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agosto 20, 2009

banho de lua



Em conversas de luas e luares, aconteceu-me ontem recordar este banho de lua de Celly Campello que estava perdido lá nos confins da memória da minha infância.

Esta música estava no top bem no início dos anos 60 e fazia parte da reduzida discografia do meu irmão, uma ou duas dúzias de discos de vinil dos pequenos, com duas músicas cada um, de forma que ele os ouvia vezes sem conta no pick-up lá de casa.

Anos mais tarde, quando eu própria comecei a interessar-me por música e a coscuvilhar os pertences do mano, encontrei o "banho de lua / estúpido cupido" de capa já gasta e coberta com o pó que ganham as coisas onde não se mexe por muito tempo.

Curiosa foi a reacção da minha mãe que, quando eu coloquei a agulha sobre o disco e a Celly Campello começou a tomar o seu banho de lua na sala de estar, teve um ataque de nervos e mandou-me parar com aquilo imediatamente. Obedeci, sem perceber o que tinha a minha mãe contra os primórdios do rock brasileiro, que a fazia ficar tão irritada.

E a razão era simples. Tal como algumas grávidas desenvolvem súbitos desejos de cerejas em pleno inverno, ou não suportam o cheiro das margaridas, outras, caso da minha mãe, ganham repulsa a músicas. Não conheço mais casos, mas a minha mãe é uma pessoa original. Ao que contam, o mano, então com 10 ou 11 anos, tomava banho de lua com a Celly umas dezenas de vezes por dia enquanto a minha mãe docemente me gerava no seu ventre, até ao ponto de a pobre senhora, outros 10 ou 11 anos passados, continuar a não suportar estes banhos.

Enfim, em mim não produziu o mesmo efeito e, quando alguma imposição maternal ia contra as minhas vontades, punha o banho de lua bem alto e fugia.

abril 15, 2009

neologismos

Pois é. E se há gente que escreve com erros de caixão à cova (que ligeiros todos vamos dando, mais coisa, menos coisa), e a culpa nem será completamente de quem o faz, sendo que isso serão outras conversas, também há muito boa gente que fala mal. E este assunto é tão repetido na blogosfera que já enjoa ler ou escrever sobre ele, repetindo sempre os mesmos erros típicos do português (mal) falado ou malfadado, já nem sei.

Bom, mas hoje lembrei-me do meu colega de faculdade Vítor (teve um AVC gravíssimo há uns meses e continua em lenta recuperação no Alcoitão, triste coisa) que era (e é) um homem cheio de sentido de humor e piada pronta e propositada. Ora numa aula qualquer, um douto assistente às tantas sai-se com este fantástico neologismo: "pertúrbios". Lindo, não é? Pois falava o tal assistente dos "pertúrbios" causados nas culturas já não sei por qual maleita, quando o Vítor o interrompe e, com o seu sotaque bem brasileiro (é brasileiro o Vítor) questiona:

- Oh Sr. Engº... eu conheço a palavra "distúrbios" e a palavra "perturbações", agora "pertúrbios"?! Ou quererá o Sr. Engº referir-se a... "disturbações"?

A gargalhada foi uníssona e geral. O assistente que, aqui para nós, era um bocado bronco, ficou com cara de parvo. Acho que nunca percebeu a piada nem por que carga de água tinham assim gargalhado os seus alunos.

"Pertúrbios"... que delícia.

abril 02, 2009

three

E de repente lembrei-me disto, coisas de juventude:

When you had to go
I was really sad
Remembering the things
We did and had

Because we were three
You and I and we


Autor desconhecido.

março 02, 2009

teaching little fingers to play

Com muita pena minha, nunca aprendi a tocar piano mais do que o que seria possível num ano de tardes de sábado quando ainda andava na escola primária. Tinha aulas de piano e solfejo com mais uns quantos miúdos e o tempo livre de instrumento para cada um era escasso.

