junho 29, 2007

snails, beer and a view


Eu dantes não gostava de caracóis. Lembrava-me de ser miúda e de brincar com eles "caracol, caracol põe os pauzinhos ao sol" e a recordação do bicho viscoso deixando o seu rasto de baba impediu-me durante anos de os provar.

Um dia experimentei. Um travo ligeiramente amargo, um gosto de terra molhada. Não fiquei fã.

Depois, num regresso do algarve num daqueles dias de calor imenso, ainda não havia auto-estrada, parámos em Ourique e o cheiro a orégãos dos caracóis da mesa ao lado era irresistível. Os amigos com quem ia pediram os caracóis, uma cerveja fresquinha, e o ar deliciado que faziam levou-me a tentar de novo. Eh pá, aquilo era mesmo bom. A cerveja, o ritual de tirar o bicho da casca e os orégãos, céus, como eu gosto do cheiro dos orégãos (há coisas que valem pelo cheiro, não é?).

Agora, quando vem o calor, gosto de comer uns caracóis com uma cervejita. Mas é um acto social. Caracóis sózinha, não lembra. Hoje quando cheguei a casa, imensa gente no café em baixo nos caracóis. Ainda hesitei, mas desisti.

Este ano não tem estado muito calor e talvez por isso ainda só os comi uma vez. Foi uma delícia: fim de tarde quente, uma caixa dos ditos comprados no café, umas cervejinhas acabadas de sair do frio, a minha varanda, a minha vista, os melhores amigos. A ver se convido a malta para vir cá outra vez. Está a vir calor.

junho 28, 2007

bestiário - animais bípedes

Há pouco no banco, uma senhora ao balcão, um casal indeciso entre o balcão e os gabinetes.

Pergunto ao casal: os senhores estão para ali ou para ali?. Eles confirmam a incerteza, em jeito de irem para onde vagasse primeiro. Ok.

Sento-me no sofá que sempre é melhor que estar em pé à espera. A senhora que estava ao balcão sai e o casal dirige-se para lá. Chega mais um cliente, por acaso porteiro lá do sítio onde eu trabalho e senta-se ao meu lado. A senhora está para o balcão?, pergunta-me. Lá lhe explico que sim, mas que aquilo com o casal está com ar de demorar, por isso sentei-me à espera. Ficamos ali os dois à conversa.

Entra uma senhora com ar decidido, finge que não nos vê e põe-se atrás do casal. O porteiro para mim: aquela ainda nos quer passar à frente. E eu: não..., ela viu-nos. mas de qualquer forma vou lá dizer-lhe.

Levanto-me , chego-me à dita cuja: boa tarde, a senhora desculpe, mas eu e aquele senhor, estamos na bicha, só que estávamos ali sentados.

É aqui que começa a cena surrealista. Resposta:

- Eu cá estou na bicha. A mim ninguém me passa à frente. Eu cá não vi ninguém.
- Desculpe? A senhora passou por nós, como é que não nos viu? E eu estou-lhe a dizer que já aqui estávamos, como a funcionária ali pode confirmar.
- Pois, querem estar de rabo sentado... Aqueles sofás são para os gabinetes. Eu cá estou na bicha e ninguém me passa à frente.
- Eu não estou a acreditar no que estou a ouvir... a senhora é que está a querer passar à nossa frente.
- Daqui não saio.
- Pronto. Se quer ser mal educada e passar à frente... é isso que quer?
- É isso mesmo. A mim ninguém me passa a frente.

O porteiro entretanto tinha chegado ao pé e começámos os dois naquela conversa de pois, com gente assim, não vale a pena. ele há pessoas muito mal educadas, sem princípios. isto, cada um tem a educação e o civismo que adquiriu no berço, coitada, às tantas não tem culpa. A mulher impávida, faz que não ouve, não reage. Eu, já só para ver até onde é que aquilo ia, experimento a capacidade de encaixe da animália e viro-me para o porteiro: já viu? e anda vestida e calçada como se fosse uma pessoa, quando devia era estar no jardim zoológico. Sem reacção. Besta dura, de carga, mesmo.

Toco-lhe na espádua: a senhora é feliz? muito, diz ela. E tem pessoas que gostam de si e tudo? Ela abre e fecha os dedos naquele gesto de chusmas deles. Incrível, não posso acreditar, digo eu.

Entretanto, a bicha engrossara e já havia pessoas a dizer que era costume ela fazer aquilo e blábláblá. O casal saíu, eu ainda tentei aproximar-me do balcão, mas levei logo valente encontrão.

A funcionária olha para mim em jeito de súplica. Ok, atenda lá a senhora. Se ela gosta de passar à frente paciência.

No fim de a mulher ir embora, veio o gerente do balcão apertar-me a mão e pedir desculpa, sabe, nós não podemos fazer nada, desculpe lá e tal.

Não me enervei com a cena, aliás ri-me o tempo todo tal o caricato da situação. Já me tinha cruzado com alguns animais, mas acho que este bateu todos os records da capacidade de encaixe, e da força das suas convicções.

junho 25, 2007

visitante 2.500

Se tivesse pensado nisto mais cedo, tinha arranjado um prémio para o visitante 2.500.
Se o sitemeter não me engana, acho que foste tu Gonçalinho. Que tal um solo (meu) do somebody no próximo ensaio? Aguentas?

Entretanto, vou pensando num prémio surpresa para o 5.000. Tenho montes de tempo. Isto vai devagarinho...

Margot

Como se não me bastassem já um cão, um gato e alguns gorgulhos que descobri habitando um pacote de massa na despensa, o meu filho resolveu trazer hoje a margot ( dois meses passados e a bicha tem o dobro do tamanho) para dormir cá em casa.

Se os outros dois largam pelo, (os gorgulhos já no lixo e mais o pacote de massa, coitaditos) esta larga mijo. Já sabe que os cócós se fazem na rua, mas quanto aos xixis continua, como disse o meu filho, bastante incontinente. Com a agravante que faz sempre que se assusta. Então, poça de xixi quando viu o gato a bufar de pelo e rabo espetado todo ele com o dobro do tamanho, pocinhas de xixi desde a sala até ao quarto quando levou uma sapatada, poça de xixi no patamar derivado ao receio de entrar no elevador, poça de xixi quando o cão lhe rosnou.

Também faz quando algo a sensibiliza, no bom sentido claro. Então, poça de xixi se lhe faço uma festa, poça de xixi se entro no quarto do J, poça de xixi se lhe digo que é linda.

Nunca dei tanto uso à esfregona em tão pouco tempo.



junho 23, 2007

só neste país

Esta expressão "só neste país" em geral irrita-me.

Irrita-me porque é normalmente usada para denegrir a imagem da pátria, como se quem a usa estivesse isento de culpas do estado da nação. O país é o que nós fazemos dele, certo? E se as coisas estão como estão, mais vale fazer algo para tentar mudar do que viver na eterna lamúria do "só neste país".

Isto é o que eu penso, nos dias normais.

Mas hoje apetece-me juntar à legião dos utilizadores da dita expressão.

É que pasmo, pasmo, pasmo.

Ontem foi o exame nacional de Física-Química do ensino secundário. Fiquei mais atenta a este, por razões puramente egoístas, já que foi o único que o meu filho fez este ano.

Então não é que na prova, que é feita em duas versões (deve ser para evitar copianços), havia, em ambas as versões (!!!!), um ligeiro erro de formulação numa das questões: "nos items (...) a figura apresenta uma incorrecção que inviabiliza a concretização de uma resposta correcta" (sic Ministério da Educação). Adoro o eufemismo...

Desculpem mas, isto é normal? Foi preciso os miúdos fazerem a prova para se descobrir que havia uma pergunta que não tinha resposta possível? Então ninguém resolveu o teste antes do dia do exame? Não houve um grupo de professores da área a idealizarem a prova e outro grupinho a resolvê-la? E nesse grupinho, ninguém deu pela "incorrecção que inviabiliza a concretização de...." o raio que os parta? Ou deram por isso, e pensaram que não sabiam resolver o problema e tiveram vergonha de dizer aos outros? Seja qual for a razão, é má....

O ME resolve a coisa de uma maneira simples e que permite que "nenhum aluno seja prejudicado ou beneficiado" (sic outra vez), multiplicando as classificações obtidas por todos os examinandos por um factor de majoração.

