fevereiro 16, 2007

Decompondo a luz - laranja


Claro que há o fruto que dá o nome à cor, e há o pêssego e a nêspera e a abóbora, há um imenso ramalhete de flores, um caranguejo na ria, a falésia a reflectir-se no mar do Algarve e tantas coisas mais.
Há imagens de pessoas com quem me cruzei em diversos lugares vestidas desta cor, meninas a dançar crump, tocadores de instrumentos musicais desconhecidos para mim, um monge que atravessa o meu campo visual ao longe, templos, uma mulher mal equilibrada nas sandálias tradicionais vivendo o sonho de ser gueixa por umas horas, vestida e penteada a rigor.





















Mas falo de uma outra dimensão, não de coisas pequeninas que nos cabem numa mão, não de pessoas nem de casas, mas sim de uma paisagem imensa que um dia me encheu os olhos, de dunas ondulantes de uma areia macia e dourada quando lhe bate o sol.

O ar limpo e seco do deserto deixa-se atravessar sem obstáculos pela luz, pintando a paisagem de fortes contrastes de luz e sombra, em formas que o vento moldou em curvas de corpo de mulher, deixando a superfície da duna lisa e virgem de pegadas.







Subo a duna e é como se fosse a primeira pessoa do mundo a pisá-la, a enterrar os pés nus naquela areia quente. Lá em cima descubro recantos planos no meio das dunas, como ilhas de sal, donde saem troncos de árvores tão secas como tudo o que me rodeia até perder de vista.









Não conheço nada mais laranja neste mundo que as dunas de Sossussvlei na Namíbia.


fevereiro 15, 2007

Andorra outra vez

Lá vou eu outra vez e não gosto. Não gosto do frio, de ficar molhada, de insistir em tentar esquiar e acabar por nunca sair destas pistas aqui de cima, cada dia com as pernas a tremer mais de cansaço e de medo de vir por ali a baixo desgovernada a gritar "CUIDADO!" e acabar por me atirar para o chão para não matar ninguém.
Não gosto de cair, feita parva, nos saca-rabos, de arrastar-me penosamente para o lado para não levar em cima com o que vem a seguir, de ter de tirar os skis de cada vez que caio, pois sou incapaz de me por em pé com aquilo preso às botas.


Não gosto quando os dias estão como este aqui, em que não se vê nada a 10 metros de distância e o vento nos faz bater a neve na cara.

Gosto de grandes espaços, de desertos, de deixar o meu olhar perder-se bem longe e estas montanhas a toda a volta oprimem-me, angustiam-me e assustam-me.

Então porque vou?

Porque ando há dois anos a recusar este prazer ao meu filho e este ano não fui capaz de dizer não outra vez.

Porque quando está sol e consigo esquiar um bocadinho, na descida mais suave, bom, talvez na outra a seguir, sem cair e a fazer tudo bem, sinto-me a maior.

Porque gosto de passar umas horas nas águas quentes da caldeia e vir cá fora ao frio em fato de banho a deitar vapor por todo o lado.

E depois porque posso tirar fotografias como estas aqui em baixo. Toda a cor em preto e branco.



fevereiro 11, 2007

The man I love is Caetano Veloso

Quando George e Ira Gershwin compuseram isto, não imaginavam concerteza que uma das mais bonitas interpretações ia ser, anos mais tarde, de um brasileiro.

Caetano, por favor, não pares nunca!

someday he'll come along
the man I love
and he'll be big and strong
the man I love
and when
he comes my way
I’ll do my best to make him stay
he'll look at me and smile
I’ll understand
and in a little while
he'll take my hand
and though it seems absurd
I know we both won't say a word
maybe I shall meet him Sunday
maybe Monday
maybe not
still I’m sure to meet him one day
maybe Tuesday
will be my good news day
he'll build a little home
just meant for two
from which
I’d never roam
who would, would you?
and so all else above
I’m waiting for the man I love

fevereiro 10, 2007

Dias assim

Há dias assim. Acordamos assim, vamos fazendo as coisas assim, passamos o tempo assim e não saímos disto. Hoje é um dia assim. Faço o que tenho a fazer, mas não tudo, faço o que não tenho de fazer, deambulo pela casa, começo e não acabo, sento-me, levanto-me, decido, desisto, pego num livro que largo a seguir, abro o frigorífico e constato que as prateleiras vazias mas não vou às compras, o cão olha-me de soslaio com um ar de crítica velada, o gato aceita cinco minutos de carícias e não mais.

Parece que tudo me passa ao lado, entre mim e o resto do mundo esta coisa translúcida e viscosa que me embota os sentidos e me impede de sair de mim mesma, de tocar a vida e de por ela ser tocada, de me sentir nos lugares, de trocar olhares, de sentir algo mais que o coração que bate, o sangue que circula nas veias, o cérebro que vagueia sem tino.

Sem tino vai de recordação em recordação, de sonho em sonho, de lugar em lugar.Penso nas pessoas que já passaram pela minha vida, amigos, conhecidos e outros nem isso. Apenas toques de raspão no percurso da vida, por vezes quentes como o fogo, por vezes gelados como a neve, deixando recordações de alegria ou de profunda tristeza.

Talvez por hoje estar a pensar mais nisso que o habitual, me sinta assim, perdida, sem rumo, metida dentro duma concha donde não me apetece sair a não ser para gritar

fevereiro 06, 2007


Perco o medo de soltar os meus sonhos da caixa de Pandora onde os encerrei.

Abro a caixa e eles ficam a flutuar no quarto, lá bem perto do tecto onde não lhes chego, a olharem para mim com sorrisos trocistas e aquele arzinho de como quem diz querias?. Finjo ignorá-los, miro as unhas com mal disfarçado desinteresse, vou até à janela como se o que está lá fora me atraísse, a ver se algum se descuida e se deixa apanhar. De costas voltadas, ouço-os esvoaçar, um restolhar de asas, sussurros que não entendo, uma agitação crescente.

Detestam ser ignorados, os sonhos, e por sabê-lo, faço este jogo de escondidas, só para os desorientar. Estes, para mais, depois de fechados tanto tempo, agora que se apanharam à solta, teimam em chamar-me a atenção mas não querem que eu lhes pegue, talvez com receio que eu os enfie de novo na caixa.

Não é essa porém a minha intenção. Soltei-os porque quero vivê-los de novo, porque me fazem falta, porque a vida sem sonhos não tem qualquer interesse. Fechei-os há uns tempos por medo do que me faziam sentir, por vezes rir, por vezes chorar, por vezes ficar assim quieta, absorta, entretida a acrescentar-lhes mais um pedacinho, a mimá-los, a alimentá-los, a vestir-lhes uma roupa bonita, a penteá-los, a dar-lhes banho, a fazer-lhes festas, e acontece que há alturas em que o coração não aguenta tamanha dedicação. Por isso os encerrei, convencida que poderia viver mais tranquila sem eles.

Só que não posso. Eu não sou eu sem os meus sonhos, por mais absurdos, infantis ou irrealizáveis que possam ser. Sem sonhos, fico parada no tempo, sem ver nenhuma luz ao fundo do túnel para onde avançar.

E assim aqui estou, de testa encostada ao vidro frio da janela, com os sonhos que esvoaçam pelo quarto atrás de mim, até que algum me cuide distraída e me poise no ombro, de forma que eu o possa agarrar e com mil cuidados de novo o alimentar no meu coração.

fevereiro 05, 2007

Contactos sino-lusos

Hoje recebi no meu blog duas visitas da China.
Constato assim que já se vêm resultados positivos da visita do primeiro ministro e sua comitiva ao gigante asiático.

