janeiro 20, 2009

coisas sem importância

Volto para casa já depois das oito com frio e chuva a escorrer no pára-brisas, pensando no conforto da sala e em qualquer coisa quente. Antecipo o prazer da casa em sossego, dos livros que me apetece ler devagarinho, da música que vou ouvir depois do jantar enquanto deambulo por aqui ou me sento em frente de papeis em branco que esperam ser preenchidos com palavras ou com cores.

Ouço na RFI a reportagem da tomada de posse de Barak Obama e da despedida de Bush com canções de byebye e penso que já não vou a tempo das notícias da 1, mas que poderei ver as da 2. O noticiário da RFI passa para outro tema e pergunto-me porque só os franceses francesam todos os anglicismos e dizem profil bas quando toda a gente em todo o lado diz low profile. Lembro-me de outra reportagen que ouvi há meses e nos minutos que demorei a perceber que Pitarregábrièle era Peter Gabriel.

E assim entre pensamentos sem interesse que se vão interligando e vindo e indo e passando acabo por chegar ao parque de estacionamento, sair do carro, sentir no corpo os 5ºC que o termómetro do carro marcava e encaminhar-me lentamente para a porta do meu prédio, mesmo com chuva gelada na cabeça não me apetece apressar o passo, vá-se lá saber porquê.

Pego o elevador e saio no patamar, ansiosa pelo meu sofá e por um prato de sopa igual à que comi ontem. A casa não está às escuras nem fechada à chave, na sala uma câmara de video montada num tripé, o meu filho e outro miúdo a olhar para os apontamentos das cenas e à mesa um casal desconhecido de arroz e salsichas no prato, frios de tanta espera e tanto take. Era suposto ter sido ontem e por isso fui ao cinema. Ontem. E agora não tenho sala, nem quartos, tudo transformado em cenário. Resta-me ficar por aqui. Nem leituras, nem pinturas. Não se pode confiar em adolescentes.

será da ração?

Agora que vou conhecendo melhor a personalidade de cada um dos meus gatos, acho que vou chamar Bufas a um e Surdas a outro...

Porr@.....!

janeiro 19, 2009

why me?

Hoje levantei-me como todos os dias, talvez um pouco mais cedo e com um pouco mais de pressa. Tomei banho, vesti-me, pus os cremes do costume no rosto, comida e água nos gatos, saí com o cão e dirigi-me ao café de de sempre para tomar o pequeno-almoço. Despi o casaco, sentei-me, passei os olhos pelo jornal durante o galão e o pão com manteiga, levantei-me, vesti o casaco, paguei a conta, fui pôr o cão em casa, dirigi-me para o carro, apanhei trânsito pelo caminho e cheguei 10 minutos atrasada à reunião que tinha às 9h30m.

Corri até à porta do edifício, subi no elevador, percorri o corredor até à porta do fundo, cumprimentei a secretária e entrei no gabinete onde já estavam os outros quatro. Despi o casaco que pendurei na cadeira, sentei-me, abri a carteira para tirar o livrinho de apontamentos, os óculos, o telemóvel e uma esferográfica. A meio da reunião, deu-me a dor de barriga matinal e levantei-me para ir até ao wc, percorrendo o corredor em sentido contrário e de novo para trás.

Quando a reunião acabou pus as minhas coisas dentro da carteira, levantei-me, vesti o casaco, despedi-me dos outros, palmilhei de novo o corredor, dispensei o elevador e desci pelas escadas. À porta de saída, na rua, cruzei-me com um colega a quem tinha pedido umas coisas aqui há uns dias e aproveitei para lhe perguntar: então aquilo e tal? ao que ele me respondeu que tinha tudo lá em cima no seu gabinete e que se eu subisse me podia dar já. Subi as escadas até ao primeiro andar conversando com ele, passámos uma porta, novo corredor, entrámos no gabinete do secretariado para pegar parte das coisas, voltámos atrás a outro gabinete para buscar mais umas quantas e saímos de novo para o corredor.

