mesmos olhos azuis, a mesma pele mate, lisa e quase ausente de pelo, a mesma boca generosa. Por essa razão, quando ele e a nossa amiga H foram ao México, trouxeram um par destes anjos esculpidos numa madeira leve como espuma, um para cada um, à laia de recordação.

Esta semelhança de M com os anjos mexicanos encontra razões perdidas algures na sua árvore genealógica que duas bisavós índias, roubadas às selvas amazónicas por dois bisavôs de fartas bigodaças, ornamentam com os seus cocares de penas e colares de pedrinhas.

Até M me contar a história da sua ascendência, sempre me espantara como é que um homem louro e de olhos azuis tinha aquele tom de pele dourado, como se passasse o ano todo na praia. O que acontece afinal é que M tem avós caboclos o que só me vem comprovar esta ideia que eu tenho de que na mestiçagem é que está a verdadeira virtude.

Quando penso nesta história das bisavós índias de que não conheço nada, imagino duas mulheres já meio ocidentalizadas, com vestidos de anquinhas e sapatos de cetim a apertarem pés calejados, desembarcando no Porto com os olhos parados de espanto de quem nunca viu tanta ausência de verde. Duas mulheres a cheirarem a terra e a fumo, com gritos de araras misturados na cabeça com o repicar dos sinos das igrejas. Não faço ideia se tinham algum parentesco, se vieram juntas ou separadas. Romanceio que os homens eram amigos, que andaram pelos Brasis e acabaram trazendo estas mulheres no regresso à terra.

Com este enredo é possível que uma delas tenha consolado e amparado a outra no dia em que um dos bisavôs (não há dúvida que estes homens eram aventureiros natos), se meteu com mais dois amigos num balão que levantou voo da Torre dos Clérigos, subiu por ali acima entre salvas e gritos da multidão e nunca mais foi visto. Até hoje.

maio 06, 2008

handwriting

imagem copiada da net

O som do aparo a riscar o papel, o cheiro da tinta, pedaços de silêncio a escolher palavras que depois não saem de secas, abanar a caneta para que escreva de novo.

O toque dos dedos na trama do papel, apreciar a textura, o tom, o peso.

- Há quanto tempo não recebes uma carta?
- Há uns meses, um ano talvez.

Há quanto tempo não escrevo uma carta? Há quanto tempo não sinto o som do aparo a riscar o papel, o cheiro da tinta, pedaços de silêncio a escolher palavras que depois não saem de secas, abanar a caneta para que escreva de novo, o toque dos dedos na trama do papel, apreciar a textura, o tom, o peso?

Cartas de amor, cartas de “nós por cá todos bem”, cartas de nascimentos e de mortes.

Há quanto tempo escrever, apressar a secagem da tinta abanando a folha, dobrá-la, enfiá-la no envelope, juntar uma flor seca, passar a ponta da língua pela tira de cola, escrever o teu nome por fora, colar o selo e deitá-la na ranhura do marco vermelho como quem deixa um beijo?

Depois contar os dias, as semanas, abrir em sobressalto a caixa do correio até que um dia a tua letra azul num envelope escrevendo o meu nome, lá dentro uma folha a que sinto o peso, a textura do papel e o cheiro da tinta misturado com o teu, um pingo castanho (chá?), uma flor seca, e palavras. Palavras de amor (estas quero-as de amor, nem de “nós por cá todos bem”, nem de nascimento ou de morte), de desejo e de saudade como as de outrora, que me faziam dançar abraçando o papel e nele o teu cheiro a relembrar ausências.

Agora o tempo que não corre devagar ao compasso do ir e vir de uma carta, agora o tictic do teclado sem o aparo a riscar o papel, o cheiro da casa e de mim e já não o de tinta, já não o de flores secas misturado com o meu. Agora o marco vermelho é um botão no ecrã que diz “send” e uma setinha que lá toca como quem deixa um beijo.

Contar não dias nem semanas, mas minutos e horas à espera que a caixinha que diz “inbox” mude de 2 para 3 a anunciar que talvez já lá esteja a tua resposta, sem flores secas e sem o teu cheiro, mas com as mesmas palavras a dizer que me amas.

abril 07, 2008

águas de abril

O vento faz as águas do rio navegarem em sentido contrário defronte dos teus olhos hoje tão líquidos.

Vês as manadas de carneirinhos subindo o Tejo em contra mão, indiferentes às gaivotas paradas no ar, felizes saltitando de onda em onda e a rirem-se de ti.