Stop smoking - 3rd week

Bom, nem vale a pena estender-me muito, já que as diferenças em relação à semana anterior são praticamente nulas, excepção feita ao fim-de-semana, em que mantive o ritmo dos outros dias.
Contas feitas, aguento-me durante o dia, mas depois do jantar fraquejo. Não passo de um verme sem força de vontade. De qualquer forma, não desisto. A quantidade de cigarros fumados é substancialmente inferior ao que era há 3 semanas atrás. Espero conseguir esta semana estar nem que seja um dia, sem fumar um único cigarro. Vamos lá a ver. Isto é mesmo difícil, maldita nicotina... bolas.

fevereiro 04, 2007

Acordo ortográfico? Para quê?

Aconteceu-me que um amigo parisiense, fotógrafo, escritor e editor, me pediu para lhe traduzir para português um pequeno livro de bolso sobre a Capoeira. Mais fotografias e legendas que propriamente um grande texto, edição original bilingue (inglês/francês) a facilitar a tarefa (o que não vai por um lado vai pelo outro) e lá acedi de bom grado, amizade é para estas coisas e até me dá um certo gozo este tipo de desafios, já que traduções e escrita não são propriamente a minha área. Lá fiz a tradução, pedi opinião a outro amigo, esse tradutor de verdade, que me deu os ámens e pimba, mail para Paris.

Passaram-se uns mesitos e sexta-feira chega o segundo pedido. "Minha querida" e outros mimos adequados à ocasião, "sabes que isto agora é para editar outra vez em bilingue, mas desta vez em inglês/português, só que o público-alvo é sobretudo brasileiro, de maneira que pedi aqui a um amigo que viveu uns anos no Brasil para adaptar a tua tradução a português do Brasil, vê lá se achas bem?"

Não sei se estão a ver a trapalhada: tradução de inglês/francês para português de Portugal, adaptado para português do Brasil por um francês? Torci o nariz mas lá me enchi de brios, peguei no grande "Novo Aurélio - Dicionário da Língua Portuguesa - Século XXI", a bíblia de qualquer tradutor que se preze e dispus-me à tarefa de verificar gerúndios, partículas possessivas em ordem inversa, eliminação de alguns cês e pês que nos abrem as vogais mas que eles não usam, formas lusas e brasileiras de n palavras, acentos agudos que passam a circunflexos, mais uns tremas para enfeitar e a coisa até que ia andando.

Claro que acabei por concluir que boa vontade e Aurélios não chegam, por mais livros brasileiros que se tenha lido, que telenovelas não consumo, obrigada, e acabei por enviar os textos a uma amiga de um amigo, amizade é para estas coisas, brasileira de verdade e ligada às letras, para desbravar a coisa.

É que por mais acordos ortográficos que tentemos fazer, (será que ainda há quem tente?) a verdade é que esta língua que nos une, à custa do tanto mar que nos separa, cada vez é menos a mesma.

fevereiro 03, 2007

Decompondo a luz - Vermelho

Vermelho.
Lábios, rosas, morangos, cerejas, malaguetas, uma melancia cortada ao meio. Um campo de papoilas. Fogo, calor, vinho. Bandeiras, sinais de trânsito, uma ponte sobre um rio.











Cerveja kingfisher, anúncios em restaurantes de praia, especiarias nos mercados, pintas no meio da testa das mulheres, colares de flores, saris.











Barretinhos nas cabeças de pequenos budas de pedra, dança de leques em Hanoi, templos, estátuas e pinturas de deuses, uma praça em Moscovo.
Balões e estrelas de papel.













Lenços que pela sua forma identificam grupos, guardas fardados a relembrar passados de glória.










Danças modernas e danças antigas nos mesmos palcos da mesma vida.













Vermelho em tantas recordações de tantos lugares.
Céu vermelho quando o sol se põe e já não se vê.
Vermelho é também o sangue que me corre nas veias e me faz bater o coração.


janeiro 28, 2007

Stop smoking - 2nd week

Tenho de confessar aqui publicamente que a coisa não está a correr como desejado.

De um ou dois cigarritos às escondidas depois do jantar, passei para três ou quatro, depois para cinco ou seis, depois mais um a meio da tarde, depois mais outro antes do jantar e pimba, sexta-feira acabaram-se os adesivos e cá estou eu outra vez no meu ritmo habitual.

Mas como assim não se chega a lado nenhum, amanhã vou à farmácia, compro a porcaria dos adesivos e volto ao princípio. Uma lição pelo menos tirei: não se pode fumar nem um, mesmo às escondidas, mesmo depois do jantar, naquela do "é só um". Há que admitir que isto é uma porcaria de um vício, mas é um VÌCIO mesmo, e tem de ser encarado com a seriedade que merece. Não dá para brincar, não dá para abrir uma única excepção. Um fumador será um fumador toda a vida. Tenho uma amiga que esteve 8 (oito) anos sem fumar. Um dia fumou um cigarro. E pronto, foi o fim. Fumadora outra vez.

Ainda por cima, hoje chegou fresquinho de Paris este livrinho:

160 páginas em formato entre o A6 e o A7 que tenciono ler sempre que me apeteça um cigarrito.

Boa ideia, não?

O livro deve ser chato à brava, cheio de conselhos e métodos, e vantagens e desvantagens que estou careca de saber ou não me teria dado a este empreendimento, de forma que talvez assim me apeteça menos, dado que tenho coisas muito mais interessantes para ler.

Bom, boa sorte para mim e até para a semana, espero que com novidades mais interessantes.

Daddy, daddy


Não sei porque me lembrei hoje disto.

No meu livro de curso o meu pai deixou-me este poema:

Foi densa e foi bela
a caminhada
Mas tão breve…
e já tanta
é a saudade

A vida é isto, Teresa:
após o riso, a lágrima,
de certeza.
Ela virá lá bem do coração,
e a voz fica embargada.
É assim o vírus da Tapada.
Tanta e tanta coisa
um dia a recordar.
Verás, filha, verás
vitórias e derrotas
virão lá da penumbra
do sono da distância …
… um som, uma flor …
um beijo …
Mesmo até a canseira
da velha “Rampa da Asneira”
que subiste,
volvidos tantos anos
que a subi.

Firme foi teu passo
certa a jornada
e agora é já
o Sol
a alvorada,
a luz reivindicada,
no Dia que mereces.

E, se tu me continuas,
e és o meu orgulho,
a minha velha esperança,
do mundo
que sonhei (Quando te vi chegar
ao nosso velho berço
onde eu também chorei)
conquista, nesse mundo,
o teu lugar.

Põe uma estrela,
brilhando, no teu Céu,
que nunca mais feneça.
Defende, nele, o Belo e a Justiça.
Ama-te a ti, amando
a vida
à volta.

Sê alma,
e Paz,
e coração.
Cumpre o Destino
… que engloba,
é bem de ver,
o nosso velho berço
a embalar, de manso,
outro menino.


Não sei porque me lembrei hoje disto.
Mas tenho saudades do meu pai e gosto deste poema.
Daddy, daddy, lá onde estás, sabes que tenho tentado cumprir tudo o que com amor me desejaste.

Chegaste como o sol que nasce numa manhã de Verão, primeiro devagarinho, enchendo o mundo de sombras alongadas e difusas e de repente dando vida às cores e calor às coisas.

E de repente entraste na minha vida rectilínea e transformaste o gráfico dos meus dias numa linha sinuosa como um perfil de montanhas em contraluz, picos iluminados e vales sombrios, rios cantantes e lagos de águas paradas e profundas.