As aulas foram decorrendo até chegar o dia em que a professora me disse que eu tinha de praticar em casa, quando não, não era possível fazer grandes progressos. Os meus pais eram funcionários públicos o que, naquele tempo, significava viver com os tostões contados sem grandes hipóteses de extras, de forma que quando pedi um piano não tive sorte nenhuma... A professora ainda insistiu um pouco, primeiro comigo, depois com a minha mãe e, quando viu que dali não vinha piano nenhum deixou de me dar a mesma atenção. É curioso como só agora que penso nisso, me apercebo como a coisa foi deliberadamente feita para que eu, e os outros nas minhas condições, acabássemos por desistir. Lembro-me de me sentir mal nas aulas porque não avançava como os outros miúdos que tinham possibilidade de tocar em casa e de passar a pertencer ao grupo dos atrasados. Havia aulas em que já só fazíamos o solfejo e não havia tempo de piano para nós.

Tive muita, muita pena mas nunca devo ter deixado transparecer isso, pois quando aqui há tempos conversava com a minha mãe sobre as coisas boas e más que recordava da minha infância e referi a história do piano, ela ficou admiradíssima e ainda me disse que, se ela e o meu pai tivessem percebido, teriam feito o esforço de comprar um. Devia ter feito um berreiro... Não devia nada, coitados dos meus pais.

Bom, uns valentes anos mais tarde, quando já andava na faculdade e namorava o pai do meu filho, a irmã dele que terminara o curso há pouco e tinha começado a trabalhar, resolveu alugar um piano vertical a meias com um amigo e retomar as aulas que também tinha largado em miúda. Claro está que, nessa altura, nós os dois também quisemos usufruir do dito. O piano foi colocado no quarto de costura e engomados e, para desespero dos meus sogros, passávamos os quatro serões intermináveis à volta do piano, primeiro matraqueando musiquinhas infantis e, mais tarde, os dois irmãos, ela com aulas e ele com talento, arriscando passagens de ragtime que tiravam de ouvido dos discos do Scott Joplin.

Por falta de aulas, de tempo ou de talento, nem eu nem o amigo que pagava metade do aluguer passámos da edição da altura, deste livrinho:


Mas um dia destes ainda arranjo um piano e volto a tentar que, nestas coisas, não deve haver duas sem três.

dezembro 22, 2008

natal

Quando eu era pequena, passávamos o Natal em Vila Nova de Ourém que, como outras vilas foi promovida a cidade e passou a chamar-se só Ourém, perdendo o pouco interesse que tinha e passando a ter nenhum, salvo um belíssimo castelo lá no alto do morro em Ourém, então "velha" e agora terra da qual desconheço a adjectivação, mas onde perdura o castelo e as ruelas e casario que o rodeiam.

Em Vila Nova de Ourém viviam:

- quando eu era mesmo pequena, os meus avós, os meus tios com a minha prima, a minha tia solteira e a minha bisavó;

- depois, os meus avós, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- nos últimos anos da minha adolescência, o meu avô, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- O Natal deixou de se passar em Vila Nova de Ourém há uns anos largos quando já só havia o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira.

Desses Natais da minha infância e juventude recordo noites mal dormidas num gelo de lençois húmidos e cobertores de papa pesadíssimos, a casa dos meus tios com um corredor que não acabava, quartos de um lado e de outro virados a norte e a nascente e para poente e sul só paredes sem janelas e tudo aquilo sem mais aquecimento que uma lareira na sala de estar que, quando o vento não estava de feição, ou seja sempre, atirava com rolos de fumo para dentro de casa, pondo todo o clã a tossir e a entrever-se desfocado com os olhos a picar.

O meu tio tinha um armazém de atoalhados e afins de maneira que a minha tia depositava a tarefa de escolher os presentes de Natal num dos empregados do armazém (cheirava a fazenda, pano turco e naftalina, o armazém) e presentava toda a família com embrulhos enormes de papel pardo atados com fitas vermelhas de dentro dos quais saiam panos de cozinha, toalhas turcas, renda a metro, jogos de cama de casal (dois lençois e duas fronhas) e outras utilidades domésticas que eu e os meus primos tínhamos de agradecer fingindo que apreciávamos muito mais ver aumentado o nosso enxoval aos oito anos de idade do que uma porcaria de um action man ou de uma caixa de lego.

O meu avô, que no fim da vida devia ter alzheimer e falava com a minha mãe como se ela fosse o Sr. Abrantes, tardes inteiras a conversar com a minha mãe, Sr. Abrantes, e como vai a família? e a minha mãe, pois vai-se andando menos mal, Sr. Lopes e logo depois o meu avô levantava-se e ia destapar o tacho do bacalhau que estava ao lume à procura da bengala enquanto me perguntava pela enésima vez se eu já tinha acabado o 7º ano e eu já a meio da faculdade. Depois chamava-me de lado, levava-me ao dito corredor sem fim e oh filha, olha para este hotel... olha que tens de dizer à tua mãe que eu não tenho dinheiro para pagar isto tudo...