Ok, parece-me bem. Então e o tempo que uns perderam e outros não, a tentar resolver um problema irresolúvel? E as questões a que não responderam por terem perdido tempo com o errozinho? E o stress com que podem ter ficado, ou não? Peanuts, não é?

Por isso é que hoje também digo: realmente, só neste país...

junho 21, 2007

acompanhante de turistas por um dia



Há coisas que eu acho que só me acontecem a mim.

No ano passado fiz uma viagem de 3 semanas à Coreia do Sul e ao Japão.

Viajo habitualmente com a mesma operadora turística, francesa, que faz viagens "em liberdade". São grupos que não ultrapassam em geral as 10, 12 pessoas, acompanhadas por um funcionário da operadora que se ocupa de marcar hoteis, comboios, carrinhas ou jipes, o que for. Os itinerários estão mais ou menos definidos à partida, mas podem ser alterados se o grupo assim o entender. Nos locais de paragem cada um faz o que lhe apetece. Gosto desta forma de viajar, pois escapo à parte chata da logística e ao mesmo tempo tenho um razoável grau de liberdade.

Como já fiz várias viagens destas, acabei por fazer amizade com um acompanhante que conheci numa delas e já parti com ele várias vezes. Bom, desta última, fui para Paris de véspera, como habitualmente, pernoitei em casa do meu amigo e no dia seguinte lá partimos de mala aviada para Roissy, onde nos iríamos encontrar com o resto do grupo.

Chegados ao ponto de encontro ele recolhe a documentação, apresenta-se ao grupo e lá vamos para a bicha do check in do voo da noite para Séul. Quando chega a nossa vez, começo a perceber que se passa qualquer coisa de anormal. Muita conversa, Arno, o meu amigo, a ficar cada vez mais enervado, eu a fazer conhecimento com os outros e, às tantas, ele chama-me de lado e diz-me:

- Ouve, trabalho nisto há 15 anos e é a primeira vez que isto me acontece. O meu voo era hoje de manhã e este avião está cheio! Ninguém me avisou! Não vou poder partir com vocês. Quanto dinheiro tens?
- 800 euros, digo eu.
- Ok, eu tenho mil da agência mais 500 meus. O resto tenho em traveller cheques, não os podes levantar. Tens que te amanhar com os meus 1500 e os teus 800 e levar esta gente até ao hotel em Séul. Estão previstas 2 noites. Se for preciso ficas 3. Tens de pagar o hotel à chegada. Eu lá hei-de ir ter. Contactamos por e-mail.

Rabiscou rapidamente num papel a morada do hotel, o nº do autocarro que devíamos apanhar no aeroporto, o nome da paragem, um esquema com o percurso desde a paragem até ao hotel.

Esta conversa durou 5 minutos, eu de boca aberta o tempo todo, a olhar para ele sem acreditar no que estava a ouvir. Estávamos em cima da hora.

Teresa, disse ele, tens de fazer isto. Não conheço nenhum dos outros. Se não estivesses comigo, nem sei como me havia de desembrulhar desta alhada.

Ok, disse eu. Guardei o dinheiro, a papelada e segui-o enquanto ele ia explicar o que se passava aos outros.

- Meus amigos, aconteceu isto, bla bla bla. Está aqui a Teresa, é portuguesa mas fala bem francês, é minha amiga, já viajou comigo várias vezes, tenho inteira confiança nela. É ela que vos vai levar até Séul, tratar do hotel, refeições, etc. Eu vou tentar chegar amanhã ou o mais tardar depois. Vão-se embora rápido. O embarque já começou.

E foi-se embora.

Eu, fiz o meu maior sorriso e o ar mais descontraído do mundo, como se tivesse feito aquilo toda a vida, enfiei as mãos nos bolsos para evitar que tremessem e disse: "Bom, então embora para Séul? O Arno vai conseguir chegar, não se preocupem, vai tudo correr bem."

E lá segui, com 11 franceses atrás de mim, como se soubesse o caminho.

Correu tudo bem. Encontrei o autocarro, saí no sítio certo, o recepcionista do hotel que mal falava inglês queria que eu pagasse 10 vezes o preço dos quartos (insistia em enganar-se num zero). Enquanto os outros se instalavam, procurei um sítio simpático para levar o grupo a jantar, outro para o pequeno almoço da manhã seguinte e um café internet para ver se havia mensagens de Arno. Havia. Tinha conseguido lugar num voo no dia seguinte. Respirei de alívio.

Ofereci-me o direito de não partilhar o quarto naquela primeira noite e no outro dia propus uma visita matinal ao palácio imperial, almoço por conta de cada um bem como a tarde, e encontro no hotel às 7 para jantar.

Depois do almoço regresso ao hotel. Arno tinha chegado e dormitava no meu quarto. Atirei com o saco para o chão. (Nos hoteis tradiconais, só há um ou dois colchões finos no chão)

- Puxa, ainda bem que chegaste.

Contei-lhe o meu desempenho como acompanhante.

Levei um raspanete, porque tinha gasto muito dinheiro no pequeno almoço.

-És maluca tu! Então foste dizer aos outros para comerem o que quisessem? Isso nunca se faz. Pedem logo o que há de mais caro. Gastaste num dia o que estava previsto para 3. Agora vamos ter de comprar iogurtes, pão, doce e fruta para comer nos quartos. Estou feito contigo, eu.

Agarrei numa almofada e atirei-lha para cima.


oops! 2


desde que publiquei isto, que não paro de receber visitas de gente que me encontra através do google, pesquisando "papagaio setúbal senegal".

depois descobri que afinal o que se passava era, na realidade isto.

pelos comentários que tive e pelas conversas com amigos, parece que estou longe de ser a única patareca que não percebeu à primeira o esquema publicitário.

mas ora vejam, recuperei a página do DN. Estão a ver a bolinha vermelha? É lá, e só lá, que diz PUB. Caramba, cai-se, não é?


junho 19, 2007

pata pata

Sábado o meu coro ia actuar num jardim da capital.

À última hora, que este fim de primavera não está para brincadeiras, o evento foi cancelado pela digníssima organização, não fossem artistas e espectadores ficar ensopados.

Como já lá estávamos todos, trajados a rigor e tudo, e a pedido de várias famílias (em particular as dos coralistas), acabámos por fazer o gosto ao dedo e cantámos à mesma (meio repertório), sem arquinhos nem balões, mas com alguns curiosos que foram parando à chuva e um número razoável de pombos a assistir.

A animação era tanta, que acabei por trazer o coro inteiro para casa, maestro incluído pois então, para continuarmos o convívio num sítio mais sequinho.

Vasculhados o frigorífico e a despensa conseguimos reunir uns queijinhos, uns patés, umas tostas, mais o pão e o vinho que se foi comprar, as pizas que se mandaram vir, uma enorme taça de caipirinha, uns docinhos e biscoitos e a coisa compôs-se.

É bom de ver que, quando se reúne um grupo de vinte e tal pessoas ligadas à música e ainda por cima bem comidas e bebidas, o clima vira festa. Mesa para um canto, tapete fora, umas luzinhas à maneira e não tardou estava tudo a dançar na maior festança do bairro nos últimos meses.

A minha amiga Luísa, que é uma pequena prevista e muito pouco confiante (e bem) nas colecções de cd's dos seus pares, apareceu munida de uma malinha cheia de música dos anos sessenta. Só faltaram as mini-saias, porque de resto estava lá tudo.

Mas na volta, o grande sucesso da noite foi mesmo Miriam Makeba com Pata Pata, que afinal até era cá de casa.

Oh p'ra ela aqui, em 1968, actuando num clube de S. Paulo que, ao que sei, estava na berra naquela altura, o Blow-up. Esta mulher é uma força da natureza!



Every friday and saturday night
It's pata pata time
The music keeps going all night long
Till the morning sun begins to shine

Oh, yeah.

E quem quem quiser mais, pode ir aqui.

junho 18, 2007

Feelings

I don't feel like working, no no no...

I just feel like dancing, laughing, singing and swiming, yeah yeah yeah...

What a shity day...

junho 15, 2007

oops!

Hoje telefona-me um amigo:

- És mesmo tosca tu. Não se pode ter confiança em ti.
- Então, diz lá. Que foi que fiz de errado desta vez?
- Aquela história que puseste no teu blog, do papagaio que voou até ao Senegal, aquilo é publicidade à água das pedras!

Realmente, não foi nada em que não tivesse pensado quando escrevi o post, mas já não tinha o jornal comigo para confirmar.