Contaste-me da tua vida, das tuas alegrias e tristezas, dos teus sonhos, e dos meus soubeste de olhos nos olhos, de mãos nas mãos e assim me tocaste o coração.

Não me prometeste nada, mas deste-me rosas vermelhas em poemas como sinais de desejo e ensinaste-me que cada homem é um mito. “Gosto de ti, princesa”, dizias. E eu amei-te.

Os anos passaram e agora vais-te afastando, mais lentamente ainda do que quando chegaste e, como o sol que se põe, deixas atrás de ti outras sombras alongadas e frias.

Não entendo a tua linguagem de silêncios, os teus olhos tristes quando chego a casa e me olhas do sofá da sala, guardando em ti em palavras não ditas o que te faz querer sair da minha vida como o sol que se põe, sem um grito, sem um gesto, sem uma lágrima, deixando-me de braços pendurados, a olhar para ti como uma sombra.

janeiro 26, 2007

Delírios


Minhas mãos inúteis sem a tua pele
Percorrem meus lábios que anseiam os teus
Boca vazia sem a tua a abraçar a minha.

Queria beijar cada ponto do teu corpo
E de olhos fechados pintar em ti o meu desejo
E que assim se revelasse o teu por mim

Queria cheirar o perfume dos teus cabelos
Molhar no teu o meu corpo e abraçar-te
E entre suspiros sussurrar no teu ouvido

Tão baixo e tão suavemente
Que as palavras já não fizessem sentido
Apenas ais de delírio como nunca mais

E ao mergulhar os meus olhos nos teus
Se fossem todos os meus medos
Como a areia que me escorre entre os dedos.

janeiro 24, 2007

Todo o tempo do mundo


A lua está fria. E distante. Tudo está longe de mim. O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa. Há coisas a começar e a acabar neste exacto instante, vidas e sonhos, e ondas do mar e estrelas, e palavras e encontros…

E eu estou aqui parada. Não sei se à espera que algo comece ou acabe em mim, ou, se pelo contrário, desejando que tudo permaneça estático, imutável como uma fotografia amarelecida pelo tempo, que captou um instante sem passado nem futuro.

Lá fora o mundo corre apressado, tudo se move num contínuo vai e vem de acontecimentos que passam ao lado deste quarto em que me fechei dentro de mim mesma, indiferentes ao tempo que parou em mim.

Olho pela janela e vejo a vida dos outros como um filme que corre rápido de mais. Num minuto um primeiro beijo, no seguinte um adeus para sempre, as flores que desabrocham e logo os frutos que caem de maduros no chão, a maré cheia e logo vazia, todas as fases da lua numa hora, um ribeiro que já é um rio, um barco que chega e parte sem atracar no cais, o Inverno trocado pelo Verão sem dar tempo ao florir da Primavera.

E eu aqui parada. À espera não sei de quê, num quarto abafado pelo tempo que não passa, longe da vida que corre sem mim e a ver passar a dos outros através duma janela fechada.

Hoje abro a janela e sinto que saio por ela, como que flutuando dentro de uma bola de sabão, ao correr da brisa, envolta num silêncio profundo que é esse meu pequeno mundo. E vejo o outro mundo, aquele em que eu não estou, correndo no seu ritmo real e percebo que todas as coisas têm afinal, o seu tempo próprio. O tempo de nascer e de morrer, de sonhar, de arrumar memórias do passado e desenhar lentamente outro futuro.

Olho para o céu e descubro mais uma estrela, o luar da lua cheia fá-la parecer mais próxima e aquece-me a alma, deixo que as ondas me molhem os pés de cada vez que sobem a praia.

Tenho todo o tempo do mundo.

janeiro 22, 2007

Untill the end of the world

Como tantos outros, também nós nos separámos.
Como poucos, ficámos amigos, unidos por um filho que amamos e por uma cumplicidade que faz com que, à nossa maneira, ainda hoje e tantos anos passados, outras vidas refeitas, nos amemos ainda.

Já bem depois de saires de casa , vieste um dia com um dos teus desenhos, este:

onde escreveste, baseada na tradução livre dos U2 de "Untill the end of the world", isto:

Há muito tempo que não nos víamos
Do meu buraco só vejo passar o tempo
A última vez que estivemos juntos
Estávamos perto como irmãos ou noivos,
Comemos, bebemos vinho,
Todos se estavam a divertir, um pouco,
Excepto eu
Eu só falava do fim do mundo.

Gastei dinheiro, comecei a beber,
Vais ter saudades desses dias,
Se pensares neles.
No nosso rio, o meu papel era
A corrente
Beijei os teus lábios, parti-te
O coração.
E tu portaste-te como se fosse
O fim do mundo

No meu sonho nadava em dor
Dor que me envolvia, que
Entrava dentro de mim, que
Redemoinhava por sobre mim.
No meu naufrágio tentava agarrar-me
Ao mundo que tinha destruído
Tu disseste que esperavas
Até ao fim do mundo.

Chorámos os dois, tu partiste como sempre, e eu guardei o desenho, o poema e o teu amor até ao fim do mundo.

janeiro 21, 2007

Não, mas SIM

Este tipo de propaganda pelo “não” que tem vindo a aparecer de uma forma que é tudo menos discreta pelas ruas de Lisboa, deixa-me absolutamente revoltada pelo modo hipócrita como estes adeptos do “não” tentam baralhar a cabeça dos votantes, nós.

Será que estes senhores sabem exactamente o que vai ser referendado a 11 de Fevereiro? Eu acho que sabem. O problema é que há muita gente que não sabe e para quem este tipo de mensagem pode ter um peso decisivo na hora de depositar o papelinho na urna. E é precisamente com esse factor de ignorância que estes senhores contam. A coisa é de tal forma ignóbil, que me ponho a pensar quais serão as intenções perversas e escondidas destes adeptos do “não”, chegando a ficar repugnada com o que a minha fértil imaginação me oferece, de tal forma que prefiro nem falar nisso.

Será que há alguém moralmente bem formado, defensor dos direitos do homem, defensor da vida, que ache que o aborto é a solução ideal para uma gravidez indesejada? Será que alguma mulher que resolve abortar o faz de ânimo leve assim como quem vai à loja comprar pão, e diz lá em casa: “olhem eu vou ali abortar por opção, mas não me demoro nada, venho já acabar de fazer o jantar”.

Neste referendo, não se está a perguntar às pessoas se são a favor ou contra o aborto. Lá no fundo somos todos contra, ou não? Eu, que vou votar “sim”, posso dizer que não sou a favor do aborto, por razões morais, éticas, de princípio, seja o que for, pouco interessa. Neste referendo, o que nos perguntam é se somos a favor ou contra a despenalização do aborto, a pedido da mulher, até às 10 semanas. É tão diferente como a noite do dia, e daí a hipocrisia subjacente aos cartazes e ao discurso estereotipado dos defensores do “não”.

Enquanto defensores da vida, e no que diz respeito concretamente a esta questão do aborto, qual será, qual deverá ser, o nosso primeiro objectivo? Na minha opinião será o de reduzir a quantidade de abortos praticados, e praticados em condições de risco para as mulheres e as famílias.

Vejamos a situação actual: Quem quer fazer um aborto, faz. E fá-lo, basicamente, de duas maneiras possíveis. Ou tem uns dinheirinhos e vai ali a Badajoz, ou não tem e vai à parteira clandestina lá do bairro. Para quem vai a Badajoz, a coisa fica resolvida sem problemas. Para as outras, para além do enorme risco de se submeterem a uma intervenção cirúrgica feita sem o mínimo de cuidados e de dignidade pela pessoa humana, ainda se sujeitam a uma pena de prisão.