Eram assim esses Natais.


maio 12, 2008

12 de maio

A minha avó, mãe da minha mãe, faria hoje 110 anos se fosse viva.

Chamava-se Virgínia Laura, a minha avó. Acho que era um nome bonito. Quando eu era pequena ia passar o mês de Setembro a casa da minha avó numa vila sem interesse entre Leiria e Tomar. A casa era numa rua tranquila de moradias em banda com dois pisos e um pequeno quintalinho atrás.

No quintal havia galinhas, coelhos, couves e uma ameixeira.

Nunca ouvi a minha avó gritar, ralhar ou queixar-se do que quer que fosse, por isso, quando de repente adoeceu a meio das férias de verão aos setenta e poucos anos e morreu passados quinze dias deixou-nos a todos mudos de espanto e a mim, que tinha uns 12 ou 13 anos, com um peso de remorso que ainda hoje carrego comigo por não ter querido acompanhar os meus pais a meio de Agosto quando a foram ver ao hospital e eu preferi ficar na praia. Morreu sem avisar passados poucos dias.

O meu avô, que era o doente oficial daquela casa e sempre foi apaparicado por mulher e filhas, morreu a dormir passados uns quinze anos, quando já andava a procurar bengalas na panela da sopa e a conversar tardes inteiras com a minha mãe convencido de que ela era o Sr. Andrade. Numa dessas tardes, quando uma das minhas tias o tratou por pai, respondeu: Pai? a senhora desculpe, mas se diz que é minha filha, eu não a conheço como tal. Pelo menos como filha da minha mulher. Só se for de alguma criada.

Pois. A minha avó nunca se queixou de nada, mas foi nessa altura que percebemos por que motivo volta não volta ela despedia criadas (coitadas) sem razão aparente. O meu avô chamava-lhe pombinha branca. Lá tinha as suas razões.

Desses fins de verão em casa da minha avó ficaram-me para sempre:

- O meu avô a comer bacalhau com batatas a nadar em azeite com um grande avental para não pingar a roupa.

- a minha tia solteira e já nessa altura meio maluca, com quem eu dormia e que punha bigodis no cabelo e creme nas mãos com umas meias por cima, a dizer-me: ouviste? passos lá em cima... e eu borrada de medo, pois lá em cima não era suposto estar alguém à noite.

- uma galinha a saltar o muro do quintal a esguichar sangue do pescoço depois de lhe cortarem a cabeça.

- o cheiro das couves com farinha que a minha tia picava para as galinhas.

- a minha avó a rezar o terço das sete em sintonia com a telefonia.

- umas imagens da igreja que andavam de casa em casa, ficando alguns dias em cada uma, e que tinham de estar sempre alumiadas com uma lamparina de azeite.

- o tchctchctchc da máquina de costura no andar de cima quando a costureira lá ia voltar colarinhos e pregar rendas nos lençois enquanto conversava coma a minha tia que queria saber o que se passava nas outras casas onde ela trabalhava.

- uma velha muito velha que cheirava a naftalina e ia lá a casa lanchar às quintas-feiras, viúva de um homem rico, mas tão forreta que já só tinha a dentadura de cima, sendo explicação lá em casa que os ratos lhe tinham roído a de baixo.

- a minha avó a descascar maçãs pequeninas e perfumadas para mim e para os meus primos, todos sentados nos degrauzinhos da entrada a apanhar os raios de sol que passavam pelos postigos da porta.

maio 05, 2008

encontrei uma...

... a morrer num cais da Ericeira, lascas de tinta desmaiada a soltarem-se do casco. Já tinha falado delas, mas nunca mais as tinha visto.


Não sei se alguma vez as tornarei a ver como dantes, o amarelo vivo e brilhante das pinturas anuais, a escorrerem algas castanhas cheias de água pela borda fora, os mergulhadores a regressarem cansados de mais um dia ceifando o fundo do mar.

Esta tão pequena, as de quando eu era menina a entrarem a barra da baía tão grandes... Ou foi o meu olhar que mudou?