E foi aí. No chão de mosaico branco e imaculado, a renda preta em forma de cuequinhas a olhar para nós e o meu colega: então mas agora alguém anda aqui a largar cuecas? enquanto se baixava para apanhar as ditas. Olhou para mim de cuequinhas rendadas na mão com um ar espantado. Eu tirei os meus olhos dos dele e mirei as cuecas pretas, um nadinha sexy. Numa fracção de segundo percebi que são minhas e relativamente novas e boas e que fazem conjunto com um soutien e que não me apetecia de todo ficar sem elas mesmo com o embaraço de não fazer a menor ideia de como sairam da minha casa e se materializaram ali, primeiro no chão e depois na mão do meu colega. Em 3 tempos peguei nelas, gaguejei que eram minhas, que deviam ter vindo agarradas à minha roupa e caído ali e enfiei-as rapidamente na carteira enquanto me desfazia em desculpas. O meu colega, simpático, diz-me deixa lá, isso acontece a qualquer um.

Acontece? Duvido mesmo. Onde estaria aquela porcaria pendurada durante todas as voltas que dei antes de ter caído?

janeiro 17, 2009

eh pá, desculpem lá e tal...

... mas à conta deste menino, alterei a enquete (esta palavra existe mesmo ou é invenção do blogger?) aqui ao lado e então quem já votou, olhem... votem lá outra vez, ó fáxavor!

janeiro 14, 2009

rei morto rei(s) posto(s)

Uma mulher habitua-se a viver com um gato e depois não sabe viver doutra maneira...

Pois é a falta da cabeça do gato a roçar as bordas das páginas do livro que lê à noite na cama.

Pois é a ausência daquele susto quando está quase a adormecer no sofá e o gato salta silenciosamente para o colo.

Pois são as unhas que já não verificam a solidez da perna antes do enroscanço.

Pois é não ter de abrir os armários e gavetas para procurar o gato que lá se escondeu enquanto a D. Antónia virou costas e vê-lo a sair espreguiçando-se depois de um dia de sonos entre camisolas de lã.

Pois é não ter aquele pelo todo onde enfiar os dedos distraidamente enquanto conversa com os prórpios botões.

Pois é. Foi a saudade de todos esses pequenos prazeres da companhia felina que me levou há dois dias à loja de animais aqui do bairro a ver se havia gatinhos para dar. Não havia, mas uma senhora tinha lá deixado o contacto, se aparecesse alguém e blablabla, telefonema, volte amanhã, vê se gosta e escolhe e blablabla, resumindo e concluindo ontem saí da loja com dois gatinhos irmãos, porque assim brincam e não ficam tristes e leve lá os dois e eu sou mole, não é...

De maneira que agora tenho cá estas duas lindezas ainda sem nome (ontem chamavam-se Blake e Mortimer, mas Mortimer é grande de mais e ainda ficava Morty e, bem... não me apetece):




Mas então ajudem-me lá, please

Laurel & Hardy?
Eros & Cupido?
Buda & Krishna?
Batman & Robin?
Aquiles & Heitor?
Créos & Vulcano?
Camembert & Roquefort?
Tom & Jerry?
Duffy & Duck?
Pussy & Cat?
Achille & Talon?
Magritte & Dali?
Berlioz & Toulouse?
Toulouse & Lautrec?
Charles & Darwin?
Kant & Hegel?
Marcel & Proust?
Mia & Miao?
D. Quixote & Sancho Pança?
Fellini & Visconti?
Baltazar & Belchior?
Morris & Goscinny?
Lucky Luke & Jolly Jumper?
R2D2 & 3CPO?
Fritz & Lang?
Simon & Garfunkel?
Cat & Stevens?
Amadeus & Mozart?
Ra & Aton?
César & Calígula?