Então e se o "sim" ganhar e a legislação for alterada? Bom, quem quer fazer um aborto, faz. Aqui estamos na mesma. Só que:

1 – Fá-lo num estabelecimento hospitalar, com condições de higiene e segurança, não pondo em risco a sua própria vida ou a possibilidade de vir a ter filhos mais tarde (quantas vezes um aborto mal feito provoca a esterilidade da mulher).

2 – Fá-lo após aconselhamento psicológico em que se procura que a mulher esteja absolutamente segura da bondade da sua decisão e em que lhe podem ser dadas alternativas que transformem uma gravidez inicialmente indesejada, numa gravidez que pode chegar a termo, como ajuda financeira durante o período de gestação, ajuda a arranjar emprego, aconselhamento no sentido de gerar a criança e dá-la para adopção, aconselhamento sobre como evitar futuras gravidezes mediante métodos anticoncepcionais adequados and so on and on and on.

Visto isto desta forma, que me parece a forma de encarar esta questão de acordo com a realidade que temos, sem esconder a cabeça na areia, quem defende mais a vida, da mulher e da criança?

Quem conscientemente vota pela despenalização ou quem mistura princípios morais e utiliza apelos de fazer chorar as pedrinhas da calçada, com o único intuito de confundir as pessoas?

Sonhos


Apago a luz, viro-me para o lado, estendo o braço e os lençois do outro lado estão frios.

De repente, sinto a porta do quarto que se entreabe, um salto para cima da cama, o peso de alguém que se acomoda a meu lado e um toque na minha cara, perto da boca, perto do olho, dois toques, três toques a pedir um afago.

Mesmo com cuidado, o toque arranha ligeiramente.

Tiro o braço para fora, mergulho os dedos no pelo macio, acaricio entre as orelhas, debaixo do queixo, nas costas.

Adormeço com o ronronar perto do meu ouvido e sonho contigo.

janeiro 19, 2007

Fobias

Um destes dias o meu filho, que está naquela fase de querer formar uma banda de garagem com uns amigos para a qual procura desesperadamente um nome, mostrou-me este sítio.

Graças a ele descobri muitas coisas interessantes sobre mim e os outros.

Por exemplo, sei agora que não sofro de polifobia nem de afobia, mas a frequência com que tomo banho, sobretudo no verão, levam-me a pensar que talvez tenha uma certa tendência para a automisofobia.

Como vivo em Lisboa, seria completamente tonto ter ursolofobia, mas compreendo perfeitamente que a possa ter quem viva no Alasca ou quem trabalhe no jardim zoológico. Será aí, não propriamente uma fobia mas um medo real. Uma vez vi uma senhora a correr deseperadamente pela Av. da Liberdade abaixo a olhar para trás com um ar aterrado. Agora penso que tinha ursolofobia ou, quem sabe, quifofobia. Eleuterofobia é que não tinha de certeza, senão aposto que tinha descido antes pela Almirante Reis.

De venutrafobia não sofro, a menos que a dita cuja resolva pôr-se a olhar para o meu marido com um ar libidinoso. Nestas ocasiões, minto, e digo à tipa que ele é um incurável crematófobo e, se quiser ser mesmo mazinha, acrescento que os comprimidos que ele anda a tomar para a caetofobia não estão a dar muito resultado, pelo que ela que, está bem, é bonita, mas tem uma abundante penugem nos braços, escusa de ter ilusões.

A minha entomofobia resume-se às baratas e é mesmo forte: grito, paraliso (demonstrando que não tenho quifofobia), fico com os pelos em pé e sou incapaz de lhes pôr um pé em cima (das baratas, não dos pelos). Acho que preciso de umas sessões de terapia. Pelo contrário, estou longe de ter mirmecofobia e é com grande coragem que ataco os carreiros com insecticida.

Foi através desta página que percebi que a minha aversão à palavra “sovaco” (até escrevê-la me incomoda) pode ser um sintoma de uma onomatofobia incipiente. A confirmá-lo, a impressão que tenho de padecer também de hipopotomonstrosesquipedaliofobia, afinal são fobias do mesmo foro, dada a dificuldade que tive quando tentei aprender alemão e a minha relutância em marcar consulta para o otorrinolaringologista, por mais que me doam os ouvidos.

O dinheirão que gasto em cremes, de dia, de noite, de contorno dos olhos, de corpo, de mãos, em tónicos, em seruns e em toda uma parafernália de loções, só pode significar que tenho uma forte ritifobia.

Quando era pequenina tinha coulrofobia, mas nunca me foi diagnosticada. Apenas percebo agora porque razão continuo a detestar o circo. No entanto, não me recordo de alguma vez ter tido um episódio, mesmo que fugaz de paderofobia.

Não tenho de certeza deipnofobia, mas faço uso duma mageirocofobia inexistente quando a preguiça me impede de fazer o jantar. Aproveito, digo que me sinto particularmente mageirocófoba e lá vamos todos jantar fora, evitando as ostras que, por me terem provocado sempre grandes indisposições das últimas vezes que as comi, me transformaram numa ostraconófoba declarada.

Sei agora que um colega de abundante cabeleira e que de cada vez que me encontra me pergunta se eu não noto a sua crescente falta de cabelo, padece com toda a certeza de falacrofobia ou então de catoptrofobia.

Quando transporto sacos, malas ou carteiras, faço-o normalmente do lado direito o que prova a ausência de dextrofobia.

Julgo que haveria ainda muito para dizer, mas o texto já vai longo, tal como a minha falta de paciência.

Apenas posso acrescentar que não tenho de certeza: sarmassofobia, hedonofobia, filemafobia nem escopofobia, antes pelo contrário.

Também não tenho metrofobia, gnosiofobia, ideofobia nem fronemofobia.

E não tenho, de certezinha absoluta, e ao contrário de muita gente, metatesiofobia.

janeiro 18, 2007

Stop smoking - first week



Stop smoking, fumar mata, os fumadores morrem prematuramente, proteja as crianças: não as obrigue a respirar o seu fumo, e mais a massa que se gasta, e a roupa e a casa a cheirar a tabacum, e a boca de manhã a saber a cinzeiro e videos como este aqui em cima, e alimentar as multinacionais, e a saúde, e o cancro do pulmão, e a pele, e sei lá que mais, e pronto lá me decidi.

Desde dia 12 que, graças a uns adesivos que vou conscienciosamente colando em diferentes partes do corpo, passei de um maço e meio por dia, às vezes mais, a um ou dois cigarritos fumados às escondidas depois do jantar.

O facto é que, mesmo assim, custa como o caraças. Então decidi, para não me esquecer, deixar aqui registadas de vez em quando, algumas das diferenças que vou sentindo:

1 - Tusso francamente menos;
2 - Canso-me menos a subir escadas, e rampas, e ladeiras e tal;
3 - A minha casa e o meu gabinete de trabalho cheiram menos mal;
4 - Talvez seja boa vontade minha, mas acho que tenho a pele com melhor.

E para já é tudo


janeiro 16, 2007

Sorriso

Guardo no bolso preciosidades que fui colhendo ao longo da vida.