E, pateta romântica como sou, não resisto a uma boa história de amor.
Acredito em tudo.
Mas também, não faz mal. É uma boa história. Parabéns a quem a inventou!

tesourinhos

de vez em quando cai-nos no écran um tesourinho. olha só que coisa mais linda, mais cheia de graça....

junho 14, 2007

importa-se de repetir?

Quando o meu filho andava na 3ª classe, na classificação do 2º período, às tantas rezava assim:

"O J devia de estar mais atento nas aulas"

Olhei para aquilo sem acreditar no que os meus olhos viam.

"Devia de"?. "Devia de" mesmo mesmo "de"?

A minha primeira reacção foi agarrar naquilo, mostrar ao director do colégio e dizer-lhe que, na minha opinião, a professora é que devia de aprender a falar e a escrever português.

Depois pensei melhor e desisti. O miúdo tinha uma boa relação com a professora, à parte os "devias de", a coisa até nem estava a correr mal e ainda faltava um período inteiro até ao fim do ano. Quem ia pagá-las, se eu dissesse alguma coisa, era o puto.

Hoje penso que se calhar fiz mal. A avaliar pela quantidade de gente que diz há-des, fizestes, não me acredito e cheira mal que estresanda, se as mães refilassem mais nas escolas às tantas a coisa melhorava e eu tinha menos dores de ouvidos, prontos.

sardinhas

Segundas sardinhas da época.

Dizem que agora é que começam a ficar boas, mas as primeiras, comidas há cerca de um mês souberam-me melhor.

É que nisto das sardinhas, se formos a ver todos os inconvenientes que as ditas trazem (pois o cheiro entranhado na roupa e nas mãos, mesmo que se seja um perito a comer peixe de garfo e faca, pois a sangria ou o vinho* que têm de acompanhar e que nos deixam com uma lazeira do pior a seguir), se formos a ver, dizia, conta muito a companhia. E naquelas de há um mês, convenhamos que a companhia foi deveras superior.

Mas, como comentei com a malta na altura, digam lá o que disserem, o melhor das sardinhas, o melhor mesmo, são os pimentos.

*gostava de saber quem foi a mente genial que pariu aquela ideia peregrina de publicitar a coca-cola junto com sardinhas. não lembra...

junho 11, 2007

o papagaio e os flamingos










Este fim-de-semana li esta história fantástica no DN.

Estavam uns ornitólogos holandeses ou dinamarqueses (não me recordo bem) todos contentes a estudar uma colónia de flamingos acabadinhos de chegar em migração ao Santuário Nacional de Aves de Djoudi, algures no Senegal, quando de repente, do meio dos pios da turba, começam a ouvir alguém que não parava de dizer "amor, amor, amor".

Intrigadíssimos com o fenómeno (até à data não se conhecem flamingos palradores), acabaram por descobrir um papagaio que, aparentemente, vivia com a colónia. Caso nunca visto, resolveram investigar a coisa, descobriram que "amor" era uma palavra portuguesa e, através da rota dos flamingos, perceberam que os bichos tinham parado no estuário do Sado.

Bom, para resumir a história, o papagaio pertencia a uma septuagenária de Setúbal que tinha comunicado o seu desaparecimento à malta que estuda a passarada lá para aquelas bandas.

Confrontada com o facto de o seu bicho ter aparecido no Senegal, a senhora sai-se com esta: "O Louro não andava o mesmo desde que o levei a ver os flamingos. Sempre foi sossegado, fazia pouco barulho, nem incomodava os vizinhos... mas depois desse dia, só dizia "amor, amor, amor". Acho que se apaixonou por uma flaminga..."

Paixão ou não, acho esta história uma delícia. Uma delícia que uma senhora leve o seu papagaio "a ver os flamingos". Uma delícia que ele diga "amor, amor". Se fosse um papagaio de taberna, que tivesse aprendido a dizer "puta que te pariu", a história perdia completamente o seu lado romântico. Uma delícia que a senhore ache que o papagaio se tenha apaixonado por uma flaminga. Com jeito, ainda conseguem fazer uns flapagaios.

Acresce que o Louro, fez aí uns 200 km por dia (2791 no total) para acompanhar os flamingos, o que parece imenso para um papagaio. Segundo a dona, tamanha energia deve-se à água das pedras que ela lhe dava, precisamente para o arrebitar.

Vou passar a aumentar o meu consumo de água das pedras, está visto.

junho 08, 2007

dedicatórias

Arrumações, estantes dum lado para o outro, limpar e voltar a alinhar os livros nas prateleiras, folheio "Tieta do Agreste" de Jorge Amado e dou com esta dedicatória:

No encerramento da fase propedêutica

Querida Teresa:

Se um prosaico quilo de "bife" custa, neste ano da graça de 1979, 280$00, o preço deste livro - tão ou mais necessário do que o bife para pessoas como tu - pode considerar-se baratíssimo.

E mesmo que o não fosse; e mesmo que, para oferecer-to neste dia em que nos dás mais uma grande alegria, eu tivesse de prescindir de bifes por largo tempo, eu oferecer-to-ia do mesmo modo.

Ficará na tua estante à espera de teus filhos que por ele um dia saberão do orgulho de um Pai, grato por ser o teu.

Sinto um nó na garganta e duas lágrimas escorrem-me pela face, deixando duas linhas limpas de pó. Bolas, pai, sinto-me zangada contigo. Porque partiste tão cedo? Sabes que me fazes falta? Fazes-me falta quando eras assim, antes de teres desistido de viver e de não teres lutado contra a tristeza que te fechou em casa e dentro de ti próprio, deixando caminho aberto para os AVC's, a arteroesclerose e as outras porcarias que ficaram nos relatórios médicos.

Ainda não consegui que o J se interessasse por Jorge Amado, mas vou continuar a tentar.

Como nós (há genes que são mesmo bons), o rapaz é um leitor, só que ainda não chegou o dia dele gostar deste escritor que eu amo e tu amavas. A seu tempo, como tudo na vida, eu sei que ele também o vai amar.

junho 07, 2007

Roubar com imaginação

A minha mãe em casa sózinha com a empregada.

Tocam à porta. Apresenta-se um rapaz, bom aspecto, exibe rapidamente um cartão e diz:

- Minha senhora, boa tarde. Sou funcionário da EDP e andamos aqui no prédio a verificar os contadores. O seu consumo de electricidade anda muito alto (atente-se nesta parte, isto toca qualquer um, certo?) e os técnicos da companhia pensam que deve haver um problema no contador.

- Mas os senhores estiveram a verificar a coluna do prédio aqui há pouco tempo...

- Ora nem mais. Foi precisamente aí que detectámos o problema (sentido de oportunidade...)
A senhora tem aí a sua factura?

A minha mãe vai buscar a factura, comenta que efectivamente anda a pagar muito, o homem entretanto já dentro de casa, porta fechada, olha a factura, diz pois, pois, começa a ver o contador, simula um telefonema para um qualquer Sr. Engº e mostra:

- A senhora está a ver aqui a roda do contador? Ora desligue lá tudo. Vê? A roda continua a rodar. Está a contar e no entanto a senhora não tem nada ligado.

De cima dos seus 82 anos e menos 10 cm do que tinha quando era nova, a minha mãe não vê nada mas diz que sim.

- Minha senhora, temos de substituir aqui uma peça. Vou ter de ir à rua comprar e tem de ser já, que é quase uma hora e as lojas depois fecham. (convenhamos que aqui, já é preciso apostar bastante na credulidade do cliente).

- Bom, então vá, esteja à vontade.

- A senhora vai ter é de me dar o dinheiro para fazer a compra.

- E quanto é?

- São entre 50 e 60 euros.

- Então vocês não trazem dinheiro? (a minha mãe começa a achar estranho)

- Não, não. A EDP não nos dá dinheiro para estes trabalhos. Tem de ser o cliente a pagar a peça na altura, isto no caso de pretender diminuir o consumo.

A minha mãe vai ao quarto, a empregada atrás: "a senhora não lhe dê o dinheiro, isto é muito esquisito".

Entre ser roubada e sujeitar-se a um tratamento menos simpático, a minha mãe opta por ser roubada. Pega em duas notas de 5 euros, volta para o pé do rapaz e mente:

- Só tenho 10 euros em casa. Não tenho mais. Mas o senhor para sair com o dinheiro tem de deixar aqui o seu cartão.

- Com certeza, minha senhora. Aqui está.