Vês a tua vida que anda para trás, tão igual às águas que sobem quando deviam descer, tão igual ao mar que desagua neste rio cinzento, como cinzenta te sentes.

De repente uma nuvem que se desfaz sobre o rio e sobre ti que o vento fustiga e torna tudo tão líquido à tua volta como líquidos os teus olhos.

Rompe o Sol fugaz entre as nuvens, o rio subitamente não cinzento mas verde e castanho, o ferry de Porto Brandão que passa vazio tocando a manada de carneiros, que assim trota Tejo acima com mais afinco, acicatada pelas gaivotas que piam como cães pastores, e tudo isto te faz sentir ainda mais perdida dentro de ti, impotente para nadar contra esta maré inversa que é a tua vida e este rio, afogada na água que tens dentro e que faz os teus olhos líquidos mas que deles não sai porque secou.

janeiro 18, 2008

contraluz


Às vezes sinto-te assim como se estivesses aqui, mas em contraluz.

Apenas como se te adivinhasse a silhueta, um perfil que se destaca dos raios de sol que te iluminam por trás, tão ao longe que não te posso tocar.

Sinto-te e não te vejo. Parece-me ouvir um ruído no corredor, como o roçar do tecido entre as pernas quando se caminha ao de leve sem fazer barulho com os pés descalços, nas minhas narinas o teu cheiro que se aproxima, volto-me para a porta a sorrir mas não estás lá. Espanto-me sempre de não te ver encostado ao umbral, a cabeça levemente tombada apoiada na madeira, um braço que abraça o tronco, o outro com a mão na face olhando para mim num doce convite.

Não estás ali, mas sei que me vês e por isso passo as mãos pelo cabelo, endireito as costas na cadeira, descontraio o rosto para ficar mais bonita. Gosto que me vejas mesmo quando não estás por perto e de tanto te pensar acabei por aceitar essa tua presença ausente.

Eu aqui, e tu como que do outro lado da porta, à distância de um trinco que se abre, de um braço, um abraço.

Vou abrindo janelas na esperança de te ver ao vivo caminhando em passo ligeiro pela calçada, a tua sombra que afaga as pedras, que sobe e desce muros e passeios numa dança ritmada que se chega a mim. Abro a caixa do correio para ver se uma carta tua, um postal, qualquer coisa que me prove que existes para lá dos meus sonhos.

Acabo sempre por te encontrar, às vezes em contraluz, às vezes duma forma mais real, um cheiro no elevador, uma frase solta no meu caminho, uns olhos da mesma cor que se cruzam com os meus na rua, um aperto de mãos em que o toque da pele me faz lembrar vagamente o teu e um arrepio por engano.

janeiro 02, 2008

e assim vamos indo

Vou comendo quilómetros de estrada enquanto cabeceias a meu lado, sem conversares comigo, sonolenta, embalada pelo ronronar do motor e pelo balanço do carro.

Não era assim há dez anos, não eras assim. Gostei de ti ao primeiro olhar, gostei da tua boca carnuda, do teu olhar penetrante, das formas redondas do teu corpo e, sobretudo, da vivacidade da tua conversa.

Vejo-te agora a meu lado, a cabeça que balança, um fino fio de baba que te escorre pelo queixo, o corpo já não roliço e rijo mas umas gordurinhas a mais, a aliança que te vinca o dedo das mãos outrora finas e delicadas.

Mas nem é isso e tu sabes. Eu também já com umas entradas, o peito mais mole, o ventre mais cheio, as pernas mais magras. Não é isso e tu sabes.

É o silêncio, é eu ir aqui a comer quilómetros de estrada e tu a cabeceares a meu lado, ausente, sem me ligares, sem te interessares por mim. É chegarmos a casa e tu ires para a cama sem me esperares, só um beijo fugidio a acompanhar um boa noite, estou mesmo cansada, e eu a chegar ao quarto e tu já com aquela respiração suave de quem dorme.

São os jantares de todos os dias, passas-me a água por favor e eu que boas estão as batatas, depois o sofá da sala, a televisão, eu a tentar falar do que estou a ler, dantes gostavas de trocar opiniões sobre livros, sobre espectáculos, sobre o que se passava no mundo, agora olhas para mim com um sorriso condescendente, vais dizendo pois e sim até que adormeces em frente da novela.