Pedrinhas, conchas, um pequeno porta chaves com um mundo de coca-cola que um amor antigo me deu, flores secas em papelinhos que apanhei em vários pontos do mundo, dezenas de pequeninos ovos de chocolate na minha caixa do correio numa Páscoa já distante, o meu nome escrito à socapa no troço do muro de Berlim que esteve exposto no CCB, uma fotografia do meu pai, bilhetinhos de amor trocados nos bancos da escola, olhares, sabores, beijos, sorrisos, sussurros na orelha, palavras de amor ditas e ouvidas, afagos que dei e recebi.


São tantas as coisas, que quando quero alguma, muitas vezes tenho de tirar tudo para fora e, depois de muita busca por meio do cotão e dos restos de migalhas, lá consigo encontrar o que procuro. Nessas alturas, aproveito para limpar tudo, tirar o cotão e as migalhas, e relembrar em cada objecto a memória que me fez guardá-lo.

Este sorriso foi das últimas coisas que guardei no bolso. Como está lá há pouco tempo, é fácil de encontrar. Ainda está por cima das outras coisas, (não lhes tenho mexido muito ultimamente), esperando que outras preciosidades se lhe juntem e o empurrem um pouco mais para o fundo, até nova arrumadela.

Gosto de sorrisos e deste em especial pois roubei-o quando olhava para mim. É bonito este sorriso e de cada vez que o tiro do bolso para o olhar, algo se liquefaz no meu peito e sinto-me feliz.

janeiro 15, 2007


Nos dias seguintes à execução de Sadam Hussein, pelos menos três crianças enforcaram-se em diferentes pontos do mundo. Porque brincavam e tiveram azar ou porque queriam experimentar a dor do agora mártir.

No dia 11 de Janeiro em Paris, M, após dois dias sem notícias de S, a sua namorada, foi encontrá-la pendurada pelo pescoço no tecto do seu apartamento, bem aprumada e vestida, fugindo da única maneira que foi capaz a um desgosto de amor, tão enforcada como os outros e deixando M com a culpa a dilacerar-lhe a alma.

Ontem, a mulher de J, não resistiu a um cancro. Decerto que não escolheu, como S, esta saída. Com 40 anos, deixou dois filhos pequenos e um marido com o olhar espantado de quem não percebe o que lhe aconteceu.

Não sei porque estas coisas se ligam na minha cabeça, apenas a morte as une, mas não é esse o fim que nos liga a todos?

A água sobe e desce na nora, num perpétuo e equilibrado movimento sem fim, o peso que faz descer um lado impele o outro a subir.

Como o peso da morte e a leveza da vida para uns, pode ser a leveza da morte e o peso da vida para outros. Aparentemente opostos, mas, tal como a nora, num perpétuo movimento sem fim.

Não sei que diga mais. Talvez, uma banalidade, como, sejamos como a hera e agarremo-nos à VIDA.


janeiro 14, 2007

Origamis pela Paz

Quando tinha quatro ou cinco anos aprendi a fazer estes grous de papel no jardim infantil. Ensinaram-me bem, pois nunca mais me esqueci. O que não me ensinaram, foi que em Hiroshima, depois da bomba, uma menina sobrevivente acreditou que se conseguisse fazer 1000 grous de papel se salvaria. (No Japão, o grou é um símbolo de felicidade e longevidade).
Vi os grous que ela fez no Museu Memorial da Paz em Hiroshima, pequeninos como seriam certamente pequeninos os seus dedos e, inevitavelmente, comovi-me com esta história. Desconheço se chegou aos mil, mas sei que não sobreviveu. Esta história tornou-se conhecida e ainda hoje o monumento Paz das Crianças, perto do museu, está sempre rodeado de milhares de grous de papel, feitos por crianças de todo o Japão, como um apelo à paz em todo o mundo.
Agora, que começa um novo ano, não seria bom que alguns senhores deste planeta aprendessem a fazer grous de papel?


janeiro 12, 2007

Também gosto de Tom Jobim... com Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Gosto mesmo de Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Gosto de Vinícius de Moraes

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

janeiro 06, 2007

Ela abraçou-se a ele e disse baixinho “deixa-me amar-te”.

Ele não respondeu. Durante muito tempo sentira a falta de afecto, da ternura de alguém que, como ela, conseguisse entrar em si e compreender todo o seu eu. Sentia-se só, incompreendido, mal amado, estranho na sua própria casa, como mais um quadro na parede ao qual a mulher limpava escrupulosamente o pó e que as vizinhas sempre comentavam quando iam lá a casa “que belo quadro Amélia, que lindo fica aqui na tua sala”, ou como um anel, um colar que a mulher usava quando saía e mostrava às amigas que logo “que bem que te ficam essas jóias, Amélia”.

Estranho na sua própria casa, ocupava o seu tempo com pequenas coisas que lhe davam prazer e o isolavam daquele mundo que era o dele e Amélia.

Uma colecção de selos que manuseava com mil cuidados de pinça e lupa, registando datas, descobrindo motivos, decifrando na enciclopédia o significado de nomes exóticos de animais, plantas e lugares.

Um aquário que mantinha imaculadamente limpo e para onde olhava perdido durante horas, observando o eterno vaivém dos peixinhos coloridos brincando com as bolhinhas de ar que saíam de um búzio que encontrara na praia.

As plantas em vasos na varanda, que regava, a que cortava as folhas secas e das quais aguardava a chegada das primeiras flores em cada primavera.

Sentia-se só, estranho na sua própria casa, mal amado, mas ao longo dos anos construíra um muro à sua volta onde raramente deixava entrar quem quer que fosse. E, se de vez em quando, muito de vez em quando, aparecia alguém, como ela, a quem, numa esforçada tentativa de mudança, ele deixava abrir uma pequena brecha no muro da cidadela em que deliberadamente se encerrara, se abraçava a ele e dizia “deixa-me amar-te”, acabava por fazer sempre o mesmo.

E foi o mesmo que fez daquela vez. Não disse nada, soltou-se suavemente do abraço, pegou em tijolos, cimento, areia e água e voltou a fechar o muro. Lá no fundo sabia que, embora se sentisse mal amado, estranho na sua própria casa, carente de ternuras e afectos, era apenas assim que gostava e sabia estar. Pois que, ao fim de tantos anos a sentir-se como um quadro ou uma jóia de Amélia, perdera a capacidade de saber receber qualquer manifestação de afecto sem se sentir deslocado do lugar que sempre fora o seu. Ela, ficou do lado de fora, com o coração cheio de nada a dizer baixinho para o muro fechado: “eu sei que te podia fazer feliz”.

janeiro 05, 2007

Desenho de Movimento

Outubro 2006


Desde que me lembro de ser gente que gosto de fazer desenhos. Infelizmente, Deus, ou mais provavelmente o código genético que me foi legado pelos meus pais, não me dotaram com o talento correspondente ao prazer que tenho em desenhar. Rabisco sempre que posso. Na toalha de mesa do restaurante, na sala de espera do consultório, em entediantes reuniões que não acabam, no comboio, no avião. Os resultados não são propriamente assustadores, mas estão longe de interessar quem quer que seja para além de mim própria e, mesmo a mim, satisfazem muito pouco.

Novembro 2006
De forma que este ano concretizei finalmente um desejo já antigo e inscrevi-me no curso de desenho da SNBA.

O programa é rígido, o grau de liberdade praticamente nulo. Logo na primeira sessão somos convidados a esquecer tudo o que fizemos antes, todos os conceitos e preconceitos relativos ao
desenho e abrir a cabeça à abordagem que nos é proposta.