Pousa o cartão na mesinha do hall, dá mais dois dedos de conversa, distrai as duas para recolher o cartão e vai-se embora entre cumprimentos e até já's.

Isto contou-me a minha mãe hoje, desolada, dizendo que está uma velha, como é que se deixou enganar desta maneira, que já se fartou de chorar, que a cabeça já não é o que era, que foi uma parva, que o meu irmão ralhou com ela, que ligou para a EDP a contar a história e que de lá ralharam também com ela e patati e patatá.

Tentei consolá-la o melhor que pude. Disse-lhe que ninguém olha para os cartões com atenção, que ela não era com certeza a única que tinha levado o golpe, que tinha feito bem em entrar no jogo do homem mas fingindo que não tinha mais dinheiro em casa, que às tantas ele tinha fome, filhos doentes e que no fundo até tinha revelado alguma imaginação, que 10 euros não era muito comparado com uma carga de pancada e sei lá que mais.

Claro que também lhe disse que tinha tido imensa sorte ou os anjos a velarem por ela e pedi-lhe para me prometer que punha sempre a corrente antes de abrir a porta e que, em casos parecidos, pedisse para ver a identificação como deve ser e ligasse para a companhia antes de deixar entrar pessoas em casa.

Contem esta história aos vossos amigos e familiares. Nem toda a gente tem a sorte da minha mãe.

junho 06, 2007

coralidades


O meu coral actuou ontem na escola secundária Josefa de Óbidos, por ocasião das festividades organizadas pela dita. Tínhamos um convite para irmos cantar à mesma hora no CCB, ou talvez fosse na Gulbenkian (as solicitações são tantas que já me perco), mas as ligações afectivas de alguns dos membros do coro (um, para ser exacta) com esta escola, fizeram-nos declinar o outro convite e um cachet à maneira, e lá fomos para a Josefa.

Sopranos e contraltos de farda nova, que me faz lembrar Maria a aturar os sete filhos do capitão Von Trapp e o corpo masculino do coro esforçado para se equipar à altura, subimos ao palco diante de uma plateia cheia e entusiasta (a sério!).

Graças a uma amigdalite bastante oportuna, falhei uma das últimas apresentações públicas do coro por alturas do Natal, numa noite em que chovia a cântaros, mas estive presente numa outra, realizada num lar de idosos das forças armadas em Oeiras. Meninos, digo-vos que, sem desfazer da 3ª idade, pronto foi depois do jantar e tal (o jantar deles, que nós estávamos todos com a barriguita a dar horas), cantar para uma plateia de dinâmicos professores e interessados alunos é, definitivamente, outra coisa. Há muito menos gente a dormitar.

Entre palmas, gritos e pedidos de bis, aquilo mais parecia um concerto dos Rolling Stones. Juro, gostaram mesmo! Até porque no final, uma amiga minha que é lá professora, veio ter comigo para dizer: "Eh pá! Vocês são mesmo bons! Nunca pensei! E o repertório é muito original!" E eu, que não sou dada a falsas modéstias, respondi com um: "Pois somos. Mas duvidavas?"

Claro que o nosso maestro, pessoa exigente e cujo ouvido não tem nada a ver com os dos outros presentes, não foi exactamente da mesma opinião. Brindou-nos com um: "Mais ou menos, falharam todos os inícios mas conseguiram pegar logo a seguir. Podia ter sido melhor, mas não foi mau". Esclareça-se que isto, dito por aquele homem, "não é mau".

O que me interessa é que a malta gostou, nós gostámos, e toda a gente ficou contente.

Digo-vos: este coro vai fazer dois anos em Outubro; estamos no princípio, portanto; preparem-se, pois o Coral Paradoxal, vai dar que falar!

Vá lá, Gonçalo, o maestro gravou aquilo. Põe o filmezito na net, que eu depois deixo aqui um link.

maio 28, 2007

quando for grande quero ser...

Nos meus últimos anos de liceu vivi aquela angústia que vivem os desgraçados como eu que não apresentam nenhuma vocação definida. Fiz aqueles testes de orientação profissional e tudo e saí de lá com aquele vacticínio que parece muito bom, mas não ajuda rigorosamente nada: "a menina pode seguir qualquer curso superior, dá para tudo". Isto para mim foi mais ou menos como "não dá para nada" porque fiquei na mesmíssima e com a única certeza de que tinha os dois hemisférios cerebrais muito equilibradinhos, o que se tem vindo a confirmar ao longo da vida, quer nos testes online ou onbook, quer na forma diletante como me apaixono por coisas que nada têm a ver umas com as outras.

A única coisa que eu sabia na altura, é que preferia as ciências às letras, o que já foi uma ajuda, pois só fiz mais duas disciplinas além das necessárias para completar o liceu, ou seja, todas as que havia para fazer da área de ciências. Outra certeza que tinha era a de que não queria seguir medicina (desmaio só de dizer sangue). Entre Arquitectura, Engenharia Civil (a sério, isto agora não se pode dizer, que dá logo para rir), Química, do Ambiente, Biologia, Agronomia, Economia e sei lá que mais, hesitei durante 3 longos anos. Hoje, sinto que poderia, deveria, ter escolhido outra coisa completamente diferente do que escolhi, mas vou-me contentando com hobbies e diversas actividades pós-laborais. Mesmo assim, sou uma "eternamente insatisfeita" típica, e acho que a vida não me vai chegar para tudo o que queria aprender a fazer.

Isto tudo, porque o meu filho está nessa fase e demonstra a mesma diletância e ausência de vocação definida da mãe, do pai, da tia, do tio... A escolha das disciplinas muda de ano para ano, a recta final aproxima-se e ele sem fazer a mínima ideia do que quer ser quando for grande. O teste de orientação profissional foi chapa 3 do meu e estes últimos anos no liceu idem: "vou para engenharia civil, vou para engenharia mecânica, vou para artes, vou para ceramista, vou para aeronáutica, vou fazer uma banda de música... não sei o que quero, mãe." E eu, não sei como ajudá-lo, não sei não. Não quero influenciá-lo, mas há coisas onde não o estou mesmo a ver, há outras em que acho que ele podia ser feliz, mas limito-me a fazer de advogado do diabo, a mostrar-lhe prós e contras, a mostrar-lhe a imensidão de coisas que pode fazer independentemente de estudar uma determinada área e, sobretudo, que a vida nos prega partidas tais, que a quantidade de pessoas que trabalha em áreas que nada têm a ver com o que estudaram é tal, que às tantas o curso que se tira pouco importa.

Para já, penso que ele devia experimentar o cinema de animação. Acho este filme, que ele fez com 15 anos, 3 amigos, plasticina, uma máquina fotográfica digital manhosa, muita paciência e muita imaginação, é uma delícia.

Mãe babada...

maio 25, 2007

Brico Té

Hoje fui ao AKI para comprar duas lâmpadas e umas folhas de lixa.

Saí de lá com:

- 5 lâmpadas
- umas folhas de lixa
- um nível
- uma craveira de precisão
- um esquadro de carpinteiro
- um aplicador manual para as folhas de lixa
- uma escova de papel autocolante
- um pacote de bostik
- máscaras sanitárias para protegerem o nariz e os pulmões do pó
- um mini berbequim
- um conjunto de 300 acessórios para o mini berbequim - para lixar, polir, gravar, fazer furos pequeninos em diversos materiais

- menos 150 € no bolso.

Não sei porquê, mas não resisto a ferramentas. Passo nas prateleiras dos alicates de vários tamanhos e formas, das chaves de porcas e parafusos com conjuntos que dão para tudo, dos utensílios que não sei para que servem mas para as quais invento rapidamente um monte de coisas giras para fazer (caso do mini-berbequim e dos respectivos acessórios), e fico em êxtase.

É mais forte do que eu. Tenho um conjunto de utensílios digno de inveja de qualquer bricoleur que se preze. Até uma mesa de carpintaria eu tenho. E não pensem que compro as coisas e depois não as uso. Não, não. Farto-me de curtir. Quem me quizer ver feliz dê-me armários para montar, boomerangues para talhar, lixar e pintar, brinquedinhos em madeira, maquetes, todas essas coisas que nos fazem suar um bocado e trabalhar com as mãos.

Se calhar devia gastar o dinheiro num fato saia-casaco e nuns sapatos de tacão alto estilo agulha.