A estrada vai rolando por baixo do carro e eu a pensar em tudo isto, a perguntar-me para onde foi aquilo que já foste, aquilo que já fomos. Até o desejo que tinhas por mim se foi. Aceitas-me das raras vezes que te procuro por baixo dos lençóis, bem sei que não dizes que não mas nunca me procuras, nunca olhas para mim com aquele olhar que me fazia sentir o homem mais desejado do mundo.

Olho de novo para ti e penso na Adélia lá do escritório. Ela olha para mim com esse olhar, sabes? E conversa comigo sobre o que estou a ler, sobre música, sobre o que se passa no mundo. E tem ainda, com a tua idade, o brilho no olhar que tu perdeste e com tudo isso me faz sentir o homem mais desejado do mundo. É por isso que de vez em quando chego mais tarde a casa, que te vou mentindo para não te magoar quando invento reuniões fora de horas. E tu, finges que acreditas e deixas-te estar, na eterna indiferença que me levou de ti.

dezembro 04, 2007

loucos de lisboa

Venho para aqui todas as noites

Ele está lá todas as noites que por ali passo

com o meu sobretudo preto e o saco de plástico branco na mão-esquerda. Se calha ser Verão, não trago o sobretudo por causa do calor mas nunca me esqueço do saco.

sempre com um saco de plástico branco na mão, vestido de preto e de cabeleira branca,

Ponho-me junto a este semáforo no Saldanha ou um pouco mais abaixo na Av. Fontes Pereira de Melo,

umas vezes no Saldanha, outras um pouco mais abaixo

sempre ao pé de uma passadeira que não atravesso. Limito-me a ficar parado aqui onde quase todos dão por mim, a ver os carros que passam e a acenar às pessoas que vão lá dentro.

e diz adeus a quem passa, num doce balanço que acompanha o carro enquanto abre um sorriso desdentado por detrás dos óculos de lentes grossas.

Algumas, muitas, já me conhecem e respondem-me: abrem as janelas, deitam os braços de fora, por vezes as cabeças, e dizem-me adeus enquanto se riem. Outras, limitam o cumprimento a um discreto pi-pii!.

Se vou a guiar dou-lhe uma leve buzinadela, se vou ao lado abro a janela, rio-me para ele e aceno-lhe.

Eu, inclino-me para a frente, faço um sorriso que me faz subir os óculos de aros de massa preta que uso desde sempre, abano a mão direita num gesto de adeus e deixo o meu tronco acompanhar os carros que passam da esquerda para a direita.

Não sei porque faz isto, mas sinto que gosta que lhe respondam. Já o vi ao fim da tarde no Restelo

Não sei porque faço isto, mas gosto. Saio todos os dias da minha casa em Belém, subo ao Restelo, apanho o autocarro e venho para aqui dizer adeus e sorrir. Regresso a casa no último autocarro.

caminhando com o seu saco de plástico na mão. Nessas alturas não sorri, nem diz adeus a quem passa.

novembro 27, 2007

portas


Tenho este sonho que se repete em noites mal dormidas: uma porta que fecho e que fica sempre aberta. Empurro-a bem, ouço o clique da lingueta na fechadura, viro costas e aquele friozinho nas pernas como quem diz

Vês, está aberta de novo.

Volto para trás, constato a porta entreaberta, verifico o trinco, empurro de novo, clique sem qualquer dúvida nos meus ouvidos, afasto-me à socapa com pezinhos de lã a ver se a apanho distraída e outra vez a corrente de ar que me lambe os pés, parece-me ouvir um risinho trocista e lá está ela a abanar, pouco mais que encostada, como se esperasse alguém.

Passo a noite a fechar uma porta que teima em manter-se aberta, só assim uma nesgazinha a ver se não dou por ela, e nunca consigo.

Quando acordo, a porta está sempre fechada.

foto de JFD

novembro 21, 2007

e, quando ele perguntou...

... :

- Há mais alguma coisa que queiras fazer comigo que nunca tenhamos feito?

Ela respondeu docemente:

- Não, acho que já fizemos tudo.

Ele sentiu-se tranquilo. Tinha-a levado a passear e ao cinema, tinha-lhe comprado um vestido de chita, um anel com uma pedra azul e um ramo de flores, tinha-lhe mostrado a praia onde ia de camioneta com os padrinhos nos fins-de-semana de Verão. Ultimamente, não havia Domingo à tarde em que não a levasse a ver as lojas do Centro Comercial. Caminhavam de mão dada, comentavam as mudanças que a nova estação trouxera às montras, os preços dos artigos e, no final, sentavam-se para beber uma imperial acompanhada dum pratinho de tremoços.