As sessões são de duas horas, invariavelmente de modelo nu. A primeira parte consiste sempre num “aquecimento” que dura cerca de 20 minutos. Durante esse tempo o exercício é sempre o mesmo: “desenho de movimento”. Isto significa que o modelo se move continua e rapidamente e ao aprendiz de desenhador cabe captar um momento, fixá-lo na memória e desenhá-lo num minuto, dando a ideia de movimento. O lápis deve correr solto pelo papel numa única linha contínua, ora mais leve, ora mais pesada, evitando seguir os contornos da figura.

Janeiro 2007
Em dois meses sinto que já fiz progressos. Os primeiros desenhos, carregados de linhas que se repetem, tornam-se agora mais leves e mais expressivos, a mão trabalha mais solta, as imagens fixam-se melhor na memória.

Mas, acima de tudo, nestas duas idas semanais à SNBA, por pior que tenha sido o meu dia, por mais preocupações que tenha, naquelas duas horas liberto a cabeça de tudo o resto, concentro-me na folha branca à minha frente onde aos poucos se vão delineando as formas, ouço no silêncio da sala apenas o riscar dos lápis, mais suaves, mais vigorosos, consoante as posições que o modelo vai tomando nos inspiram.


janeiro 04, 2007

Quando, por qualquer motivo, sinto que preciso de estar um pouco só comigo própria, pego no carro e vou para a beira-rio.

Conforta-me descansar os olhos nas águas mansas do Tejo.

Vejo barcos que passam, pescadores, pessoas que passeiam ou apanham sol, outros solitários sentados nos bancos ou vagueando por ali e dou comigo a pensar: de quantas lágrimas é feita esta água?

janeiro 03, 2007

Diálogos Secretos


Vá lá, só mais uma vez, por favor,
já não aguento mais....
Tira-me este pombo da cabeça.....





É que nem penses. Já viste o que me aconteceu da última?
O safado levou-me quatro dedos!


Ouvi dizer que o arco-iris tinha entrado no coração de um homem e por lá ficara. Talvez por isso e, apesar de o sol, as nuvens e a chuva se conjugarem de forma propícia, não o tenha visto ultimamente.

Do boato constava também que, a partir daquele momento, este homem se reconciliara com a vida e que passara a sorrir sem razão aparente.

Este facto, que um homem tenha aprisionado o arco-iris no seu coração, pareceu-me notícia digna de merecer a atenção dos media, dado que, a confirmar-se privaria o resto da humanidade de poder contemplá-lo e usufruir da sua magia. No entanto, sobre este assunto, não li nada nos jornais, não vi nada na televisão, não ouvi nada na rádio, não vi sequer cartazes nas ruas dando conta da ocorrência, daí que me tenha permitido duvidar da veracidade da informação.

Mas o que é certo é que, efectivamente, o arco-iris nunca mais foi visto.

Andei preocupada durante uns dias até que hoje, subitamente senti a luz e o calor a entrarem devagarinho no meu peito e a iluminarem a minha alma. Foi quando o vi, cruzando o céu de Oeste para Leste em toda a sua plenitude e aterrando em mim.

Concluí então que o arco-iris salta incessantemente de coração em coração e apenas se deixa ver no exacto momento em que os seus dois extremos habitam simultaneamente os corações de dois seres que aprenderam a sorrir sem razão.

janeiro 01, 2007

GRAFFITTIS



Gosto de graffittis. Gosto de os fotografar. Gosto de ler as mensagens deixadas por anónimos a outros anónimos, mensagens de raiva, de amor,


de desejos, por vezes simples necessidade de deixar uma marca própria nos muros da cidade, de repente transformados em telegramas, em pinturas sem jeito, por vezes em obras de arte. Gosto do lado clandestino de fazer uma coisa proibida, de imaginar sombras a correr no escuro da noite tropeçando em latas de tinta e pincéis, esquecendo sprays e moldes para trás.


Quero muito quê - dinheiro?

Um dia destes passei em frente do El Corte Inglês e, pintada a letras amarelas nos separadores de plástico que condicionam o trânsito durante as obras que ali se arrastam, a frase “Ângela, por favor sê feliz comigo”. Imaginei a Ângela a sair cansada das oito horas atrás do balcão para apanhar o autocarro e deparar-se com aquela prova de amor supremo: “Ângela, por favor sê feliz comigo”. Ele não pede que ela lhe dê nada, não exige nada, apenas quer que ela seja feliz e com ele. Se eu fosse a Ângela e este rapaz me agradasse, corria sem hesitações para os seus braços. Que mais pode uma mulher querer dum homem do que ele tenha como maior desejo o fazê-la feliz e não se envergonhe do o dizer, em letras garrafais a quem passa?
E depois, às vezes, ganhamos destas surpresas.
Ainda hoje tenho dúvidas se quem me ofereceu esta fotografia, encontrou isto assim, por um acaso da vida, ou se, também clandestino e pela calada da noite, lá foi deixar esta mensagem, expressamente para mim. Prefiro pensar que foi esta última hipótese.

E, malgrado a barafunda em que muitas paredes se transformam, a trabalheira que é para os serviços municipais limpar e voltar a limpar as paredes (e este lado efémero dos graffittis também me encanta), a falta de respeito que muitos “autores” demonstram por determinados locais, deixando mensagens em monumentos e estatuária, continuo a gostar de graffittis e a fotografá-los sempre que posso.


dezembro 31, 2006

princípio, meio, fim

Assim como há dias vazios nas nossas vidas, há outros em que uma série de pequenas coisas, aparentemente sem qualquer relação umas com as outras, se interligam nas nossas cabeças, juntando-se num todo que parece trazer um outro significado à existência.

Ontem levei o meu cão comigo para o trabalho, coisa que raramente faço, deixei-o um pouco à solta na área de estacionamento e depósito de materiais diversos que circunda o edifício, esperando que ele depois viesse ter comigo. Como qualquer rafeiro manhoso, o animal é esperto. Eu é que vou perdendo qualidades e bom, nunca mais me lembrei dele a não ser quando, chegada a casa para almoçar com o meu filho, reparei que me faltava o bicho. Voltámos para trás, o miúdo numa aflição, prevendo a irremediável perda do cão que ele imaginava já em Algés, eu a tranquilizá-lo com os porteiros que vigiam o portão de entrada no recinto, mas também com o coração pequenino. Chegados ao local do crime e indagados os porteiros: “os senhores viram o meu cão?”, tranquilizou-nos a resposta breve: “Andou por aí a manhã toda atrás duma cadela. Está lá para trás”. Suspiro de alívio, lá rolámos devagarinho, até que o vimos ao fundo mais a bicha, os dois com um ar culpado mas satisfeito. Apanhá-lo foi um desassossego. Para a frente, para trás, inversão de marcha pelo meio de restos de candeeiros e bancos de jardim, chamá-lo era o mesmo que falar com uma porta, a solução foi o meu filho correr atrás dele e pegá-lo ao colo. Vinha suado, sujo, ofegante, com o pelo todo enrodilhado e um inegável sorriso. Tinha perdido a virgindade.

Chegada a casa deparo-me com uma cena de filme. Dois homens de fato e gravata pretos transportavam para fora do prédio e dentro de uma espécie de saco-cama cinzento plastificado algo que só podia ser um corpo. Percebi que era a velha do 4º Dto, quando me cruzei mais tarde no elevador com a filha e o genro, de ar enlutado e pesaroso. A morte dos velhos faz parte da ordem natural das coisas, mas mesmo assim fiquei abatida. Ainda há dois dias tinha visto a senhora, aprumadíssima como sempre, revelando por trás das rugas e da pintura discreta, um rosto que devia ter sido belíssimo na juventude. Agora, tinha perdido a vida.