Pelo menos, é o que a minha mãe me diz sempre, com o ar mais desconsolado deste mundo, quando me vê de ténis e calças de ganga ou, se a ocasião o exige, de sportif élégant.

Eu sei, carpintaria e ferramentas não é coisa de senhoras. Mas que querem, só de pensar que tenho aquelas tralhas todas no carro, já estou numa ânsia de ir para casa e encher-me de serradura.

qu'é delas, as lojitas de discos?

Irrita-me ter de ir à FNAC para comprar um simples disquito.

Atente-se que eu até gosto da FNAC. Gosto da abundância de livros, de me perder pelos escaparates, mirar as novidades, as promoções, encontar aquelas bandas desenhadas que não há em mais sítio nenhum, pôr os auscultadores e ouvir os cd's que estão a tocar e descobrir, "olha, que coisa gira!", e por aí.

Mas gosto de fazer isto quando tenho tempo, quando estou para aí virada.

Sim, porque se eu quiser comprar um determinado livro rapidamente, sem andar a bisbilhotar as prateleiras, tenho muitos sítios perto de casa onde ir. Felizmente, as livrarias têm resistido heroicamente ao monopólio da FNAC. O mesmo não se passou com as discotecas. Já viram que fechou tudo? Nas Amoreiras havia, que me lembre, 3 discotecas. Na Av. de Roma outras 3. Em Campo de Ourique, duas. Em qualquer centro comercial manhoso havia uma discoteca. Fora o Bairro Alto, que mantém, que eu saiba, uma loja de cd's com música alternativa, nada, népias, niente, pelo menos nas zonas onde me movimento regularmente.

Assim, quando quero comprar um miserável cd, ou vou à FNAC ou tento o supermercado. Como sou talvez um pouco careta, raramente encontro a música de que gosto ao lado das hortaliças.

Detesto monopólios. Vou deixar de comprar cd's. Quem é que me grava o...

Bom, deixem lá.

Gases

Por razões que não interessam agora, uma mulher tem de mudar os contratos da água, electricidade e gás para seu nome.

A dita mulher já habita na casa, da qual é comproprietária (ou co-proprietária?) há uns anos, e só por mero acaso, talvez preguiça de tratar da coisa, é que os contratos foram feitos pelo outro habitante.

A conta do banco da qual serão sacados os pagamentos é a mesma de sempre.

Os canos, electrodomésticos e etc., os mesmos são.

Da EPAL e da EDP, dizem-lhe que pode tratar da coisa pelo telefone, sem qualquer problema. Até aqui tudo bem.

Agora a bela da GDP: levar escritura de compra da casa (que até atesta que a mesma já era daqueles dois, ok? pois não interessa), rescindir um contrato, fazer um novo e pagar 30 ou 40€, marcar uma vistoria, que custa mais uns 60€, rezar aos céus para que esteja tudo bem, (que obviamente não vai estar, só pode sonhar isso quem nunca lidou com a GDP), fazer as malfadadas alterações que os srs. fiscais vão impôr e até, quem sabe, sugerir uma empresa mesmo boa que faz tudo na perfeição e não leva muito caro, ficar sem gás no entretanto, pedir outra vistoria, pagar mais não sei quanto, receber a notícia que ainda há uma coisinha para rectificar, e por aí fora durante uns mesitos.

Nestas circunstâncias a mulher hesita, pensa um bocadito e decide que, sendo o gás o mesmo, mais vale deixar tudo como está mais uns tempinhos, até que haja alguém que ponha ordem na GDP.

don't TOUCH the trees (em particular uma ali em alcântara)

Não, não é um post de cariz ecológico, é mais um alerta de saúde pública.

Estava eu parada no semáforo em frente ao Pingo Doce de Alcântara, quando vejo o homem no passeio assoar-se aos dedos, sacudir a mão, passá-la pelas calças, mirá-la e, não contente com o resultado, tirar o resto dos eflúvios nasais esfregando a dita no tronco da árvore.

Já tinha visto cenas destas na Ásia, exceptuando a parte da árvore (em geral a coisa fica pelos dedos ou, quanto muito, pelas calças), mas por cá foi mesmo uma estreia.

Se juntarmos a isto a incapacidade que muitos machos têm em manter a bexiga cheia até chegarem ao wc mais próximo, e utilizam amiúde a parte de trás das árvores para se aliviarem (parte esta, que nunca sabemos qual é), o melhor será mesmo, e à cautela, não tocar nas árvores.

É um conselho que esta vossa amiga aqui vos deixa.

maio 13, 2007

Aromas

Partiste levando contigo os nossos abraços, os nossos beijos, o nosso aconchego.
Comigo ficou o teu cheiro que me deixaste dizendo: toma, é para te lembrares de mim.
Vi-te de costas correndo, como a correr chegaras.
Olhei para o cheiro que me largaras na mão e cheguei-lhe o nariz. Aspirei devagarinho e senti-te ao pé de mim.
Embrulhei o cheiro e, com mil cuidados, guardei-o no bolso para não o perder.
Em casa, abri uma caixa onde guardo recordações e pus o cheiro lá dentro.
Antes, porém, arranquei-lhe um pedacinho e espalhei-o em mim.
É um cheiro bom, especial, mágico.
Por mais que me lave, não sai.

Impossível esquecer-te.

descriminação


pensando bem, se tenho posto uma cópia desta fotografia que tirei algures num restaurante na China, tudo se teria evitado.

quem sai aos seus, não é de genebra*

Há duas ou três noites atrás, naquela meia horita antes do jantar em que dormito no sofá em frente da televisão:

-mãe...
-humm..?

entreabro um olho

- tens umas luvas de plástico?
- para quê?
- nem te vou dizer...

entreabro o outro olho

- havendo, é daquelas de usar e deitar fora. no armário por baixo do lava-louça

fecho os olhos dois minutos

- mãe, não há. se quiseres, podes vir ajudar-me

abro, definitivamente, os dois olhos

- desculpa? se eu quiser, posso ir ajudar-te? que raio de conversa é esta? nem me disseste para que querias as luvas. e agora, dás-me a honra de eu te ajudar, ó marquês? não estás a ver bem, tu.

fecho novamente os olhos, passo pelas brasas mais dez minutos e esqueço o incidente. ao jantar, no meio do arroz de peixe:

- foi preciso estar contigo nove anos para ter de andar a mexer na caca do teu filho
- o quê ?!
- o teu menino deixou cair a caneta na sanita no meio do cócó e, como não havia luvas e ele foi incapaz de pôr a mão lá dentro, tive de ser eu
- ah, então era para isso que eu te podia ajudar, se quisesse, era?
- oh mãe, a caneta estava por baixo e aquilo por cima, um nojo.
- pois, mas houve quem lá fosse, não houve? Francamente, vê se cresces... lavavas as mãos a seguir...

Ainda bem que me deixei ficar pelo sofá. É que eu falo, falo, mas quem não punha lá a mão também, era eu.

*variante popular do ditado

maio 09, 2007

Pergunta

O que querem dizer exactamente os gajos, normalmente com aquele ar de quem não leva nada desta vida, que passam pelas miúdas e dizem: sssssssssssssssst?

maio 05, 2007

será mesmo?



On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses.
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux
Pourtant quelqu'un m'a dit...

Que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore.
Serais ce possible alors ?

On me dit que le destin se moque bien de nous
Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout
Parait qu'le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou
Pourtant quelqu'un m'a dit ...

Que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore.
Serais ce possible alors ?

Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?
Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit,
J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits
"Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit"
Tu vois quelqu'un m'a dit...

Que tu m'aimais encore, me l'a t'on vraiment dit...
Que tu m'aimais encore, serais ce possible alors ?

On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux,
Pourtant quelqu'un m'a dit que...