Não reparou na sombra fugaz nos olhos dela.

Tanta coisa que não fizemos e nunca vamos fazer...

outubro 17, 2007

A fotografia é a preto e branco...

...mas tem o tom sépia do tempo.

Tu pequenino montado num cavalinho de pau, ao lado uma menina de pé apoia a mão no teu ombro como se te protegesse.

Por trás, touros, campinos, um maioral a cavalo, a lezíria que se estende em pinceladas toscas que se adivinham de cores esbatidas na tela ondulada.

Tu claro, louro, ela morena de cabelo encaracolado e traços vagamente negróides tal como a tua mãe e a mãe da tua mãe. Na mão seguras com um lencinho branco a vara que te fez campino naquele instante.

vês? puseram-me este lenço na mão porque a vara tinha picos e eu chorava

(Lembro-me das palmas tão macias, pele de seda quando os cabelos já brancos e imagino-lhes a suavidade de bebé.)

Os dois de preto, soquetes brancos, sapatinhos de verniz, olhos tristes, sorrisos ausentes, o fotógrafo

olh’ó passarinho

os avós

meninos vá lá um sorriso

e vocês nada, só aquela tristeza de perda recente. Faltam os pais na fotografia, mas nota-se o peso da sua ausência, ou talvez eu o sinta porque sempre mo transmitiste.

Falavas-me da tua avó

a bênção, minha avó
minha avó já fiz os deveres

seca, ríspida e austera, do teu avô sentado ao fundo do corredor a mirar a poeira que brilhava nos raios de luz, os dois amargurados pela perda dos filhos tão novos, da Ana

a minha Ana

gorda, luzidia, de avental na cozinha à volta das panelas a fazer os petiscos para os seus meninos

tome um pastel Antoninho, que a avozinha agora está lá para dentro e não vê

do gato amarelo que comia tripas de melão, das brincadeiras no jardim e na horta, da tua irmã

minha irmã

sempre a proteger-te as fragilidades como na fotografia

minha avó o Antoninho não fez por mal
vês meu irmão a avó perdoou-te.

Fecho os olhos, apago a fotografia e vejo-te sentado a empatar anzóis em S. Martinho do Porto, a moer o engodo de petinga e eu sentada a bambolear os pés na borda do cais todas as tardes de Agosto à espera que a bóia mexesse e

pai olha a bóia a ir ao fundo, um peixe

e tu

espera pitorrinha, (só tu me chamavas assim) espera que ele pique bem e depois deixo–te tirá-lo

e eu a enrolar o carreto toda orgulhosa a sentir os estremeções do peixe.

Abro os olhos e outra vez a fotografia à minha frente, tu pequenino montado num cavalinho de pau, um lencinho a proteger a mão, a tua irmã, os touros na lezíria atrás.

E mesmo que não haja sorrisos nesta fotografia, mesmo que se adivinhe a tristeza nos fatinhos pretos, nos sapatinhos de verniz, nos olhos distantes, é assim que te queria lembrar, aí ou no cais a empatar anzóis.

Queria apagar da memória o tubo na garganta, as agulhas nas veias, as máquinas com luzes e bip-bips, as visitas com batas e máscaras, os pulsos amarrados à cama para que não arrancasses de ti tudo o que te impedia de morrer em paz, e não consigo.

Um mês e meio naquele inferno até à noite em que o telefone tocou e o meu irmão:

T, o pai já teve 3 paragens cardíacas e 3 vezes o reanimámos. O que é que achas... se o coração parar outra vez?

e eu

tu é que és o médico, mas o pai também é meu. O que eu acho é que se o coração parar outra vez, deixa-o sossegado... por favor.

e ele

é o que eu acho, também.

Vai fazer 7 anos no fim deste mês e não consigo.

outubro 01, 2007

E...

Irkutzk, Sibéria, 2004

...se passares de novo à minha porta não sigas em frente.

Pára e vem ter comigo.