À noite, respondendo ao apelo de uma amiga, fui a uma discoteca de música africana. Gosto destes sítios onde impera uma certa descontracção, onde a sensualidade da música convida à dança, desconhecidos nos convidam para uma morna ou um funáná e, de par em par e com umas caipirinhas pelo meio vamos desapertando as grilhetas que nos amarram a formas de vida estereotipadas, esquecendo as preocupações, tristezas e trapalhadas da vida que construímos tantas vezes apenas no nosso imaginário. Saí de lá com a certeza que a vida é tão sagrada que não podemos perder um minuto que seja a vivê-la mal vivida.

Foi assim este dia: um princípio, um fim e um meio, que me fizeram pensar que não é preciso esperar pelo dia 1 de Janeiro para fazer uma lista de “objectivos a cumprir no novo ano”. Todos os dias podem ser o início de um novo ano, dias de mudança. Mudança para uma vida vivida com alegria, fazendo por soltar as amarras das coisas que nos entristecem e partir em frente como um barco que ligeiro abandona o cais sem saber se algum dia voltará ao mesmo porto, liberto da carga que quase o afundava.

dezembro 30, 2006

SMS'S

Nesta altura do ano as companhias telefónicas devem ver aumentar grandemente os seus lucros à conta da enorme quantidade de mensagens de desejos de bom natal e bom ano que toda a gente envia. No Natal, ao qual tento escapar-me em tudo o que posso, limitando-me a restritas obrigações familiares, apenas respondi a quem me enviou mensagens, por uma questão de delicadeza, com uma fórmula igual para quase todos, excepto para aqueles que me são mais chegados.

Mas quanto ao Ano Novo, juntei-me aos milhares que contribuem para os fundos das várias Telecomes e enviei aos meus amigos e conhecidos uma mensagem que rezava assim:

As pessoas com classe e que sabem o que querem preferem "ANO NOVO". Por isso, a todos os meus amigos recomendo: não espere pelos saldos. Compre já: "ANO NOVO", à venda numa banca perto de si. Beijos da TCL.

Depois, esperei pelas respostas. Tive de tudo:

- Os que não responderam.

- Os que responderam com uma mensagem "tipo" das que se enviam a toda a gente, do estilo: "Feliz ano novo com muita saúde e alegria". Ok, melhor do que nada.

- Os que responderam com uma mensagem mais personalizada, demonstrando q podem perder 5 minutos do seu precioso tempo com um "Querida tcl, muito obrigada e tudo de bom para ti também". Melhor.

- E depois aqueles que, correspondendo à minha ideia, me enviaram coisas com piada e imaginação. A esses agradeço e deixo aqui alguns dos exemplos que me fizeram soltar umas boas gargalhadas:

"Já sabia e até já tinha comprado. Eu sou logo das primeiras., que é para não esgotar. Até comprei dois para o caso de um não estar bom."

"Andas atrasada! Já comprei, faz agora um ano... Não compro mais outro, há que resistir à sociedade de consumo"

"Obrigada pela dica! Vou a correr à banca, apesar do meu poder de compra estar deveras comprometido com o chomage..."

"Porque hei-de comprar mesmo em saldo, se posso ter um Ano Novo grátis? Mas agradeço! E já compraste o teu?"

E pronto.

dezembro 26, 2006

CÁ-TE ESPERO

Saio pela noite da cidade ao som de todas as músicas que já ouvi e que se baralham na minha cabeça em novas melodias a descompasso, em busca de traços da nossa presença. Esbarro nas esquinas com memórias do passado, flashes do presente e sonhos do futuro e ficamos ali os quatro, com vénias e com licenças a ver quem passa primeiro e acabo por voltar para trás, pelos caminhos já feitos, repisando os mesmos passos, num eterno labirinto de que não encontro a saída.

Subo e desço ruas e avenidas procurando o teu nome abraçado ao meu, as tuas pegadas ao lado das minhas, marcas dos teus e dos meus dedos nas paredes das casas, nas montras das lojas, nos corrimãos das escadas.

Procuro pelos muros sombras de abraços, restos de beijos, ecos de palavras murmuradas num assomo de desejo.

E nesta busca passo as noites, em sonhos de vigília até que chegue o dia e a luz da manhã de novo me traga a realidade da tua ausência.

dezembro 16, 2006

Abrir o coração

Abri o coração e deixei-te entrar. De início a porta não queria ceder, dobradiças perras da falta de uso, mas vinhas com aquele óleo infalível feito de palavras doces, de olhares de desejo, de sorrisos cúmplices e então ela abriu-se de mansinho sem um ruído e tu entraste.

Para que te sentisses bem, limpei o pó, as teias de aranha, tirei os lençóis de cima dos sofás, abri as janelas, deixei entrar o sol e o calor, pus flores frescas nas jarras com água limpa. Ficou como novo o coração, cheio de luz, confortável e acolhedor. Viste as caixas onde guardo os amores, os carinhos e ternuras, as alegrias e tristezas, mexeste em todo o lado com um ar curioso, passeaste pelas aurículas e ventrículos, espreitaste pela aorta, avançaste um bocadinho pela veia cava superior mas não te interessaste muito pela inferior, talvez com medo de cair. Achei a tua presença agradável, deixei-te ficar e tu instalaste-te com o pouco que tinhas trazido contigo e uma cópia da chave que te dei.

Passados uns dias, perguntaste se podias dar um saltinho à cabeça. Hesitei, pois parecia-me que estavas bem no coração, mas acabei por te mostrar o caminho. Não era difícil e, mesmo sem mapa, chegaste lá num instantinho e sem te enganares uma só vez. Achei graça, pois tinhas-me dito que o teu sentido de orientação não era grande coisa. Percorreste as circunvoluções, paraste nalgumas memórias, interessaste-te pelos raciocínios lógicos e pelas abstracções, questionaste alguns pensamentos e razões e, sem que eu desse por isso, foste tirando as coisas do lugar, deixando-as espalhadas por aqui e por ali. Não me preocupei, pois estava a gostar de observar a tua curiosidade e pensei que depois, quando tivesse tempo, logo arrumaria tudo.

Embora nem sempre te veja, sinto o rasto da tua presença, o teu cheiro, o teu calor, vejo as tuas pegadas, a tua sombra a dobrar uma esquina e, por mais que arrume, encontro sempre alguma coisa fora do lugar, por isso sei que continuas a andar por aqui.

Por enquanto, não mudo a fechadura. Gosto de te ter por cá. São estas marcas da tua presença que me fazem manter as janelas abertas, mudar as flores da jarra, limpar o pó, impedir que se formem de novo teias de aranha e olear as dobradiças da porta.

É bom abrir o coração e deixar alguém entrar e desarrumar um pouco a nossa vida. É isso que nos faz estar VIVOS.

E tu? Quando foi a última vez que abriste o coração?

dezembro 13, 2006

A bolsa

Da minha mesa habitual do pequeno-almoço, vejo-a subir a rua.

Calças brancas bem justas de cintura descaída, camisola preta cintada, botas e cinto da mesma cor, as botas de cano alto por fora das calças, o cinto largo com estrelinhas de metal, bolsinha debaixo do sovaco, parece ignorar os 7º matinais.

Entra no café e BOM DIA! O estabelecimento não justifica tantos decibéis, um balcão e 3 mesinhas, mas ela detesta passar despercebida. Senta-se de perninha cruzada, tronco serpenteante, pousa a bolsinha e SR. ARMANDO ERA UM CAFÉ SE FAZ FAVOR.