Que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore.
Serais ce possible alors ?

une chanson qui croit à l'amour, diz ela

Je suis ton pile
Tu es mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
Toi le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la guitare et moi la basse

Je suis la pluie et tu es mes gouttes
Tu es le oui et moi le doute
T'es le bouquet je suis les fleurs
Tu es l'aorte et moi le coeur
Toi t'es l'instant moi le bonheur
Tu es le verre je suis le vin
Toi tu es l'herbe et moi le joint
Tu es le vent j'suis la rafale
Toi la raquette et moi la balle
T'es le jouet et moi l'enfant
T'es le vieillard et moi le temps
Je suis l'iris tu es la pupille
Je suis l'épice toi la papille
Toi l'eau qui vient et moi la bouche
Toi l'aube et moi le ciel qui s'couche
T'es le vicaire et moi l'ivresse
T'es le mensonge moi la paresse
T'es le guépard moi la vitesse
Tu es la main moi la caresse
Je suis l'enfer de ta pécheresse
Tu es le Ciel moi la Terre, hum
Je suis l'oreille de ta musique
Je suis le soleil de tes tropiques
Je suis le tabac de ta pipe
T'es le plaisir je suis la foudre
Tu es la gamme et moi la note
Tu es la flamme moi l'allumette
T'es la chaleur j'suis la paresse
T'es la torpeur et moi la sieste
T'es la fraîcheur et moi l'averse
Tu es les fesses je suis la chaise

Tu es bémol et moi j'suis dièse

T'es le Laurel de mon Hardy
T'es le plaisir de mon soupir
T'es la moustache de mon Trotski
T'es tous les éclats de mon rire
Tu es le chant de ma sirène
Tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour

Je suis ton pile
Toi mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
T'es le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la putain et moi la passe
Tu es la tombe et moi l'épitaphe
Et toi le texte, moi le paragraphe
Tu es le lapsus et moi la gaffe
Toi l'élégance et moi la grâce
Tu es l'effet et moi la cause
Toi le divan moi la névrose
Toi l'épine moi la rose
Tu es la tristesse moi le poète
Tu es la Belle et moi la Bête
Tu es le corps et moi la tête
Tu es le corps. Hummm !
T'es le sérieux moi l'insouciance
Toi le flic moi la balance
Toi le gibier moi la potence
Toi l'ennui et moi la transe
Toi le très peu moi le beaucoup
Moi le sage et toi le fou
Tu es l'éclair et moi la poudre
Toi la paille et moi la poutre
Tu es le surmoi de mon ça
C'est toi Charybde et moi Scylla
Tu es l'amer et moi le doux
Tu es le néant et moi le tout
Tu es le chant de ma sirène
Toi tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour

maio 03, 2007

contar pelos dedos


Chego a esta altura do ano e começo a contar pelos dedos as semanas que faltam para ir para a minha ilha. Não é que a ilha seja mesmo minha, mas como é de todos e de ninguém e, com o passar dos anos, criei com ela laços indeléveis de afectividade, permito-me chamar-lhe "a minha ilha".

Na minha ilha vivo ao ritmo do sol e dos barcos que chegam e vão. Aliás, na minha ilha, o tempo divide-se fundamentalmente entre o tempo com barco e o tempo sem barco. Poder-se-ia dizer que estes dois tempos correspondem aproximadamente à noite e ao dia, mas é neste "aproximadamente" que reside toda a diferença. Os dois momentos mais especiais do dia são entre o acordar e a chegada do primeiro barco e entre a partida do último barco e o põr-do-sol. É nestas alturas que a minha ilha é mais minha. Porque a praia está quase deserta; porque as primeiras e últimas pegadas na areia podem ser as minhas; porque o primeiro e o último banho podem ser os meus; porque o jantar começa com os últimos raios de sol a espelharem a ria e acaba com velas a tremeluzirem mosquitos; porque o silêncio impera, apenas quebrado pelas ondas que derretem na areia.

Na minha ilha, quando estão aquelas noites mesmo quentes, usa-se o "ar condicionado marroquino": portas e janelas abertas onde se penduram paréos molhados que a brisa agita e refrescam os quartos.

Na minha ilha não há electricidade, nem água aquecida por esquentador; na minha ilha ninguém usa sapatos; na minha ilha "arranjar-se para jantar" significa tirar o sal dos cabelos e da pele com um duche tomado com água aquecida ao sol em garrafões de plástico, vestir uma t-shirt lavada e umas calças largas, velhas e leves.

Na minha ilha "sair à noite", significa pegar numa lanterna e ir dar dois dedos de conversa a casa dos amigos, juntar os gravetos e madeiras velhas recolhidas durante o dia e conversar até apetecer à volta de uma fogueira com um copo de vinho numa mão e chouriço assado na outra.

Faltam oito semanas e meia para ir para a minha ilha.

abril 29, 2007

doggy baby sitting

Este fim-de-semana tomámos conta da Margot, a quem baptizámos de Margot Fontaine, tantos são os xixis com que nos presenteia.

O gato deu-lhe uma sapatada logo à entrada, para mostrar quem manda, e o cão está indeciso entre o ciúme e o medo (!) de maneira que foge e põe-se a ganir.


Nós fazemos-lhe festinhas, andamos com ela ao colo e limpamos os presentes.







abril 28, 2007

Paradoxos

JURA SECRETA

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
Do que por não saber ainda não quis


Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri

abril 27, 2007

Desejos impossíveis

Coisas que eu gostava de ter:

- o pescoço da Penélope Cruz

Conselhos práticos

Coisas que não se devem fazer:

- segurar na asa do tacho com a mão esquerda, utilizando uma pega, enquanto a direita mexe o conteúdo com uma colher de pau, pegar fogo à pega sem dar por isso, pousar a colher de pau, mudar a pega de mão colocando os dedos da mão direita sobre a parte da pega que está a arder.

abril 23, 2007

dá-me um livro que eu dou-te uma rosa


Hoje é o dia mundial do livro e dos direitos de autor.

Assinalando a data, um amigo enviou-me um e-mail contando o porquê desta data: aniversário do nascimento e da morte de Shakespeare (morrer no dia de anos, não lembra...) e da morte de Cervantes, 23 de abril é dia de S. Jorge. Cervantes não era catalão, por isso não sei se há alguma relação entre os dois factos, mas a verdade é que na Catalunha existe uma velha tradição em que, neste dia, os homens oferecem uma rosa de S. Jorge às suas amadas e estas retribuem a atenção com um livro. No final, este meu amigo sugeria aos seus contactos que se associassem à tradição catalã.

Apressei-me a responder enviando um livrinho virtual (à falta de melhor e na impossibilidade de oferecer um a sério) e fiquei à espera da rosa a que tinha direito, mesmo que virtual.

Passado um bocado, dei comigo a pensar: mas que coisa... porque raio é que hão-de ser os homens a receber o livro e nós só ficamos com a florita? Então, eles levam um livro (caríssimo), horas e horas de prazer e nós ficamos a ver uma (uma) rosa a murchar na jarra? Parece-me mal... Porque é que a coisa não é ao contrário? Eu até gosto de flores, mas preferia o livro. Pronto até podia vir com uma rosa, mas um livro mesmo é que era.

Daqui até me perder em reflexões sobre machismo e trálálá, foi um instantinho, daí até achar que este e-mail fazia parte dum arranjinho dos tipos para nos sacarem livros a preço de rosa foram só mais 30 segundos e apenas mais 10 para já ver as indústrias livreira e de produção de flores metidas no esquema. (atente-se ao exagero... não pensei isto tudo, só um bocadinho. isto aqui em cima é só para dar mais colorido à coisa).

Mais tarde, por via das dúvidas, reli o e-mail. Acertadíssimo, politicamente correcto e etc., o meu amigo frisava que se trocassem livros e rosas, independentemente do sexo. Pareceu-me bem.

abril 19, 2007

Princípio de Peter

A recordação mais antiga que tenho do JRS data daquela célebre noite em que ele, ainda muito puto, fazia de pivot no telejornal e de repente rebenta a guerra do golfo em directo. Ok, a malta lá na RTP deve ter ficado à rasca, os seniores deviam estar todos de folga e de um momento para o outro têm uma coisa daquela envergadura nas mãos e só um pivot junior, ainda por cima com cara de Bugs Bunny, para tratar do assunto. Mas bom, convenhamos que o JRS até conseguiu aguentar a coisa, mais hesitação menos hesitação.

Estou plenamente convencida que lhe saiu a sorte grande nesse dia. Passou a ter outro destaque, outra posição. E foi por aí subindo até ocupar o estatuto que tem hoje, chegando a fazer reportagens de guerra (como no Líbano, há pouco tempo) para as quais não tem nem talento nem os ditos no sítio. Basta vê-lo com o seu coletinho caqui cheio de bolsos, a olhar para todos os lados e para a câmara só lá de vez em quando, não vá algum mau saltar de trás de uma pedra. Aquilo não é para toda a gente, pronto. Para mim, por exemplo, nem pensar. Por isso é que não sou jornalista de guerra.

E, por conhecer os meus próprios limites, também não sou escritora, nem pintora, nem fotógrafa. Tenho hobbies, é isso.