Verás

que a tua toalha continua pendurada ao lado do duche
e a tua escova de dentes lá onde a deixaste

que guardo numa caixinha as cartas que me escreveste
e noutra os segredos que me contaste

que o cheiro da casa é o mesmo e se mistura com o nosso
e que as janelas continuam sem cortinas deixando a cidade entrar


Verás

cada móvel, cada porta, cada livro guardando ainda o toque dos teus dedos
e no sofá o teu contorno enroscado no meu

na almofada da cama a forma da tua cabeça
e como o teu perfume permanece nos lençóis ainda que mil vezes lavados

os meus cabelos agora brancos, mas ainda aquele brilho no olhar
aquele cheiro no pescoço, o cheiro que tu amavas


Se passares de novo à minha porta, mesmo que seja tarde, não sigas em frente.

Pára e vem ter comigo.

Os anos passaram, mas ainda sei fazer aquela salada que tu gostavas.

.

setembro 24, 2007

por trás da janela

Hanoi, 2005

Está calor. Por isso tenho a janela aberta, a ventoinha ligada e não me aproximo muito do balcão onde pus as cestas e alguidares com os rolos de massa de arroz e de trigo, os cogumelos secos, os legumes, o arroz e o feijão.

Fico aqui sentada perto da balança e da garrafa de chá e espero que quem passe me chame para comprar alguma coisa que valha a pena o esforço de me levantar.

Olho para baixo a ver se não dão por mim, não quero saber de quem passa, nem se vendo muito ou se vendo pouco, se falo com alguém ou se fico calada, nem se me levam um saco de massa sem pagar.

O que eu queria era despejar os alguidares e os cestos na rua, partir o balcão, desligar a ventoinha, fechar a janela e ir sentar-me no jardim à beira do lago, a gozar o fresco e a ver os círculos concêntricos que as folhas deixam na água quando caem.

setembro 18, 2007

recado

halong bay, 2005

Diz-lhe por favor e com a voz mansa que é a tua que, quando aqui vier, estarei à sua espera.

Diz-lhe que venha com cuidado e devagarinho para não acordar os sonhos que são só nossos e não apagar as velas que deixei acesas. Que venha docemente, como docemente partiu, sem palavras nem gestos inúteis.

Diz-lhe que pus na cama os lençóis de linho e que perfumei as toalhas com alfazema, que a mesa está posta com o serviço da minha avó, os talheres de prata e os dois copos para o vinho.

Diz-lhe que a casa está limpa e arrumada, as janelas abertas e o ar que por elas entra fresco traz os mesmos cheiros de então.

Diz-lhe que guardo em mim todos os sabores do seu corpo, a suavidade das suas mãos, o sorriso e o canto, tal como nas gavetas guardo ainda a sua roupa e nas molduras o seu rosto.

Diz-lhe que li todos os livros que me ofereceu, que ouvi todas as músicas e que fiz tudo o que deveria ser feito.

Está tudo pronto. Quando vier, que traga os braços vazios para me abraçar e os lábios doces para me beijar. Desta vez, partirei também.

agosto 25, 2007

Aos poucos...

tejo / trancão

...foi retirando algumas palavras do seu vocabulário por inúteis que eram. Todas as conjugações dos verbos "amar" e "compartilhar" e alguns complementos directos e indirectos dos verbos "dar" e "receber" acabaram esquecidos nos fundos da memória e de tal forma, que se por acaso se cruzava com eles, escritos ou falados, ficava sem jeito, sem perceber o seu significado. Retirou também adjectivos como "querido", "amado", "adorado" e substantivos como "amor", "paixão" e "cumplicidade".

Despojou-se de todos os sentimentos mais profundos, com medo de ferir e de se ferir, guardando apenas aqueloutros mais leves que afloravam a pele somente de forma superficial, mas que davam à vida o colorido de que precisava: amizade, compaixão, solidariedade, polvilhados com um pouco de carinho e ternura.

Refugiou-se em si e nas suas coisas, livros, desenhos, fotografias, músicas, escritos. A vida corria rectilínea, partilhada mas não compartilhada, onde o afecto não se misturava com a paixão nem com a cumplicidade.

Um dia viu-se ao espelho e não se reconheceu, de tal forma a ausência das palavras perdidas tinha transformado por fora um ser que não se identificava com o que sentia dentro de si, vibrante de sensações, tremendo ao sabor de um cheiro, de um olhar cruzado na rua, de um toque de raspão. Percebeu como era estranha aquela forma de vida, sentidos embotados, aprisionados anos a fio no seu peito.