Eu levanto o sobrolho detrás do meu jornal, a velha dos sudokus dá mais uma passa, apaga um 3, prefere um 5, hesita, rói o lápis e acaba por se decidir por um 7. Em suma, não lhe liga peva.

Ela não se deixa impressionar pela indiferença dos circunstantes, dedinho espetado na asa da chávena e ESTA ZONA AQUI É MUITO PERIGOSA, NÂO É? Ausência de respostas e IMAGINEM QUE NA SEXTA-FEIRA FUI ASSALTADA ALI DEFRONTE DO MEU SALÃO. Aqui marcou pontos. Eu e a velha dos sudokus levantámos as cabeças o que lhe deu alento para POIS ESTAVA ALI À ESPERA DE TAXI E LEVARAM-ME A BOLSA. Mas onde?, mas como?, pergunta a Graciete empregada de mesa. ESTAVA ALI NA RUA COM UMA BOLSA IGUAL A ESTA DEBAIXO DO BRAÇO, ASSIM, levanta-se e exemplifica, E VIERAM UNS NUMA MOTA E LEVARAM-ME A BOLSA.

Pois, nesse preparo estavas mesmo a pedi-las, digo eu para o meu jornal, quem é que se lembra de se por no meio da estrada de corpinho bem feito com uma bolsinha ensovacada?

A velha dos sudokus tartamudeia qualquer coisa que não percebo e POIS EU ACHO ESTA ZONA MUITO PERIGOSA. ALI A D. ETELVINA MELLO, vira-se para mim e CONHECE? abano a cabeça, UMA SENHORA TAMBÉM VELHOTA, pata na poça, repara na velha dos sudokus e acrescenta PARA AÍ COM 91 ANOS, QUE ANDA SEMPRE COM UMA CRIADA FARDADA, para mim outra vez, MAS NÃO CONHECE???, bolas, não, abano de novo a cabeça, JÁ FOI ASSALTADA 3 VEZES, POIS FOI. OLHE, EU ATÉ VOU CONTRATAR SEGURANÇA PARA O MEU SALÃO. E NA SEXTA-FEIRA ESTIVE MESMO PARA CHAMAR A POLÍCIA. SÓ NÃO CHAMEI PORQUE NO DIA SEGUINTE VINHA LOGO NOS JORNAIS TODOS QUE EU TINHA SIDO ASSALTADA, AH POIS VINHA, POR ISSO NÃO CHAMEI, QUE EU NÃO QUERIA ESTA HISTÓRIA NOS JORNAIS. De referir que a mulher, efectivamente, penteia metade do jetset.

E para mim outra vez MAS NÃO ACHA ESTA ZONA PERIGOSA? Eu lá respondo com um não, não acho, aliás passeio o meu cão muitas vezes à 1 ou 2 da manhã e nunca tive qualquer problema. AI SIM? POIS OLHE, EU, TINHA MEDO. Não sei que responder e rebolo os olhos detrás do meu jornal.
SR. ARMANDO, A MINHA CONTA SE FAZ FAVOR. ENTÃO BOM DIA.

Olho pela vitrina, vejo-a a descer a rua rebolando as ancas, de bolsinha debaixo do braço, segura de que todos a olham e digo ao meu jornal: não tarda, levam-lhe a bela da bolsa outra vez.

Retorno à leitura das notícias do dia, no silêncio agora pacato do café, onde se ouve apenas o riscar do lápis e o safa safa da borracha no livrinho dos sudokus.

dezembro 10, 2006

Carta ao Menino Jesus (2)


Querido Menino Jesus

Para este Natal queria:

- um saco cheio de amor aos pedaços, donde eu pudesse ir tirando um cada dia e, devagarinho, muito devagarinho, fosse construindo um amor inteiro de pedaços feito e que de tão bem feito não se desmanchasse nunca mais;

- uma caixa embrulhada em papel vermelho, de laçarote verde, e dentro da caixa milhares de beijos bem dados exigindo resposta de igual qualidade;

- um manto de ternura que me cobrisse da cabeça aos pés sempre que me sentisse tão irremediavelmente só como me sinto agora, e debaixo do manto o meu amor tão carente de mim como eu dele;

- um enorme baú pleno de olhares e conversas, de sorrisos e gargalhadas, de doces sussuros de palavras tontas nos meus ouvidos, de carícias e valsas dançadas em abraço apertado à luz do luar.

dezembro 07, 2006

Carta ao Menino Jesus


Querido Menino Jesus

Para este Natal queria pedir-te:

- que desses à minha mãe um emprego diferente, porque estamos os dois muito cansados de andar a correr no meio dos carros a vender pensos rápidos que quase ninguém compra.

- que pusesses um sorriso na cara do meu pai quando chega a casa carregado com o papelão que conseguiu apanhar.

- que tapasses o buraco do telhado da barraca para não entrar água quando chove.

- que pudéssemos comer carne e peixe uma vez por mês.

- que arranjasses a concertina do meu avô, pois desde que se rompeu o fole nunca mais ouvimos música nem dançámos.

- que o meu irmão mais velho, que já tem 9 anos, possa ir à escola em vez de sair a trabalhar com o meu pai.

- que o bebé que está para nascer tenha uma caminha só para ele e uma roupa nova.

- e para mim, se ainda puder ser, queria um pião, uma bola colorida e cinco pedrinhas para jogar com os outros meninos.

dezembro 06, 2006

Gaston


O meu gato chama-se Gaston e é, sem sombra de dúvida, o gato mais bonito do mundo. Durante o dia anda lá na vida dele, pouco me ligando a não ser que tenha fome e nessa altura enrola-se-me nas pernas aos miados.
Às vezes não o encontro. Chamo, procuro por toda a casa e acabo por dar com ele a dormir misturado com camisolas de lã, dentro dalgum armário ou dalguma gaveta que alguém momentaneamente deixou abertos. Olha para mim de lado, faz um ar indiferente e superior, espreguiça-se e vai-se no seu bamboleio elegante, de rabo no ar.
Quando vou à casa de banho, empoleira-se no bidé à espera que eu lhe abra a torneira, pois gosta de água fresca. Se me sento no sofá à noite, salta-me para o colo e aninha-se a dormir enquanto lhe afago a cabeça e o dorso.

Dorme comigo, o meu gato. Quando me deito e pego no livro que estou a ler, ele roça a cabeça nas páginas, ronronando por uma festa. Se está mais bem disposto, lambe-me o braço, cheira-me os lábios sem os tocar num prenúncio de beijo e, finalmente, enrosca-se encostado às minhas pernas. São os nossos grandes momentos de intimidade.

dezembro 04, 2006

perdendo-me

Perdida no fundo do fundo do teu olhar
Procuro retalhos de vida vivida
Onde me reveja em ti

Recordações de infância
(a minha avó a descascar maçãs nos degrauzinhos da entrada, perfume e um raio de sol)
De adolescência
(o primeiro beijo nas ondas da Costa da Caparica a saber a sal)
De juventude
(uma tenda numa praia deserta do Alentejo e lá fora a chuva a cair)

Procuro-te e não te vejo.
Perdida no fundo do fundo do teu olhar
Encontro labirintos de memórias onde eu não estou.

Outro rio, outras pontes, outras colinas, outros barcos
Cruzo-me com estranhos que passam sem me ver
Desconheço as ruas, as praças e avenidas

Num labirinto em ti onde não me revejo
Vivo os retalhos da vida
Perdida no fundo do fundo do teu olhar