Ora aqui o JRS não conhece os seus próprios limites. Note-se que eu não pretendo fazer crítica literária, longe de mim. Mas há coisas que não percebo. E uma delas é: como é que este tipo vende 110.000 exemplares (10ª edição desde Outubro de 2006) deste livro (grosso ainda por cima e sabemos bem como os portugueses são preguiçosos nisto das leituras) “A fórmula de Deus”? Como? Como é que isto é possível? A única explicação que tenho é a guerra do golfo e o efeito bola-de-neve que me apanhou a mim também.

Pois é. Aqui há umas semanas entrei na Bulhosa, dei uma volta pelos escaparates, não vi o que procurava, perguntei ao senhor que vasculhou no computador para confirmar que não havia, dei mais uma volta, fui aos tops de vendas e pensei, bom, deixemo-nos de preconceitos, afinal nunca li nada deste tipo, 110.000 exemplares há-de querer dizer qualquer coisa e lá comprei o livrito.

Bom, já há muito tempo que não lia nada de tão inconsistente (e li tudo até ao fim, aplicadíssima). Enredo que pretende ser de suspense, mas que não tem nenhum. Personagens incredíveis utilizadas para explicar aos leitores as coisas que o JRS pensa que eles não sabem, a CIA (essa mesma, a dos americanos) com um comportamento idêntico ao da GNR da merdaleja, enfim, fiquei pasmada.

Só umas coisinhas para se perceber melhor o ridículo dos tesourinhos deprimentes que aqui vou deixar mais à frente. Os heróis são: um historiador português, professor universitário e eminente criptólogo mundial (tá-se a ver, não tá-se?); uma cientista iraniana da área da física. Ok? Malta culta, com nível. Do enredo, nem vale a pena falar, tal é a trapalhada. Agora vejam-se estes diálogos:

Ela, no Cairo – “aquela é a mais importante mesquita da cidade, o lugar mais sagrado do Cairo (…) é a mesquita de Sayyidna al-Hussein”.
Ele (historiador e tal, visitante assíduo do Cairo por razões profissionais) – “Ah, sim? O que tem ela assim de tão importante?” (quem já foi ao Cairo, mesmo sem ser historiador, sabe que se leva com esta mesquita e a sua história logo no primeiro dia. Claro que para quem não foi e a quem é preciso explicar, a solução é transformar a personagem num parvo ignorante)
Ela – “Dizem que está ali uma das mais sagradas relíquias do Islão, a cabeça de al-Hussein”
Ele – “E quem é esse ?” (Isto é um must!)

Segue-se um diálogo algo extenso para explicar o que são sunitas e xiitas.

Mais à frente:

Ela – “Professor Noronha, sabe qual é a energia libertada por uma bomba atómica?”
Ele – “A energia nuclear?” (vá lá, até aqui o gajo ainda ia…)
Ela – “Sim. Sabe que energia é essa?”
Ele – “Suponho que tenha a ver com os átomos, não é?” (suponho que tenha a ver…., que delícia)

Outra gira. O eminente criptólogo, um dos mais conceituados peritos do planeta, afinal a CIA recorreu a ele e a mais ninguém, na volta só tem que decifrar um simples anagrama e vai tentando fazer a coisa sempre no mesmo papelito amarrotado no bolso, com uma bic, pelas mesas dos cafés. É um método, como qualquer outro, claro. Agora o diálogo, não vá algum leitor não saber o que é um anagrama e não ter um dicionário lá em casa:

Ele – “sabe o que é um anagrama?”
Ela (cientista e tal) – “Já ouvi falar, mas, sinceramente…” (já ouviu falar…)

Sinceramente, digo eu. É que são 574 páginas a este nível. Como é que é possível?

Ó Florbela, põe lá um travão no gajo, pá. Explica-lhe o Princípio de Peter e convence-o a ficar-se por pivot. É que ele vende muito e isso é grave.

abril 15, 2007

Frases acertadas

Um destes dias estava no messenger a falar com uma amiga (bom, efectivamente não a conheço pessoalmente, é mais um daqueles conhecimentos virtuais que, por esta ou aquela razão, acabam por se transformar em amizades), naquela típica conversa de mulheres em que se fala de homens, pois então, de paixões, amores e amizades, e de repente a pequena (digo pequena por ela ser uns bons anitos mais nova que eu) diz algo parecido com isto:

- pois é. as pessoas um dia amam-se, outro dia separam-se e, quando são crescidas, ficam amigas para o resto da vida.

Gostei mesmo desta frase. É que tenho a sorte de, salvo raras desonrosas excepções, ter uns quantos antigos namorados que se transformaram em amigos para o resto da vida.

Pronto, há alguns com quem falo muito frequentemente, outros que só vejo lá de vez em quando, mas sei que são amigos, amigos do peito mesmo.

E acho que conseguir-se isso é uma das maiores provas de maturidade (o tal ser crescido) que duas pessoas podem mostrar numa relação.

Amiga, sabes que falo de ti. Obrigada por me teres deixado na memória este teu dito.

abril 14, 2007

Soluções complicadas


Cada vez mais me convenço que este animal não bate bem.
Faz-me lembrar aquelas pessoas que escolhem sempre os percursos mais tortuosos para chegarem onde querem, sem perceberem aquela coisa simples que aprendemos logo na escola primária: o caminho mais curto entre dois pontos é a recta, certo?

Transamerica

Num destes dias em que não apetecia sair de casa, alugámos “Transamerica”. http://www.transamerica-movie.com/

É a história de Bree, um transexual que, nas vésperas de fazer a sua operação para mudança de sexo, recebe um telefonema dum filho adolescente cuja existência ignorava, a pedir ajuda. O rapaz (Toby), que aos 17 anos vende o corpo às bichas de Nova Iorque, está preso, a mãe morreu, fugiu do padrasto e não tem quem lhe pague a fiança. Bree não se identifica, diz que o pai já não mora ali, mas acaba por vir de Los Angeles para Nova Iorque a fim de pagar a fiança (que afinal era de 1 dólar), apresentando-se a Toby como uma senhora que faz parte de uma igreja qualquer que dá apoio a jovens como ele. Quando Bree percebe qual é o ganha-pão de Toby e este lhe diz que quer ir para a Califórnia para ser uma porno-star, resolve levá-lo. A partir daqui temos um road movie em jeito de trágico-comédia, com os inevitáveis equívocos que a situação provoca, as descobertas que se vão fazendo ao longo da viagem, a ligação afectiva que se estabelece entre os dois, revelando a história duma família disfuncional como tantas outras.

Sem ser um filme excepcional, agradou-me deveras.

abril 13, 2007

Juramento

Si el amor hace sentir hondos dolores
Y condena a vivir entre misérias
Yo te diera, mi bien, por tus amores
Hasta la sangre que hierve en mis arterias

Si es surtidor de místicos pesares
Y hace al hombre arrastrar largas cadenas,
Yo te juro arrastrar-las por los mares
Infinitos y negros de mis penas.


É assim o amor: sofrido, mas a valer toda a entrega, cantando.

abril 12, 2007

Ensaio

Duas semanas sem ensaio e nem percebia como me estava a fazer falta.

O maestro estava especialmente bem disposto e com aquele sentido de humor que põe toda a gente a rir.

Surpreendo-me sempre com este homem de cada vez que começamos a ensaiar uma música nova, como ontem.

Ele começa a cantar para nós apanharmos a melodia, eu olho para a partitura e penso, desta vez é que não vamos lá, esta coisa é mesmo complicada. E não é que vamos lá sempre? Com infinita paciência e obrigando-nos a inúmeras repetições, por vezes de sequências de apenas quatro ou cinco notas, ao fim de 1 hora aquilo já soa a qualquer coisa.

E no fim, depois de ensaiar cada naipe individualmente, vai juntando 2 naipes à vez, depois 3, finalmente os 4 e, quem diria, temos música! Ok, vai ter de ser ensaiado mais umas dezenas de vezes até estar bem. Mas logo à primeira, conseguimos quase sempre ter um embrião minimamente jeitoso do que aquilo vai ser daqui a umas semanas.

E esta última é um mimo. Um juramento de amor cubano que quando estiver afinadinho vai ser bom de ouvir.