Com cuidado, procurou abrir-se para sensações há muito arrumadas e das quais prescindira. Encontrou pessoas que usavam com facilidade as palavras que tinha guardadas e que, com paixão, lhe pediram que as resgatasse. Durante algum tempo resistiu, continuando a utilizar aquelas a que se habituara: "gostar muito" em vez de "amar", "amizade" em vez de "amor", "partilhar" em vez de "compartilhar", até porque perdera o significado exacto das outras.

Numa tarde de ventos e chuva nas vidraças, acercou-se da estante, retirou o dicionário, limpou-lhe o pó, afagou-o com os dedos que tremiam, e procurou as palavras esquecidas. À medida que os seus olhos percorriam as páginas, a memória foi libertando todas as palavras que tinha lá bem no fundo.

Tentou primeiro dizê-las apenas para dentro, depois sussurrou-as e finalmente pronunciou-as em voz clara. Foi como se um raio de sol lhe entrasse no peito.

Gritou-as, cantou-as, chorou-as.

Desde então, não sabe passar um dia sem conjugar o verbo amar.

agosto 17, 2007

testamento


Conta-lhe dos sons e das cores da tua casa quando menino.

Conta-lhe do cheiro dos livros, do pó a dançar nos raios de sol que se livravam das persianas, do perfume a maçãs num cesto de vime na cozinha, das abelhas a zumbir nas videiras do quintal.

Conta-lhe do doce aroma das laranjeiras em maio, da terra molhada em novembro, da música do gelo a derreter do beirado do telhado quando o vento começava a trazer a primavera.

Conta-lhe do perfil das serras esbatido pela bruma, do ondular das searas, do canto dos pássaros.

Conta-lhe do musgo macio que apanhavas para o presépio, do crepitar da lareira, dos fritos com canela na noite de natal.

Conta-lhe das rãs a coaxar no charco, das ovelhas que passavam para o pasto, do borrego que tiveste ao colo e te mamou no dedo, dos campos que mudavam de cor com o correr das estações.

Conta-lhe do silêncio, das pedras do caminho, do vento a esvoaçar folhas no outono, dos dentes-de-leão que sopravas espalhando as sementes para longe.

Conta-lhe de tudo o que já esqueci e te deixei para que não morresse.

agosto 12, 2007

sombras


Eu ali na cozinha a cortar cebolas para o refogado e a pensar em ti.

A vizinha veio pedir-me uma chávena de farinha para fritar os carapaus e ficou-se à conversa encostada ao lava-louças. Ouço retalhos ...sim porque o meu marido…, … e se não fosse eu ir tão depressa…., …não acha?

Eu digo que sim, que acho, mas a verdade é que não acho nada, pois penso em ti.

Sinto os teus braços que me envolvem, as tuas mãos que me afagam, a tua respiração no meu pescoço e suspiro, ao que a vizinha responde: pois, também eu fiquei assim quando soube, mas olhe, é a vida.

Pois é a vida. Quero que ela se vá embora, quero cortar as cebolas em paz, quero sentir-te assim, encostado a mim.

Acho que ela não te vê, pois não comenta quando me viras para ti com os dedos na minha nuca e os polegares nas minhas orelhas e me dás um beijo.

Vamos? perguntas tu, já vamos, digo eu e a vizinha, já vamos onde?

Finalmente a outra vai-se com a farinha e ficamos sós. Eu e tu pensado por mim.

Corto as cebolas, os alhos, a salsa, mexo-me na cozinha, ponho o tacho ao lume e tu sempre agarrado a mim, copiando os passos e os gestos inventados por mim.

Vais-me sussurrando meiguices ao ouvido, puxas-me o cabelo para cima, lambes-me as lágrimas da cebola, juro que são da cebola, só da cebola e mais nada.

Vamos?, perguntas-me de novo. Vamos sim. Olho para o quadro onde deixaste escrita a lista de compras, azeite, arroz, massa, ração de gato e ração de cão, detergente, apago o lume do refogado já adiantado para o almoço de amanhã, apago a luz, saio da cozinha, atravesso a casa de paredes agora nuas, marcas de quadros, restos de fotografias, o móvel que era aqui e já não é, mas mesmo assim a minha roupa mais à vontade nas gavetas, a escova de dentes à larga no copo. Tu, sempre agarrado a mim, a copiares os meus passos, a copiares os meus gestos, a tua respiração no meu pescoço, as tuas palavras no meu ouvido.

Passo defronte do espelho do quarto e espanto-me por não te ver.