Helllllllllllllllllllllllllllllllllllp!!!!!!!!!!!!!!!

janeiro 08, 2009

os faxes e o simplex

Lembram-se das redacções da Guidinha? Aqui há dias uma amiga relembrou-mas e então como tenho aqui um tema que se adapta ao estilo, perdoe-me o Sttau Monteiro lá onde esteja, longe de mim pensar em chegar-lhe aos calcanhares, mas é mesmo assim que me apetece contar isto:

OS FAXES E O SIMPLEX

Pois lá no sítio onde eu trabalho resolveram que havia que pôr em prática algumas medidas do simplex o simplex para quem não saiba é uma coisa que embora acabe em lex não tem nada de lei é mais assim como um molho de ideias para tornar a vida mais simples a toda a gente e para poupar tempo e papel e energia a começar pela energia do cidadão e também energia da outra enfim é suposto o simplex ser bom e ecológico e politicamente correcto e moderno e essas coisas todas então lá no sítio onde eu trabalho acharam por bem acabar com os faxes e como nestas coisas se é para fazer o melhor é fazer já nem se pensou duas vezes foi mais ou menos assim numa 2ª feira olha e se a malta acabasse com os faxes? e na 3ª feira estive a pensar que aquilo de acabar com os faxes é capaz de não ser má ideia bora? bora! e na 4ªfeira desliguem-se os faxes que isto de mandar é mesmo bom e na 5ª feira já estava tudo desligado foi uma limpeza um ver se te avias nunca tinha visto tamanha eficiência desde que ali trabalho e já vai para 23 anos não tarda mesmo com a malta a gritar então e sem faxes como é que fazemos para mandar um fax? então e sem faxes como é que a malta faz para nos mandar um fax? e lá os que mandaram desligar os faxes diziam-nos que nós não éramos nada modernos e que o simplex é mesmo assim é para simplificar e que temos que poupar tempo e papel e que hoje tudo se faz por e-mail não há que enganar e aí nós dissémos ah mas o e-mail é fixe para escrever mas para enviar anexos aquilo pesa e os nossos servidores são fracotes e na volta o correio electrónico entope e aqui na nossa secção só há um scanner para 150 pessoas e temos clientes que pronto estão na idade da pedra mas não têm correio electrónico bom foi tamanha a gritaria nossa e dos clientes que queriam enviar faxes e só ouviam pipipi do outro lado que os que mandaram desligar os faxes lá resolveram então criar uns faxes virtuais que é mais ou menos assim como o e-mail mas funciona com números de telefone por isso dá para enviar correio para faxes e também para receber e prometeram que nos haviam de instalar mais uns scanners para se poderem digitalizar os documentos que têm de se enviar pronto sendo assim está bem o que tem de ser tem muita força albarde-se o burro à vontade do dono e pronto estamos todos muito contentes com o simplex porque agora de cada vez que é preciso mandar um fax é tudo muito mais simples como os tais scanners ainda não vieram vai o Sr. Arlindo à secretaria lá do fundo do corredor e põe-se na bicha dos que estão à espera que o Sr. Feliciano liberte um bocadinho o computador para eles poderem usar o scanner e quando conseguem esse bocadinho já com o Sr. Feliciano a espumar e a dizer palavrões desmancha-se a bicha e andam todos à tapona a ver quem consegue enfiar os papeis no scanner em primeiro lugar e passadas duas horas volta o Sr. Arlindo com um olho negro e os papeis rasgados a dizer que é preciso assinar tudo outra vez porque não lhe correu bem aquilo lá no scanner e então a gente assina e pelo sim pelo não tira umas fotocópias não vão os papeis rasgar-se de novo passadas mais três horas porque entretanto foi o almoço lá volta o Sr. Arlindo a dizer que desta vez conseguiu digitalizar os papeis e que pôs o ficheiro na partilha interna e vai-se a ver o servidor entupiu e tem de se esperar mais um pedacito para ver se a digitalização saíu bem mesmo que esteja um bocadinho torta paciência e lá se consegue enviar o fax pelo tal esquema virtual é um luxo para receber também não há que enganar é só chegar ao pé do Sr. Martins que é quem tem o fax virtual no computador pedir-lhe para ver se chegou algum fax da firma luzesecruzeslda mas como aquilo não tem o nome da firma só tem o número de onde vem e o Sr. Martins ainda não sabe de cor os números de fax de todos os clientes tem de abrir os faxes todos até encontrar o fax da luzesecreuzeslda depois como é preciso dar um registo de entrada é só imprimir o fax e pronto como se vê temos todos a vida facilitada poupamos imenso tempo e energia e papel pois para enviar um fax só são precisas 5 horas e duas fotocópias e para receber bastam 2 horas e uma fotocópia e enquanto não chegam os scanners aproveitámos os faxes para enfeitar com um vaso de begónias em cima e vamos-lhes passando um paninho húmido para não ganharem pó.