Amanhã logo deixo aqui a letra.

abril 08, 2007

Primeiros amores - La suite

Ontem, ao telefone:

- Então querido, ela gostou da prenda?
- Oh mãe, devias ter visto. Adorou.
- ............
- Disse que nunca ninguém lhe tinha dado uma prenda de que ela tivesse gostado tanto.
- Vês?

Esteve das 10 da noite às 2 da manhã a fazer aquilo. Valeu a pena. Aprendeu o que tem valor e de recompensa, a miúda gostou. Yes!

Amores antigos

Hoje de manhã abro a gaveta para tirar umas meias lavadas e montes de amêndoas misturadas com as meias e um cartão a olhar para mim.

Fecho a das meias, abro a das cuecas e mais amêndoas coloridas a sorrirem para mim e outro cartão.

Na das camisas de noite, o mesmo cenário. Fico a olhar para aquilo a sorrir e a lembrar-me da Páscoa de há 9 anos em que amêndoas como estas me atafulharam a caixa do correio e rebolaram pelo chão do hall de entrada do prédio.

Vou buscar uma taça, procuro as amêndoas no meio da roupa e como uma, de chocolate preto.


Amores antigos também é bom.

abril 06, 2007

Primeiros amores

Telefonema do meu filho hoje à hora do almoço:

- Mãe
- Sim, querido
- Amanhã faço um mês (um mês, que delícia) de namoro com a ... e não sei que lhe hei-de dar como presente. Não lhe queria dar flores outra vez...
- Então, tens de lhe dar uma coisa que aches que ela vai gostar
- Ela não usa brincos, nem acessórios, nem nada dessas coisas...
- Gosta de ler, de ouvir música?
- Pois, posso comprar-lhe um disco...
- Compras nada. Gravas-lhe um cd, com músicas que tu gostes, escolhidas por ti, pela ordem que tu entenderes. Imprimes uma capa com uma imagem bonita... É mais pessoal, é uma coisa feita por ti, com que perdes tempo, que mostra que te interessas. Muito mais giro.
- Achas?
- Claro que acho. Já tenho feito isso e gosto que me façam.
- Então vou fazer. E dou-lhe também uma rosinha.
- Isso, querido.

Primeiros amores, que bom que é.

Sonhos com sabor a sal

Imagino uma falésia, escadas toscas penduradas na rocha, uma praia minúscula lá em baixo, o mar a desfazer-se na areia.

Imagino a Berlenga (palco de amores de juventude) muito ao fundo, e a água daqui até lá verde escura e encrespada de carneirinhos brancos.

Fecho os olhos e sinto o vento que me bate na cara, que me embaraça os cabelos e os mistura com os teus, enquanto me abraças por trás e me beijas o pescoço.

Sinto o calor do teu corpo encostado ao meu, as tuas mãos que me afagam, me mexem, os teus lábios em segredos no meu ouvido.

Deito a cabeça para trás, pouso-a no teu ombro e abandono-me a sentir só e apenas a tua respiração em mim.

Viras-me para ti, puxas-me o cabelo para cima, olhas-me doce docemente, hesitas mirando o chão e por fim ganhas coragem e beijas-me com ternura misturada com desejo.

Retribuo o beijo e ficamos ali muito tempo entre beijos e olhares, como dois adolescentes.

Sinto a brisa quase vento, o cheiro forte do mar e distingo a praia da Berlenga com as gaivotas às voltas a piar como loucas em manhãs de um Agosto distante.

Abro os olhos e afinal estou aqui, não há falésia, não há mar encrespado, não há praia lá em baixo, nem escadas penduradas na rocha, nem Berlenga nenhuma.

Apenas eu, sozinha na minha sala com a cabeça cheia de sonhos misturados com músicas já gastas de tão ouvidas.

Abro a janela e grito o teu nome. Ninguém me responde.

abril 02, 2007

Peso, contorno cego, estudo prolongado, panejamento


Aqui há uns tempos falei das minhas aulas de desenho na SNBA.

Os progressos são lentos, o trabalho árduo e as duas horas sempre insuficientes para responder aos exercícios propostos com algo que não nos faça enfiar a cabeça na areia de vergonha.

A coisa fica automaticamente resolvida dada a escassez de areia na sala de aula, de maneira que não há outro remédio senão continuar em frente de cara alegre.

Com o primeiro exercício proposto, este aqui ao lado, devemos transmitir a sensação de peso e volume no desenho, imaginando que o estamos a fazer como se se tratasse de uma peça de barro. Partindo do eixo da figura, do "cerne" como dizem os professores (neste caso a coluna vertebral da menina) para o exterior, vamos largando a cera no papel, do centro para fora, sem nunca desenhar o contorno. O resultado é um borrão preto, como se pode facilmente constatar.

Os exercícios seguintes são de contorno. Podem ser de contorno cego rápido de 5 minutos (como os aqui em baixo) em que os olhos seguem o contorno da figura e o lápis desenha no papel sem que o nosso olhar largue a figura a não ser no fim de cada linha. Aí, dá para olhar para o papel, ver o desatre e tentar iniciar a linha seguinte num ponto que não esteja muito errado. Em alternativa há o contorno não cego ou o contorno lento (20 minutos). Gosto mais dos cegos e rápidos, não só porque resultam em verdadeiros ET's, como porque temos sempre a desculpa de dizer: Ok, não está assim muito parecido, mas foi feito sem olhar e em 5 minutos! O uso de borracha é, obviamente, muitíssimo mal visto e objecto de duras críticas, ou seja, não se pode usar mesmo.



A seguir passamos para o estudo prolongado, primeiro sem medidas, depois com medidas. No primeiro caso o que devemos fazer é, basicamente, tentar desenhar o melhor possível e mais próximo da realidade aquilo que vemos.


No segundo, utilizamos o braço esticado, o lápis como referência de medida na mão do braço esticado e só um olho para tentar perceber quantas cabeças cabem na perna, qual o ângulo que o tronco faz com a vertical, enfim uma trapalhada (eu cá preferia usar uma fita métrica e ir medir a menina, mas não se pode). O resultado final não é, pelo menos no meu caso, substancialmente diferente do estudo sem medidas...

Depois de algumas variações sobre este tema eis que temos de dar volume à coisa. O modelo é iluminado e compete-nos aclarar as zonas mais próximas da luz e escurecer as que ficam mais longe. Isto faz-se inicialmente com o modelo completo e depois com partes do modelo à nossa escolha, com cera ou tinta e aparo. Embora fique sempre com os dedos cheios de tinta que demora dias a sair, optei quase sempre por este método dado que o que consegui fazer com a cera, bom, o melhor é falar de outra coisa.

E pronto, nas últimas 4 aulas antes da Páscoa, dedicámo-nos ao estudo da prega ou seja, estivémos a desenhar panos pendurados na parede. Uma das vantagens é que o pano, contrariamente ao modelo (eles bem que se esforçam mas poses de 50 minutos...), não se mexe.

A desvantagem é que ao fim de 4 sessões já não se aguentam os panos. Significa também que, agora que vem aí o calor, é que os modelos se vão vestir depois de terem rapado frio no inverno. Enfim, tudo ao contrário.

Ah! A título meramente informativo, cada um destes desenhos é feito em folhas com uma dimensão próxima do A1 que devem ser usadas na totalidade. E pronto, no fim do ano lectivo, senão estiver com a cabeça na areia, conto o resto.



abril 01, 2007

Palavras perdidas

Atiro-te palavras que escorrem por ti como a chuva que bate nas vidraças, cai na calçada e entra no esgoto para se perder no mar.

Atiro-te palavras na esperança de que me sejam devolvidas com efeitos imprevistos, como bolas de ténis em raquetes experientes, obrigando-me a correr para um e outro lado para apanhá-las e atirá-las de novo para ti, com novos efeitos e variações.

Mas as minhas palavras, como bolas menos hábeis, ou batem na rede, rebolam pelo chão e aí ficam, paradas, inúteis, sem ninguém que lhes pegue, ou são devolvidas para outro lugar que não o meu.

Continuamente tento avançar mas bato em paredes, esbarro em muros para onde quer que me volte, enfiada num túnel do qual não vejo o fim e de que já esqueci o princípio.

Palavras já um dia sussurradas ao teu ouvido, umas agora perdidas bailando ao sabor do vento, outras que foste guardando em caixas fechadas a cadeado de que deitaste fora a chave sem mesmo olhares para elas.

Antes que te tocassem, antes que o seu sabor te levasse a quebrar a concha em que te fechaste e as devolvesses embrulhadas em jeito de presente.