
Não gosto do conceito de tourada. Tenho pena dos bichos, racionalmente acho o espectáculo bárbaro e essas coisas.
Mas lá no fundo deve haver um gene qualquer aqui bem enraízado que me puxa para a frente da TV quando há uma transmissão de tourada e que me faz vibrar com a beleza do espectáculo dos cavalos a fintar os touros, com a coragem dos forcados nas pegas, com aquele medo básico da investida do animal. Ao toureio a pé já não acho graça nenhuma.
Isto deve ser mesmo uma coisa que nos está no sangue. Quando era estudante e ia às garraiadas de agronomia no Campo Pequeno, havia sempre uma pega que era feita por raparigas (excepto a primeira ajuda que era um rapaz, em geral bem coladinho à menina que ia à frente). Uma dessas malucas era a minha colega Carminho, magrita, de ar frágil e pele de maçã. Quando uma vez lhe perguntei o que a fazia pôr-se assim à frente de uma vaca brava, ela respondeu-me: "olha T, o medo é tanto, mas tanto, que me dá um
frisson quase orgásmico." Ok. Há gostos para tudo.
Assisto a estas transmissões e delicio-me sempre com a pateta e marialva gíria que faz parte da coisa, ou seja da
festa.
- Um verdadeiro
aficcionado diz
toiros e não touros.
- Aos pauzinhos com fitinhas às cores que os cavaleiros espetam no cachaço dos touros chama-se
ferros. Há os
curtos e os
compridos.
- Uma
reunião, não é uma série de pessoas à volta de uma mesa a discutir um assunto, mas sim o momento em que o cavalo e o touro de encontram para o cavaleiro espetar o ferro.
- Um forcado
fechado na córnea não tem qualquer problema de visão, apenas ficou bem encaixado nos cornos do bicho.
- Receber a
alternativa, não significa que nos anos o cavaleiro recebeu umas calças de bombazine beije em vez dos jeans que tinha pedido, mas sim que adquiriu o estatuto de profissional.
E há mais, mas agora não me lembro.
E claro, forcado que é macho mesmo, apresenta-se até ao fim do espectáculo com a cara cheia de sangue do touro, sem pensar que lhe podia passar com a manga da camisa e sempre ficava com um ar mais composto.