será que ouvi bem?

E, de cada vez que me disponho a ver o telejornal sem ser na horizontal, quando não, adormeço (e nem posso dizer que seja da irrelevância das notícias, é do sono mesmo que me dá àquela hora), pois quando me disponho a ver o telejornal, dizia, fico sempre a pensar que vivemos mesmo num país de malucos.

Então agora podem-se fazer obras públicas por ajuste directo até 5.000.000€ (cinco milhões de euros), ou seja até 1.002.410.000$00, ou seja até, contas redondas, um milhão de contos?

Isto uns meses depois de ter entrado em vigor no dia 1 de Julho de 2008 um novo diploma legal que tem entre os seus principais objectivos a obtenção de uma maior transparência na contratação pública e que impõe como limite para o ajuste directo os 150.000€, ou seja 33,(3) vezes menos?

E vem um senhor (desculpem lá, mas assim de repente, só conheço as fronhas do 1º ministro, do das finanças e da da educação), vem um senhor, dizia eu, afirmar de olhos muito abertos e arzinho inocente que, "nahhh, isto não tem nada que ver com estarmos em ano de eleições, isto são directivas comunitárias para desafogar a economia e vencer a crise".

Ah sim? Ah pois...

Vá, digam-me que afinal adormeci mesmo sentadinha e tudo e sonhei isto.

frio

é quando está frio
assim,
quando o abraço é
mais apertado
o beijo mais doce
e o chocolate
mais quente,
que.

janeiro 03, 2009

desejos confessos

madrid, nov 2008

para este ano
(confesso)
queria um amor
em frente e verso

pode ser controverso
conter versos
perversos
ter tempo e contratempo
capa e contracapa
ida e volta
sim e não
mas também
força
e entrega
e paixão

queria que o amor por ti
delícia
fosse um amor por mim
carícia
um amor assim
que (sem malícia)
confesso em verso
num regresso
de mim

janeiro 02, 2009

e a 31 de Dezembro de 2008...

...para que o ano não começasse tão mal para ele como estava a ser o final de 2008, pedi ao veterinário que o enviasse rapidamente para o paraíso dos gatos. Escreveu-me ontem para me dizer que lá no paraíso felino voltou a ter saúde e recuperou os tintins que eu, maldosa e egoistamente, lhe tinha mandado retirar aos 10 meses. Explicou-me que, apesar disso, não me tem rancor. Desde que lá chegou, ainda não parou de comer gatas a sério, pelo que agradece. Fiquei aliviada.





Era lindo, não era? Mesmo, mesmo!

dezembro 31, 2008

juro que não tenho nenhum



Deu-me para isto. Tenho de parar. Sorry. Não resisti a esta. Veio de Beja. É de partir o coco a rir.

dezembro 29, 2008

quando os blogues dão frutos

O meu amigo Pedro é um rapaz dotado para a escrita e para a fotografia. O meu amigo Pedro terá com certeza outros dotes, não duvido, mas estes são os que eu conheço. O Pedro é um poeta de palavras e de imagens e isso pode muito facilmente ver-se num relance e apreciar-se devidamente se por lá nos demorarmos um pedaço mais após o primeiro relance.

A escrita e as imagens do Pedro sairam da blogosfera e foram publicadas, para já, em 3 (três) livrinhos e parece que virão mais a seguir. Ainda não os vi, está para breve, espero eu, mas não tenho qualquer pudor em recomendá-los assim mesmo, certa que estou do seu interesse. Não os vi na minha mão, mas conheço alguns dos textos e das fotografias e GOSTO!

Aqui vos deixo os links para que possam dar uma espreitadela em "Duets", imagens de mão dada duas a duas, "Marinheiro de si", contos contados para serem lidos e "Desenhar no espaço de palavras e tons", fotografias de paredes pintadas que inspiram pensamentos.

Parabéns Pedro! Quando eu for grande, gostava que as minhas palavras também frutificassem. Mas acho que ainda tenho que crescer muito.

a crise chega a todos


dezembro 27, 2008

restos de natal



Foi tão lindo o natal! Como até somos pessoas preocupadas com a natureza e assim, comprámos presentes na Natura. Para que a nossa menina se transforme numa mulher asseada, comprámos-lhe um aspirador de brinquedo. No dia seguinte, limpámos a casa toda. Não ficou um saquinho nem uma caixa para amostra. Os nossos filhos orgulham-se com certeza de nós e do nosso esmerado asseio no lar.



breves de um natal

24 - Últimas compras de manhã, almoço de pizza preguiçosa e lá vamos todos para o natal. Bacalhau com batatas, couves e ovo cozido, decorações a propósito da quadra a começar pelos convivas, vestidos de vermelho em obediência ao curioso pedido da anfitriã.

25 - Almoço nos outros avós. Não me pediram para ir de vermelho, de forma que vou de preto. Perú com um recheio à frente e outro atrás. Levo uma menina de dois anos e meio pela mão a ver as galinhas e a passear pelo pomar. Construímos um castelo com uma pedrinha a fazer de torre e uma folha seca a fazer de bandeira. Gosto das mãozinhas sujas de terra. À noite, jantar de roupa velha e canasta, abraços e beijos.

26 - Almoço tardio algures na linha de Sintra. Regresso a casa para duas horas de veterinário com o gato. Aproveito e levo o cão que tem as vacinas atrasadas. O médico torce o nariz com o mau hálito do cão e aconselha-me uma ida ao dentista para destartarização. Confirmo o mau hálito com uma careta e aceito a sugestão de bom grado, antecipando o sorriso pepsodente que o cão passará a ter. No frigorífico pouca coisa... janto um arroz de grelos e trabalho até às 4 da manhã.

Fim do natal.

poemas ao sábado #7

Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis à boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny

dezembro 22, 2008

natal

Quando eu era pequena, passávamos o Natal em Vila Nova de Ourém que, como outras vilas foi promovida a cidade e passou a chamar-se só Ourém, perdendo o pouco interesse que tinha e passando a ter nenhum, salvo um belíssimo castelo lá no alto do morro em Ourém, então "velha" e agora terra da qual desconheço a adjectivação, mas onde perdura o castelo e as ruelas e casario que o rodeiam.

Em Vila Nova de Ourém viviam:

- quando eu era mesmo pequena, os meus avós, os meus tios com a minha prima, a minha tia solteira e a minha bisavó;

- depois, os meus avós, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- nos últimos anos da minha adolescência, o meu avô, a minha tia viúva com a minha prima, o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira;

- O Natal deixou de se passar em Vila Nova de Ourém há uns anos largos quando já só havia o marido da minha prima mais o filho dos dois e a minha tia solteira.

Desses Natais da minha infância e juventude recordo noites mal dormidas num gelo de lençois húmidos e cobertores de papa pesadíssimos, a casa dos meus tios com um corredor que não acabava, quartos de um lado e de outro virados a norte e a nascente e para poente e sul só paredes sem janelas e tudo aquilo sem mais aquecimento que uma lareira na sala de estar que, quando o vento não estava de feição, ou seja sempre, atirava com rolos de fumo para dentro de casa, pondo todo o clã a tossir e a entrever-se desfocado com os olhos a picar.

O meu tio tinha um armazém de atoalhados e afins de maneira que a minha tia depositava a tarefa de escolher os presentes de Natal num dos empregados do armazém (cheirava a fazenda, pano turco e naftalina, o armazém) e presentava toda a família com embrulhos enormes de papel pardo atados com fitas vermelhas de dentro dos quais saiam panos de cozinha, toalhas turcas, renda a metro, jogos de cama de casal (dois lençois e duas fronhas) e outras utilidades domésticas que eu e os meus primos tínhamos de agradecer fingindo que apreciávamos muito mais ver aumentado o nosso enxoval aos oito anos de idade do que uma porcaria de um action man ou de uma caixa de lego.

O meu avô, que no fim da vida devia ter alzheimer e falava com a minha mãe como se ela fosse o Sr. Abrantes, tardes inteiras a conversar com a minha mãe, Sr. Abrantes, e como vai a família? e a minha mãe, pois vai-se andando menos mal, Sr. Lopes e logo depois o meu avô levantava-se e ia destapar o tacho do bacalhau que estava ao lume à procura da bengala enquanto me perguntava pela enésima vez se eu já tinha acabado o 7º ano e eu já a meio da faculdade. Depois chamava-me de lado, levava-me ao dito corredor sem fim e oh filha, olha para este hotel... olha que tens de dizer à tua mãe que eu não tenho dinheiro para pagar isto tudo...

Eram assim esses Natais.


dezembro 21, 2008

gaston



O Gaston é o meu gato. De entre o que se pode esperar de um gato, é um bom gato. Independente, altivo, talvez um pouco arrogante, curioso, um nadinha burro e bastante egocêntrico. Digamos que é... um gato.

O Gaston está doente. Não está doentinho. Está mesmo doente. Ontem tive a confirmação daquilo que já esperava, pelo resultado das biópsias: tumor maligno, altamente invasivo e criador de metástases. Apareceu há um mês sob a forma de um inchaço numa pata traseira. Amanhã vai fazer ecografias e radiografias para saber se há tumores em mais algum orgão. A veterinária disse-me que, se não houvesse, se podia amputar a pata. "Os gatos adaptam-se muito bem só com 3 patas, fazem uma vida normal." Vou chateá-lo só mais esta vez com os exames por descargo de consciência. Não tenho ilusões. Também havia um quisto no pescoço que se conseguiu tirar, mas tinha a mesma origem. Sei que não vou amputar pata nenhuma ao meu gato. Sei que o "tumor maligno, altamente invasivo e criador de metástases" está irremediavelmente espalhado. Se chegar lá, o Gaston fará 10 anos em Abril. É o gato mais bonito do mundo.



Vou mantê-lo enquanto tiver a vivacidade para fazer o que fez hoje: caçar passarinhos num 6º andar e depositá-los no chão da cozinha, como uma oferta.

dezembro 16, 2008

sósias


Ontem no elevador:

- mãe, já reparaste que o vizinho de baixo é igual ao Ned Flanders?
- quem é o Ned Flanders?
(o nome não me soava estranho, mas... raio de memória)
- é o vizinho dos Simpsons, a única diferença é que o nosso não usa bigode
- eh pá... não é que tens razão? é ingualinho!
- e não é só fisicamente... é no resto também.
- isso já não sei... bom, tem ar de quem vai à missa todos os domingos mas não estou a ver o Ned Flanders a bater com o cabo da vassoura no tecto quando tu tocas baixo até mais tarde ou a ir lá acima em roupão às onze e meia de uma das duas noites por ano em que dou festas lá em casa para se queixar do barulho...
- pois.

dezembro 15, 2008

beijo

do calor
o beijo
o sopro
quentes as mãos
no pescoço
a curva
curva dos dedos
nós
nós dos dedos
medos no olhar
a desvendar raízes
dos cabelos
nos dedos
curva
curva do pescoço
nas mãos

beijo quente
o teu amor